A desilusão dos jovens
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A desilusão dos jovens

É impreterível cuidar e oferecer uma alternativa para os milhões de jovens que estão à deriva, sem capacitação e sem um sentido na vida para que eles tenham alguma chance no mundo pós-pandemia

Ana Maria Diniz

26 de fevereiro de 2021 | 13h21

De meados de março, quando as aulas foram suspensas, até o final do ano letivo mais improvável de todos os tempos, totalmente online, em dezembro, Leonardo, de 15 anos, encarou os contratempos da escola fechada com uma leveza surpreendente. Contrariando as expectativas de seus pais, que temiam pelo pior, o adolescente, que cursava o 9º ano em uma escola particular de São Paulo, adaptou-se ao ensino remoto, melhorou suas notas e lidou bem com a distância física dos amigos. O cancelamento da viagem para o Canadá, espécie de rito de passagem para o ensino médio, tradição em seu colégio, foi uma decepção e tanto. A formatura no Zoom, idem. Mas ele aguentou firme, afinal, 2021 estava logo ali, tudo seria diferente e melhor.

 

Só que o ano virou e tudo continuou como antes, ou piorou. O que Leonardo esperava reaver depois de tanto tempo dentro do quarto, no tão aguardado primeiro dia de aula presencial – a boa e velha rotina escolar, a interação com os professores, o papo com os amigos, a troca de sorrisos com a “crush”, os planos e os sonhos profissionais–, nada disso estava mais lá. O que ainda estava agora era proibido, em respeito às medidas sanitárias. Ao voltar para sua casa, depois do choque de realidade, ele teve a impressão que nem o futuro não existia mais, tinha ficado no passado. Em semanas, a positividade que o jovem se esforçou para manter em 2020 foi substituída pela apatia, pela repulsa à escola e aos estudos e pela falta de perspectivas.

Longe de ser um caso isolado, a história, verídica, é o retrato de um fenômeno que se já encaminhava e a pandemia exacerbou: a emergência de uma juventude desiludida em uma era em que as oportunidades são raras. A desesperança em massa entre os que hoje têm entre 15 e 24 anos é um problema tão sério que foi o tema central da 16ª Pesquisa de Percepção de Riscos do Fórum Mundial. Segundo o relatório, a desilusão da juventude é um dos principais riscos globais negligenciados e se tornará uma ameaça crítica para o mundo nos próximos dois anos caso essa geração não encontre saída para a encruzilhada em que está. Esses jovens, que já tinham as cicatrizes da crise de 2008 e de uma educação obsoleta, foram duramente golpeados pela pandemia e serão os mais afetados pelas suas consequências econômicas e sociais.

Recolocar a vida nos trilhos durante a Covid foi difícil para muitos de nós, mas será um desafio maior para as crianças e adolescentes, principalmente para as mais vulneráveis. Como mostra a pesquisa do Fórum Mundial, a saúde mental se deteriorou para 80% das crianças e adolescentes ao redor do mundo durante a pandemia. No Brasil, uma pesquisa do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), baseada em respostas de cerca de 7.000 pais, revelou que 27% de crianças e adolescentes entren 5 e 17 anos apresentavam sintomas de ansiedade ou depressão no ano passado em níveis clínicos, ou seja, que necessitavam de acompanhamento médico.

Além de cuidar da saúde emocional, em frangalhos, eles terão de correr atrás do aprendizado perdido. Antes da crise sanitária, o mundo já vivia uma crise de aprendizagem, com 53% das crianças em países de baixa e média renda não sendo capazes de ler e entender um texto simples aos 10 anos. Com o fechamento das escolas, o aprendizado vai se deteriorar ainda mais. Um estudo do Banco Mundial prevê que, no caso dos alunos do Ensino Médio, a proporção de estudantes que não aprendem o mínimo necessário subirá de 40% para 50%, só no curto prazo. Esses jovens entrarão no mercado de trabalho em meio a uma era do gelo do emprego sem a qualificação necessária e não terão para onde correr. Segundo o Fórum Mundial, metade dos empregados no mundo precisará de requalificação até 2025.

Habilitar as pessoas com as aptidões necessárias para participar da economia, agora e no futuro, seja ele qual for, constitui um problema urgente. Temos que pensar em como qualificar e requalificar nosso capital humano, já! O desemprego no Brasil foi de 14,1% no último trimestre. Entre os jovens, a situação é mais grave. As pessoas que têm entre 14 e 24 anos são 6,8 milhões do total de 14 milhões sem emprego. Eles representam 49% que não acham serviço, apesar de procurarem. Para tornar o cenário mais dramático, estima-se que 65% das crianças que entram hoje no ensino fundamental deverão trabalhar em ocupações ainda não existentes e não estão sendo preparadas para se adaptar às demandas futuras de trabalho.

É impreterível cuidar e oferecer uma alternativa para esses jovens que estão à deriva, sem capacitação e sem um sentido na vida. Isso é possível por meio do um ensino profissionalizante, como demonstram Horácio Lafer Piva, Pedro Passos e Pedro Wongtschowski em excelente artigo recém-publicado no Valor. Desmerecido no nosso país, o ensino profissionalizante está no cerne do desenvolvimento econômico de países como Alemanha, Suíça, Japão, Coreia do Sul e China. O novo ensino médio é um caminho que já está traçado neste sentido e pode ajudar a fortalecer a educação técnica.

O redesenho desta etapa educacional constituiu uma ferramenta importantíssima para que possamos introduzir os nossos jovens a seus destinos ainda na educação básica. Mas não vai adiantar sem a geração de modelos de colaboração em cada território a fim de facilitar a oferta e a demanda educacional. A elaboração de programa muito bem estruturado de ensino profissionalizante que seja para todos, dentro ou fora da escola, e atenda às necessidades do mercado e das comunidades onde esses jovens estão inseridos, pode ser a saída. Não é fácil de fazer, mas é possível e inadiável!

A pandemia de Covid -19 exacerbou problemas gravíssimos do Brasil cuja resolução vem se arrastando por décadas. Um deles foi não dar a devida atenção à nossa educação. Não temos o direito de deixar para nossas crianças e jovens um país deteriorado e ainda pior do que este em que vivemos hoje, de minar seus sonhos e condená-los a uma vida precária. Temos que nos unir – governo, sociedade e instituições privadas – , agora e daqui por diante, e agir para garantir uma vida digna às próximas gerações.

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