Pais e filhos adolescentes: diálogo e compreensão

Pais e filhos adolescentes: diálogo e compreensão

Colégio Albert Sabin

07 Março 2016 | 08h00

“Nossos adolescentes atuais têm maus modos”, “desprezam a autoridade”, “são desrespeitosos com os adultos” e “propensos a ofender seus pais”. Poderia ser um diagnóstico contemporâneo, feito por algum adulto impaciente, pouco compreensivo e um tanto inábil sobre uma das fases mais delicadas do desenvolvimento humano, mas essas palavras foram proferidas no século V a.C., na Grécia, por ninguém menos que Sócrates.

Não é de hoje, então, que o conflito entre gerações faz os adultos imaginarem – equivocadamente – que os “adolescentes atuais” são “mais difíceis”, “indóceis” ou “agressivos” do que os de antes. Na adolescência, há uma transição em marcha, uma ruptura entre o filho idealizado pelos pais e o filho real. Essa transição causa choques, envolve enfrentamentos, mas é normal e precisa ser encarada com serenidade. Para tanto, a escola pode ser um espaço privilegiado na intermediação dessas tensões e colaborar com pais e filhos a fim de compreenderem melhor essa fase, buscando atuar como parceira da família.

Alguns pais creditam as mudanças de conduta e de temperamento pelas quais passam os filhos, na adolescência, a fatores externos – amizades, namoros, festas, internet, por exemplo. É como se os responsáveis sentissem que os filhos continuariam os mesmos se alguém ou alguma coisa não tivesse interferido. Mas não é o caso: a mudança parte do próprio adolescente, e das circunstâncias e dos estímulos aos quais estão expostos. A escola, nesse sentido, pode ajudar a família a compreender isso com mais clareza.

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De fato, desenvolver novos interesses, gostos e hábitos, muitas vezes até contrários aos dos pais, é etapa normal do processo de construção da identidade e de aquisição da autonomia, como explicou o psiquiatra e psicanalista José Outeiral – referência nos estudos sobre adolescência, falecido em 2013 – no livro Adolescer: “Uma das tarefas centrais da adolescência é a ‘independização’. Para poder se ‘independizar’, ocorrerá, nesse momento, que o adolescente necessitará desvalorizar os pais, pois, assim, sentirá que se afasta sem perder muito”. Que ninguém se angustie, no entanto.

“É necessário deixar claro”, continua Outeiral, “que esta não é uma ruptura com a família, mas sim a transformação de vínculos infantis de relacionamento por outro tipo de vínculo mais maduro, mais independente e de maior tolerância (menor idealização) dos pais”. O trajeto para a idade adulta, dizia o psicanalista, pode ser agitado, mas conduz a águas mais suaves.

Para enfrentar o percurso, enquanto isso, as primeiras ferramentas à disposição dos pais são paciência e compreensão, inclusive com seus próprios sentimentos.

Assim como é normal o filho entrar em choque com a família, também é normal que os pais passem a se relacionar com o filho de outra forma, desenvolvendo por vezes uma postura de repreensão e estranhamento sobre o comportamento adquirido pelo adolescente. É necessário, entretanto, estar atento aos sinais protagonizados pelos filhos para além das situações concretas.  Uma fala atravessada, por exemplo, não significa que o adolescente esteja rechaçando valores defendidos pela família, mas tentando sondar como os responsáveis encaram determinados pontos de vista.  Do contrário, sem captar com sensibilidade tais procedimentos, de repente, o filho ideal, a criança que era como uma extensão da família, pode se tornar, equivocadamente, um estranho.

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É preciso reconhecê-la e respeitá-la como um indivíduo que passa por uma fase que pode estar marcada por um sentimento de solidão, por melhor que estejam as relações com os pais ou com os amigos. O adolescente percebe, por vezes, a sensação de que ninguém é capaz de entendê-lo em profundidade.

Tal estranhamento, portanto, não facilita o diálogo; a importância dada aos amigos, nessa fase, é justamente pelo encontro com o semelhante que já não há na família. Não é incomum, neste período, que os adolescentes desenvolvam mecanismos de defesa e passem a omitir informações ou mesmo a contar versões que não correspondem aos fatos. Por isso mesmo, não podemos desistir de dialogar.

Fechar o diálogo é sustentar o estranhamento. Até porque, garantem os especialistas, mesmo quando parece alheio, o adolescente ouve a família: “Os pais imaginam que os filhos não prestam atenção em suas palavras, não lhes dão ouvidos. Não é verdade”, afirmou o médico hebiatra (especializado em adolescência) Maurício de Souza Lima, em entrevista ao médico Drauzio Varella. “Muitos [pacientes] já me disseram textualmente: ‘Sabe, na hora, eu lembrei de (sic) uma consulta, ou do que meu pai e minha mãe falam, e achei melhor não fazer aquilo’”.

Palavras como essas tranquilizam, e a escola também pode contribuir acompanhando pais e filhos nesse processo. Não para assumir o papel da família e impor aos adolescentes determinadas regras de comportamento que os pais desejam (“fique de olho na minha filha para ela não namorar” ou “não deixe meu filho beber”). Nem para adotar a função de confidente dos adolescentes e fazer pactos irresponsáveis (“o meu pai não pode saber”). Mas para colaborar na construção de um canal a fim de que ambos os lados possam compreender o outro e possam estabelecer um relacionamento saudável e respeitoso. 

Laércio da Costa Carrer

Coordenador do Ensino Fundamental II.