A crise na didática
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A crise na didática

O menosprezo pela prática profissional na formação docente, enraizado nas universidades, impede a formação de professores mais antenados com a realidade, com as escolas e com os jovens

Ana Maria Diniz

14 Junho 2018 | 12h13

O mundo está em crise. Crise da Coreia. Crise do emprego. Crise humanitária. O Brasil, então, nem se fala. Temos a política, a econômica, a do diesel, e por aí vai. A Educação está em crise faz tempo – aqui e lá fora. As escolas, idem. Mas há uma outra crise, seríssima, que envolve todo o sistema educacional e da qual pouco se fala: a crise na didática. Didática significa a arte de ensinar, de instruir por meio de métodos e técnicas apropriados. Pois a didática dos nossos professores está defasada, desconectada da realidade, dos jovens e das escolas.

Assim como outras crises, a crise da didática tem a ver com o período de transformações radicais em que vivemos. As formas tradicionais de transmissão de conhecimento não conversam com os alunos contemporâneos. Nascidos em um mundo multimodal, no qual as relações são cada vez mais horizontais tanto no trabalho quanto na gestão do conhecimento, esses jovens demandam novos canais de comunicação, novos métodos de ensino e um novo professor, bem diferente daquele convencional que estamos acostumados a ver e a projetar, estereotipado, em nossas mentes. O menosprezo pela prática profissional na formação docente, que encontra terreno fértil nas universidades brasileiras, alimenta ainda mais essa desarticulação.

Muito se fala sobre a figura do novo professor no contexto da complexidade, mas quem é ele realmente? Quais competências e habilidades ele deve ter para exercer bem sua função? Como deve ser sua formação? Divulgado na segunda, dia 12, o relatório Políticas Eficazes para Professores, Compreensões do Pisa, da OCDE, lança luz sobre essa questão, ainda nebulosa, de maneira inédita. O estudo, o mais abrangente do tipo já executado, examinou dados de 72 economias a fim de identificar as diferenças entre os países campeões e os lanterninhas do PISA no que diz respeito à formação, avaliação e valorização de seus docentes e como isso implica no aprendizado real dos jovens.

Segundo o relatório, há três pontos em comum em relação à formação e à carreira docente entre os 17 países com maior percentual de alunos com as notas mais altas do PISA, entre os quais Austrália, Canadá, Estônia, Finlândia, Alemanha, Hong Kong e Japão:

– A obrigatoriedade de um período de estágio probatório, que se dá durante a formação inicial ou logo após seu término.

– Uma ampla oferta de ações de formação docente inicial e continuada oferecida pelas escolas de acordo com a necessidade de cada uma delas.

– Mecanismos de avaliação de desempenho dos professores que possibilitam a correção de possíveis falhas e um desenvolvimento profissional contínuo.

Já entre os países que amargam as piores colocações no PISA, e cujos alunos não demostram ter as competências básicas em matemática, leitura e ciências, essas políticas inexistem ou são conduzidas de maneira aleatória e ineficiente.

Como já escrevi aqui no blog, estamos diante de uma janela de oportunidade na nossa Educação. Em menos de dez anos, mais da metade dos professores do ensino básico terá idade para se aposentar ou terá cumprido o tempo mínimo de serviço que dá direito ao benefício. Essa necessidade de renovação maciça do quadro docente constitui uma chance única para formarmos professores mais preparados para o mundo atual, mais profissionais e com foco na eficiência em sala de aula.

Para as universidades de Pedagogia, cursos de licenciatura e futuros professores, é mudar ou morrer! A hora é agora!