O que se aprende em casa

O que se aprende em casa

Colégio Albert Sabin

27 de outubro de 2020 | 10h04

Na quarentena, a proximidade entre escola e família tornou-se mais importante do que nunca.

Antes de tudo isso, Isabella Annesi já gostava de brincar de escolinha com suas bonecas. De reuni-las para a aula e passar lições que ela mesma, alternando-se nos papéis de professora e aluna, tratava de resolver. Então vieram os meses de distanciamento social, e a escolinha de bonecas de Isabella passou a receber uma convidada frequente: sua mãe, Elaine Roberta, que aproveitava a brincadeira para reforçar conteúdos que via a filha aprender de verdade, com sua turma de Pré II do Colégio AB Sabin. “Eu ia sugerindo problemas para as bonecas”, diz Elaine. “Por exemplo: ‘Eu fui à feira e comprei 5 bananas e 3 maçãs; quantas frutas eu comprei?’”

Mãe de Gabriel Carmo, também aluno de Pré II do AB Sabin, Ana Paula Gomes é mais uma que passou a estimular o filho a aplicar na rotina de casa os conhecimentos adquiridos nas aulas a distância. “Se ele tinha atividade de escrita de palavras com a letra S, eu passava a semana chamando a atenção para coisas que se escrevem com S”, diz Ana Paula – uma maneira de fazer com que o sofá, o suco e as sacolas do dia a dia contribuíssem para o aprendizado do “Biel”.

Embora não fosse a primeira vez que Ana e Elaine se envolvessem com os estudos dos filhos, fato é que, durante a quarentena, os pais de crianças em idade escolar – sobretudo das mais jovens – se viram obrigados a assumir um papel significativamente maior na educação delas. O que, por sua vez, exigiu das escolas oferecer suporte e orientação para que os pais soubessem como cumprir esse novo papel – tanto no acompanhamento de aulas e atividades como na manutenção da rotina doméstica, que também tinha muito a ensinar. No cenário imposto pelo distanciamento, a proximidade entre escolas e famílias tornou-se mais importante do que nunca.

Segundo Sílvia Adrião, diretora do AB Sabin, a forma como o Sabin e o AB Sabin têm promovido o ensino remoto durante a quarentena tem por princípios a flexibilidade e o diálogo permanente.

Por um lado, os dois colégios passaram a postar nas plataformas on-line de aprendizagem, a cada semana, a mesma quantidade de aulas que os alunos teriam presencialmente, em condições normais – sejam aulas ao vivo com horário determinado (lives), sejam documentos de texto, áudio e vídeo com indicação de exercícios e atividades. Por outro lado, ressalta Sílvia, desde o começo deixou-se claro que a participação dos alunos no processo seria esperada na medida do possível de cada família. “Nada foi exigido. Tínhamos a compreensão de estarmos em uma situação emergencial não ideal, de vivências extremamente novas para todas as partes”, diz a diretora.

Assim, tanto a presença dos alunos nas lives quanto a realização das tarefas precisam se adaptar às condições de cada família. “Desde o início as lives foram gravadas, para quem só pudesse ver depois”, diz Andréa Silva, orientadora educacional da Educação Infantil do Sabin. “Devido à rotina dos pais, algumas famílias deixavam para fazer as obrigações escolares do aluno nos fins de semana”.

Foi o que aconteceu com a família de Gabriel Carmo. “Eu e meu marido trabalhamos o dia inteiro em casa”, diz Ana Paula, que é profissional de TI, como o marido, sobre a nova rotina doméstica estabelecida no primeiro semestre. “Durante a semana, Gabriel assistia à live com a turma de manhã, mas só de noite, quando acabávamos o expediente, nós fazíamos algumas atividades com ele. Era nosso ‘supletivão do Pré’”. Para compensar, a mãe concentrava a maior parte das tarefas do filho no fim de semana.

Facilitava, segundo Ana, que a maioria das propostas eram lúdicas, brincadeiras mesmo, que podiam ser realizadas com objetos simples da casa, como pregadores de roupa, tampas de panela ou os próprios brinquedos da criança. “Priorizamos vivências materiais, de experimentação motora – batucar, picotar papel, dançar –, e, principalmente, com tempo adequado de exposição a telas de computador ou celular, seguindo recomendações de saúde para crianças dessa idade”, diz Sílvia Adrião.

“Às vezes, eu nem contava para ele que eram atividades da escola, eu disfarçava e dizia ‘Vamos brincar’”, diz a mãe do Gabriel, que registrou várias dessas brincadeiras do filho em vídeos e fotos (que ilustram esta matéria).

Mas é claro que não se trata de simples brincadeiras. “São sequências didáticas preparadas com base em expectativas de aprendizagem da faixa etária, com curadoria das professoras”, diz Sílvia. Segundo ela, a escola serve como mediadora de “aprendizagens intencionais, que são a grande diferença, em geral, das aprendizagens do lar”. Haveria intenção pedagógica, assim, até nos momentos de ócio criativo ou de livre brincar da criança – sem interferência de adultos –, como também foi pedido às famílias cultivar.

Para a coordenadora da Educação Infantil do Sabin, Dionéia Menin, o que os colégios propõem é “um tipo de estimulação adequada, saudável” – e não apenas nos trabalhos escolares. “As famílias nem sempre têm noção de que as coisas do dia a dia ensinam. Manter uma rotina é importantíssimo para a criança pequena desenvolver, por exemplo, a noção de sequência temporal, de antes e depois”, diz Dionéia.

É só um exemplo, porém, de uma aprendizagem bem mais ampla: a consolidação das chamadas funções executivas, que se dá principalmente na primeira infância. “São habilidades mentais que regulam o comportamento, a cognição e a emoção. Elas nos ajudam a focar, planejar, gerenciar várias informações ao mesmo tempo, rever planos, resistir às distrações e evitar ações precipitadas”, diz Andréa Silva. E seguir uma rotina – por exemplo, ter hora para comer, tomar banho e dormir, tirar o pijama para começar a aula, guardar os brinquedos depois de usá-los – auxilia na aquisição de tais habilidades.

Daí por que foi tão necessário, diz Sílvia, estabelecer canais de diálogo constante entre as famílias e os colégios. “Buscamos dar apoio total aos pais, mantendo contato por diversos canais – ClassApp, e-mails, telefone –, para oferecer tanto orientações coletivas como atendimentos individualizados”, diz a diretora do AB Sabin.

“A gente passou a ter mais noção do que ela aprende, de como é o processo educacional”, nota Elaine, a mãe de Isabella, que diz ter recebido dicas importantes, como os melhores tipos de livro para estimular o gosto pela leitura ou a montagem de um calendário familiar, em que a filha pudesse exercitar os números de 1 a 30, entre outras ideias que tornaram mais educativos os momentos em família. “A Isabella sempre se envolveu muito na rotina da casa; ela arruma o quarto, ajuda na cozinha. Aí eu aproveitava: ‘Vamos fazer um bolo, filha; como se escreve fa-ri-nha?’”

Ana Paula relata experiência semelhante com o filho. “Ele aprendeu muito em casa, teve um desenvolvimento notável. Nas atividades de leitura e escrita, ele primeiro só reconhecia as vogais, mas depois, com orientação, passou a ver algumas consoantes”, diz a mãe de Gabriel. “E percebo outras coisas muito importantes também, como ele saber que tem de fazer as obrigações primeiro, mesmo quando quer brincar”. Conquistas coletivas, alcançadas pelo fortalecimento da parceria entre colégios e famílias, que será cada dia mais importante.

 

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