A escolha de Sofia: o que devemos priorizar na Educação?
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A escolha de Sofia: o que devemos priorizar na Educação?

Os desafios da Educação brasileira são inúmeros e todos precisam ser vencidos. Por isso, se quisermos melhorar de maneira efetiva a qualidade do nosso ensino, vamos ter de elencar prioridades e fazer escolhas difíceis

Ana Maria Diniz

18 Agosto 2016 | 13h29

Há situações em que não temos saída a não ser optar por um mal menor. Isso acontece quando temos uma decisão impreterível a ser tomada, mas nenhuma das soluções possíveis é, de fato, 100% satisfatória. E só nos resta fazer a escolha de Sofia – alusão ao livro homônimo sobre uma prisioneira de Auschwitz obrigada a entregar um de seus dois filhos para ser executado pelos nazistas.

Todos concordam que se quisermos elevar a qualidade do nosso ensino básico a outro patamar precisamos começar a agir de forma mais contundente. Mas não há solução mágica, condições ou recursos para atacar todos os desafios de uma só vez. O problema é tão monumental e complexo que, para resolvê-lo, será necessário elencar prioridades e fazer escolhas duras.

 

Meryl Streep como Sofia na adaptação para o cinema do romance de Willian Styron

Meryl Streep como Sofia, na adaptação para o cinema do romance de Willian Styron

Nos últimos anos, avançamos em alguns índices, mas foi uma evolução pífia. O percentual de matriculados cresceu de 89,5% para 93,6%, mas ainda temos 2,7 milhões de crianças e jovens sem estudar. Também andamos, a passos de tartaruga, mas para frente, na busca por resultados mais aceitáveis nos primeiros anos do Fundamental. O Ideb, índice que mede a proficiência em matemática e português, subiu de 3,8 para 5,2 em 8 anos na média geral das redes pública e privada do país.

Mas isso ainda é muito pouco na Educação. Nosso ensino está cheio de gargalos, em todas as etapas do ciclo escolar. Tome como exemplo Fundamental II, que vai do 6º ao 9º ano. Eu costumo dizer que é nesta fase que perdemos os alunos. É quando tudo muda para o jovem. Em vez de um professor, ele passa a ter vários. As responsabilidades e a dificuldade aumentam. Sua evolução passa a depender mais dele próprio – e ele precisa estar bem “centrado” para avançar.

A perda do professor único é só uma das situações complicadas que as crianças dessa idade têm de enfrentar. A mudança escolar coincide com o início da adolescência, período marcado pela instabilidade. Quando o estudante chega no Ensino Médio ele se depara com um currículo extenso e desconectado da realidade. Os problemas de aprendizado anteriores se acumulam, impedindo seu progresso. Não à toa 43,3% dos jovens de até 19 anos não se formam.

Temos que pensar estrategicamente: o que produzirá mais resultados para a sociedade? Dirigir nossos esforços de política pública para os anos iniciais do Ensino Fundamental, garantindo que 100% das crianças sejam  muito bem alfabetizadas em português e matemática, promovendo, assim, uma boa base para próximas etapas? Ou focar no resgate dos jovens desinteressados e sem perspectivas do Ensino Médio? Ou,  ainda, priorizar as crianças que começam a perder o interesse pela escola ao se depararem com a multiplicidade e a falta de conexão emocional do Fundamental II?

Enfim, há inúmeros desafios a serem vencidos, e todos são urgentes. Essa é nossa escolha de Sofia. Resumindo, nossas opções seriam:

Investir no Fundamental I, para que os alunos entrem nas próximas fases de ensino mais preparados. Está comprovado que a formação do caráter das crianças se dá neste período. Quanto mais reais investirmos nesta etapa, maiores as chances de termos adultos saudáveis e equilibrados para enfrentar os desafios da escola e da vida.

Investir no Fundamental II, para garantir um maior engajamento dos alunos e criando um ambiente onde o aprendizado possa florescer. Quem se dispuser a executar um plano desta natureza terá de implementar um programa de desenvolvimento e acompanhamento das habilidades sócio emocionais. Só assim o aluno vai ganhar autonomia e responsabilidade para reconhecer seus próprios talentos para, em seguida, desenvolvê-los.

Investir fortemente no resgate do Ensino Médio e reformulá-lo por completo. Essa opção já é uma unanimidade entre os envolvidos com o tema. Nesta etapa, o aluno tem que conseguir olhar para frente e vislumbrar perspectivas, como uma careira ou outras formas de se sustentar que garantam sua independência. Há várias ideias em pauta para que essa reforma aconteça. Uma delas é a segmentação em áreas profissionalizantes, que permita ao aluno decidir entre uma profissão técnica ou a faculdade.

Eu não acredito que a decisão tenha que ser linear, privilegiando apenas uma ou outra fase do ensino. A minha aposta é que uma reforma ampla da formação inicial de professores, e um programa muito forte de formação continuada com foco nas práticas em sala de aula, com uma real e definitiva valorização da carreira docente, possa ser o elo central de uma corrente positiva para fazer virar a engrenagem da Educação brasileira e criar um círculo virtuoso!