Sobre saber e fazer o certo

Sobre saber e fazer o certo

Colégio Albert Sabin

07 de fevereiro de 2020 | 10h30

Reflexões sobre valores nas aulas de Filosofia se tornam prática vivida fora da sala de aula.

“Age apenas segundo uma máxima tal que possas querer que ela se torne lei universal”, escreveu o alemão Immanuel Kant, no século XVIII. “Tem que tratar os outros como quer que tratem você”, escreveu em maio o aluno Saulo Carolino dos Santos, do 3º ano do Fundamental, definindo em termos mais simples o conceito kantiano de Imperativo Categórico.

Saulo chegou à conclusão depois de ler o livro O Reizinho e Ele Mesmo, na aula da professora Juliane Pantaleoni. “É a história de um reizinho que achava que podia ser poderoso e mandar em todo mundo, mas descobriu que nem nele mesmo ele mandava”, escreveu em seu caderno. A leitura ensejou uma conversa na turma, que já havia debatido em aulas anteriores temas como “Amizade”, “Respeito” e “Solidariedade”. Em outra aula, a lição de casa havia sido conversar com as famílias sobre “Igualdade” e registrar as descobertas. “Igualdade é quando todas as pessoas têm os mesmos direitos e deveres”, escreveu Saulo.

Pelos próximos meses, novas discussões e atividades continuarão motivando os alunos do 3º ano a pensar sobre os valores que regem a vida em sociedade. Um trabalho alinhado ao das professoras do 2º, do 4º e do 5º anos, conforme recente revisão do currículo de Filosofia do Fundamental I do Sabin, que, assim a equipe espera, possibilitará a Saulo e a seus colegas irem além das reflexões teóricas, para demonstrarem concretamente, no dia a dia, que os valores discutidos podem se tornar prática vivida fora da sala de aula.

Disciplina da parte diversificada do currículo do Ensino Fundamental do Sabin, a Filosofia sempre foi trabalhada no Colégio como uma área de reflexão sobre certo e errado, sobre atitudes positivas para a construção de relações interpessoais harmoniosas. Mas ajustes e aprimoramentos metodológicos também sempre foram constantes.

Lucia Helena Tristão, orientadora educacional e assessora de Filosofia do Fundamental I, lembra, por exemplo, que, há alguns anos, o Sabin utilizava trechos dos livros do americano Matthew Lipman – expoente do ensino de Filosofia para crianças – quando ela se juntou à equipe, em 2011. “São livros muito bons, mas não exatamente adaptados ao contexto brasileiro”, diz Lucia. “Fomos buscar na nossa Literatura outras fábulas e histórias que motivassem discussões ricas sobre convivência, respeito, bullying, etc.”

Mais recentemente, o programa passou por ajuste ainda mais significativo. Em 2016, iniciou-se um trabalho de assessoria de profissionais do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem) aos professores do Sabin, voltado para a qualificação da equipe para a educação em valores sociomorais, a mediação de conflitos e a promoção de uma cultura de paz. Desde então, os professores têm buscado refinar o foco das aulas de Filosofia, para que, das discussões sobre dilemas e situações específicos do cotidiano (“se eu achar um estojo perdido no pátio, posso ficar com ele?”; “o que posso fazer se um colega me provocar?”), nasçam reflexões profundas sobre os valores subjacentes a tais situações.

“A questão que percebíamos”, diz Dionéia Menin, coordenadora pedagógica da Educação Infantil e do Fundamental I, “era que as discussões que tínhamos nas rodas de conversa nem sempre sobreviviam após as atividades. Os valores nem sempre eram aplicados fora da sala de aula. Tanto que, às vezes, alguns pais e mães ficavam surpresos ao conhecer os conteúdos trabalhados nas aulas de Filosofia”.

O que a coordenadora e sua equipe desenharam para resolver essa questão não é radicalmente diferente do que já vinha sendo feito, mas traz consequências importantes. Em primeiro lugar, elas procuraram repensar o currículo de Filosofia de modo a identificar grandes valores que sirvam de eixos temáticos para cada série, de acordo com o perfil das faixas etárias. Assim, se no 2º ano o aluno ainda se mostra autocentrado, marcado pelo egocentrismo natural da primeira infância, o trabalho da série enfatizará os conceitos de Amor, Respeito, Escuta do Outro e Empatia. Já no 3º e 4º anos, crianças que ainda têm dificuldades em resolver conflitos sem a mediação de um adulto e que demoram a reconhecer seus erros refletirão sobre Honestidade, Verdade, Justiça e Igualdade.

Neste ano, por exemplo, um dos primeiros temas debatidos em assembleia pelos alunos do 4º ano foram às normas que regem a comunidade do Sabin, e a diferença entre tais normas e as regras morais, estudo que os leva a compreender o que é indisciplina e o que é incivilidade. “Se eles entendem quais são as regras e o fundamento delas, entenderão que, quando a professora pede silêncio na aula, é pelo respeito aos outros”, diz Lucia Helena.

Assembleias são realizadas com frequência nas aulas de Filosofia do 4º e 5º anos e são semelhantes às rodas de conversa do 2º e 3º anos, mas seguem um processo mais sistematizado, com redação de atas, ordem de fala, e partem de temas escolhidos pelos alunos.

Além disso, os alunos passaram a produzir mais registros das discussões em sala de aula e mais lições de casa que envolvam as famílias. “Converse com sua família sobre o Amor e registre as descobertas”, lê-se no caderno de uma aluna de 2º ano, que escreve: “Amor é tudo que a mãe sente pelas filhas. Amor é carinho. Amor é cuidar da natureza e dos animais”.

Segundo Lucia, o projeto está seguindo uma sequência mais coesa ao longo dos anos – “antes, um tema discutido em uma série nem sempre era recuperado no ano seguinte, para ampliação dos valores ligados a ele” –, e o aumento do material produzido para registro vai envolver mais os pais, alunos e professores de outras séries. O que também é fundamental, já que é pelo exemplo de todos, pela prática vivida numa comunidade, que se consolida na criança uma educação moral sólida.

É o que faz a diferença entre resolver situações de conflito apenas para obedecer à professora e sentir, de verdade, respeito pelo colega. Entre seguir regras “porque sim” e porque se as entende. Entre reprovar as ações de um reizinho mandão e levar, para a vida prática, o valor da igualdade.

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