Redescobrindo as próprias metas e sonhos

Redescobrindo as próprias metas e sonhos

Colégio Albert Sabin

21 Novembro 2018 | 10h34

Rodas de diálogo ajudam alunos a encarar angústias com maturidade

A última segunda-feira de maio amanheceu com o País em estado de tensão e incerteza. Fazia uma semana que caminhoneiros haviam deflagrado uma paralisação em protesto contra os reajustes do preço do diesel, e milhões de brasileiros tentavam lidar com a mobilidade comprometida por falta de combustível, a ameaça de escassez de produtos nos mercados e outros impactos da greve.

Naquela manhã, porém, os alunos da 2ª série E do Ensino Médio do Sabin tinham preocupações de outra natureza em mente. Reunidos no Espaço Maker do Colégio, eles participavam de um encontro com o psicólogo e consultor em Psicologia Escolar Ricardo Frenkiel, que faz a mediação de rodas de diálogo com cada uma das turmas de 1ª e 2ª séries do Médio. Como estratégia inicial para “quebrar o gelo”, Ricardo pediu que os alunos conversassem entre si sobre tópicos variados, como séries favoritas, medos, sonhos e, sim, suas opiniões sobre a greve dos caminhoneiros. Mas logo um tema ganhou proeminência sobre os demais e dominou o restante da hora e meia de dinâmica conduzida pelo psicólogo: a pressão que a maioria da turma dizia sentir para ter bom desempenho nos estudos e no vestibular.

O psicólogo ouviu as queixas sem oferecer respostas ou soluções, apenas devolvendo perguntas aos alunos. Se falavam em “pressão”, ele pedia: “Definam pressão”. Se reclamavam de ter de “decorar um negócio que só serve para o Enem, mas que não vai fazer diferença para a vida”, indagava: “E o que vocês precisam para a vida?” E, ao perceber que a conversa girava em torno do que pais e professores esperariam dos alunos (“eles acham que…”, “eles querem que…”), ou de como o modelo de vestibular seria imperfeito, Ricardo propunha: “Vamos tentar ser protagonistas? O que vocês podem fazer a respeito? O que está dentro da sua esfera de competência poder mudar?”

Ricardo não queria provocar, e a turma sentia isso. Sua intenção – o principal objetivo das rodas de diálogo que o Sabin tem promovido com os alunos do Médio – era a de convidá-los a olhar para seus problemas de outro ponto de vista. De uma perspectiva em que pudessem ver como tais problemas não se originam de nenhuma prova ou tarefa específica, nem de vestibulares difíceis ou de pressões familiares, mas de questões bem mais profundas. Questões que, com a atitude certa, podem ser administradas.

Segundo Ricardo Frenkiel, a ideia das rodas de diálogo é criar um espaço para os alunos falarem livremente sobre os temas que mais lhes interessam, identificar angústias coletivas e propor ferramentas para que eles próprios possam resolvê-las, ou ao menos lidem com elas de maneira mais produtiva.

Após uma primeira rodada de encontros no primeiro semestre, duas dessas “angústias coletivas” ficaram evidentes para o consultor e a Coordenação. “Em geral, as 1ªs séries trazem questões relativas a relacionamentos e vida social”, diz Ricardo, notando que, na passagem do 9º ano para a 1ª série, alguns grupos de amigos formados durante o Fundamental (turmas da manhã e à tarde) são desfeitos para se encaixarem em uma nova grade horária (aulas regulares só pela manhã). Já para as 2ªs séries, os estudos e a iminência do vestibular são as maiores fontes de preocupação.

Para a coordenadora do Ensino Médio, Áurea Bazzi, o diagnóstico não surpreende nem reflete incômodos específicos aos alunos do Sabin, mas aflições próprias à atual geração de adolescentes, que vêm inquietando educadores em diversas escolas. “Tem-se notado certa falta de autoconfiança nessa geração, certa tendência ao ‘entreguismo’: ‘Não consigo, não sou capaz’”, diz Áurea. “À medida que ficam mais velhos e as demandas sobre eles aumentam, muitos jovens têm deixado de tentar, de almejar e de sonhar”.

De acordo com Ricardo, tanto a baixa autoconfiança quanto a dificuldade em se relacionar – que, no extremo, manifesta-se em casos de bullying – sentidas pelos jovens de hoje explicam-se, em parte, por um mesmo elemento onipresente da vida moderna: as redes sociais.

Em primeiro lugar, diz o psicólogo, a maior parte das relações mediadas pelas novas tecnologias, mesmo para quem tem centenas de “amigos” ou “seguidores”, são “vínculos frágeis”, não fundamentados em valores. E vínculos que promovem comparações e parâmetros de realização pessoal nada saudáveis. “O jovem sente que precisa desempenhar um papel social mais para o outro do que para si mesmo”, diz Ricardo. “Mas, quando o outro é seu parâmetro, as frustrações são maiores, porque cada um tem sua potencialidade”. Áurea confirma a avaliação do consultor: “Eu ouço os alunos se queixarem de que, nas redes, todo mundo está feliz o tempo todo”.

O problema de fundo, argumenta Ricardo, não é que eles não sejam capazes de bom desempenho – nos estudos, no vestibular, nas relações –, mas que muitos perdem de vista o porquê de se esforçar e enfrentar desafios. Desempenhar para o outro não motiva, dá preguiça (não por acaso, nas rodas de diálogo, a “preguiça” foi apontada por 85% dos alunos da 2ª série como principal dificultador de seus estudos). “Percebendo isso, nós decidimos lidar com essa questão não focando o aspecto do sofrimento, mas sua alternativa: discutindo metas e projetos de vida”, diz Áurea Bazzi.

É um dos pontos que Ricardo Frenkiel tem buscado enfatizar nas rodas de diálogo. “Queremos fazê-los ver que os estudos difíceis e o vestibular concorrido têm menos a ver com aceitação familiar ou sucesso profissional e mais com o desenvolvimento pessoal de cada um, o meio para atingir seus sonhos”. Além disso, ele tem convidado os alunos a olhar para os colegas não como espelhos com os quais se comparar, mas como parceiros de jornada. “Eu tenho sugerido que eles conversem mais entre si, organizem grupos de estudo, ajudem-se sabendo que cada um tem suas potencialidades”, diz o psicólogo, que também tem proposto testes e dinâmicas para que os alunos descubram os métodos de aprendizagem e de organização de tempo mais adequados ao perfil de cada um. “A pressão é sobre todos; as provas e lições passadas para um grupo são rigorosamente as mesmas para outro. Então, vamos juntos, que a pressão é menor”.

Para Áurea, as rodas de diálogo são “uma forma de abrir espaço para a expressão das angústias dos alunos e para seu acolhimento; mas não para propor resolver os problemas por eles, e sim para convidá-los a um diálogo maduro sobre o que querem da vida e o que terão de fazer para alcançar”.