Onde teoria e prática se encontram

Onde teoria e prática se encontram

Colégio Albert Sabin

26 Dezembro 2016 | 10h00

Às vezes, os livros ou a internet apenas não bastam para conhecermos a realidade. Em uma quinta-feira de setembro, 20 alunos da 2ª série do Ensino Médio viajaram até Bertioga, litoral paulista, onde fariam o trabalho de campo de pesquisas sobre diversos aspectos do ambiente natural e humano daquela cidade. Alguns estudavam a biodiversidade do lugar; outros, o patrimônio de quase 500 anos de história; outros, ainda, fariam a análise das marés.

Luiza Assumpção e Rebeca Folgueral estavam lá para investigar a viabilidade econômica da pesca. Munidas de caneta, cadernos e câmeras, foram ao Mercado Municipal de Peixe de Bertioga ouvir mercadores e pescadores sobre as condições da atividade à qual se dedicavam. O encontro da dupla com um pescador está registrado em vídeo. Sentado em um banco do mercado, ele não hesita ao responder à primeira pergunta das alunas sobre a pesca em Bertioga, visivelmente contrariado: “Péssima”.

Elas não estavam preparadas para aquilo. Por meses, haviam estudado sobre o município. Haviam lido sobre a importância da pesca para o sustento dos moradores locais. Sabiam de dificuldades – principalmente devido à poluição nas águas da região, que afetava a saúde dos peixes –, mas não esperavam resposta tão contundente do entrevistado.

“Ele fechou a cara na hora. A gente ficou até sem reação, não sabia mais o que perguntar”, lembra Rebeca. Elas insistiram: “Péssima? As pessoas não dão valor?” O pescador balançou a cabeça. “Você não recomenda viver disso?” E então o homem explicou o que elas não haviam lido em livro ou site nenhum. “Porque é o seguinte: aqui você traz o produto, mas quem ganha o dinheiro é o atravessador lá na frente”, diz o pescador, apontando para uma bacia de camarões aos seus pés, como se dissesse: “Vê isso aqui? Não vai dar nada”.

saida pedagogica em sabin

O encontro foi necessário para a pesquisa; sem ele, talvez as conclusões da dupla fossem outras. Não necessariamente contrárias, mas menos profundas. Afinal, uma coisa é ler que a população de uma cidade vive da pesca. Outra coisa é descobrir que o mesmo quilo de peixe que o pescador vende por R$ 15, o lojista vende por R$ 32, obtendo um lucro bruto de 113%. “Mesmo nas quartas-feiras, dia de promoção, o lucro do lojista é de 87%”, diz Luiza. “E o pescador ainda tem de arcar com o custo do barco, do combustível, dos equipamentos”. O sentido de “viver da pesca”, então, ganha matizes não cobertos pela teoria. Que é um dos principais ganhos do trabalho em campo de qualquer pesquisa e um dos motivos pelos quais o Sabin investe tanto nos chamados estudos do meio.

Os estudos do meio da 1ª e 2ª séries do Ensino Médio já são tradição no Albert Sabin. Projetos interdisciplinares de pesquisa, eles envolvem meses de preparo e leitura sobre os temas designados, a viagem em si e a elaboração de um produto final que vale um ponto na mé- dia do 3º trimestre. Para as 1as séries, trata-se de um ensaio de apreciação; para as 2as séries, uma revista eletrônica, com textos, fotografias e registros audiovisuais (como a entrevista de Luiza e Rebeca com o pescador).

Neste ano, foram oferecidas duas opções de destino para cada série: uma viagem mais extensa, de 3 dias e 2 noites, com oportunidades de conhecer mais a fundo os lugares visitados (para a 1ª série, o Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira, o Petar; para a 2ª , a cidade de Cananeia), ou uma opção mais econômica, de um dia apenas. Foi o caso da viagem a Bertioga (para a 1ª série, a alternativa foi o Parque das Neblinas, em Mogi das Cruzes).

Nenhuma das opções é obrigatória – alunos que quiserem podem ficar em São Paulo e contribuir de outra forma com os colegas de grupo, na realização das pesquisas e na elaboração do ensaio ou revista. Mas, inevitavelmente, quem participa dessas saídas pedagógicas retorna ao Sabin assegurando o seu valor.

“Não é só por ser legal ou divertido. Para fazer o trabalho, faz muita diferença”, diz Gabriela Tápias, da 2ª série. O grupo de Gabriela foi a Bertioga para estudar os impactos do turismo no meio ambiente. Especificamente, o impacto do lixo. Os alunos foram a fundo na pesquisa, colhendo dados de órgãos públicos e artigos científicos que indicavam como o aporte de turistas em meses de fé- rias desafiava a estrutura de coleta da cidade. “Segundo o Plano Nacional de Resíduos Sólidos, Bertioga produz […] um total de 2.100 toneladas por mês, aumentando de seis a oito vezes em alta temporada”, registram os alunos, em um dos artigos de sua revista eletrônica.

A presença de Gabriela na cidade, conversando com moradores e fotografando provas do descaso das pessoas com o meio ambiente – “vimos animais mortos, latas de cerveja” –, garantiu ao trabalho uma propriedade no discurso difícil de ser contestada.

No Parque das Neblinas, alunos da 1ª série também sentiram na pele a diferença em ter contato direto com seus objetos de estudo. No caso de Mariana Marcotti e Laura Lupatin, inclusive, não só na pele como no paladar.

O grupo delas estudou as propriedades químicas do fruto cambuci, bastante comum no parque, uma reserva de 6.100 hectares de Mata Atlântica. Recebidas com um café da manhã cheio de produtos locais (como o cambuci ou o palmito juçara), Mariana e Laura já começaram o dia provando o sabor do cambuci. “Tem gosto de tudo. Primeiro é doce, depois amargo, depois adstringente”, diz, pronunciando com cuidado a palavra que aprendeu nas conversas com cozinheiros e monitores.

Já a aluna Leia Strauss estava lá para estudar a possibilidade de se conciliar conservação ambiental com desenvolvimento socioeconômico. O encontro com um monitor que vivia da caça de animais e se tornou guardião da mata, por si só, já apontava caminhos mais sustentáveis para os moradores locais.

“É interessante como [o Parque] é tão perto, mas as pessoas têm um cotidiano e uma cultura tão diferentes”, diz Leia. É nesse contato com outras realidades e outros modos de vida, aliás, que as saídas pedagógicas se mostram ricas, segundo a coordenadora do Ensino Médio, Áurea Bazzi, que acompanhou a turma ao Parque das Neblinas. “Falamos muito em promover competências como o respeito à diversidade, a generosidade e a consciência cidadã entre os alunos”, diz a coordenadora. “Nessas saídas, você vê como eles ouvem os moradores locais com respeito, como se integram como grupo, como voltam mais maduros”.