O processo reflexivo na escola

O processo reflexivo na escola

Colégio Albert Sabin

28 de fevereiro de 2019 | 10h28

Iniciei minha carreira de professora quando ainda estava no segundo ano do Ensino Médio, após conseguir minha primeira certificação internacional em Língua Inglesa. Estagiava no contraturno, numa escola de inglês de bairro. Observar. Essa era a essência do meu trabalho naquele período. Observar a postura da professora, a interação dos alunos, as atividades propostas, o planejamento de aula, a interação das famílias, os materiais utilizados. Participar das reuniões pedagógicas, em que vários professores com diferentes perfis se encontravam para trocar ideias e experiências, era definitivamente um bônus. Logo tive a oportunidade de atuar na sala de aula como professora, e naquele momento, os papéis se inverteram. Agora era a minha vez de ser observada. Não por uma estagiária, mas sim pela coordenadora da escola. No início, o frio na barriga era inevitável. A primeira impressão num momento de observação de aula é a de que o educador está simplesmente sendo avaliado. Desejamos que a aula seja perfeita, o conteúdo, interessante, e que o processo de aprendizagem ocorra. Muitos desafios a serem vencidos em cinquenta minutos. Hoje, vinte e cinco anos depois de ser observada pela primeira vez, fica evidente que há muitos fatores mais importantes relacionados à prática da observação de aula do que a simples avaliação. Essa vivência, no Colégio Albert Sabin, é a prova disso!

A prática da observação de aula pode ocorrer de diversas maneiras. A aula pode ser gravada para depois ser analisada. Ela pode ser assistida por um colega, um orientador, ou um coordenador. A aula poder ser totalmente transcrita e a observação se focar na análise linguística do discurso do professor. Pode, também, ser observada por duas pessoas ao mesmo tempo, para que haja uma comparação das opiniões. A observação pode ainda ser um processo de auto reflexão, cujo objetivo é que o próprio educador revisite seu planejamento e o contraste com o resultado da aula. Em qualquer uma das situações de observação citadas, a riqueza está no processo reflexivo da formação do professor.

Atualmente, um processo de ensino-aprendizagem é considerado mais eficiente quando é oferecida, na sala de aula, a possibilidade de desenvolvimento das habilidades intelectuais (thinking skills) do aluno, independentemente de um conteúdo. São essas habilidades que prepararão os alunos para um mercado de trabalho que tem se mostrado cada vez mais exigente. Se o objetivo final do processo de ensino- aprendizagem não é mais a simples assimilação ou memorização de conteúdos diversos como era no passado, a aula não pode ser ministrada do mesmo jeito que era há alguns anos. Antigamente, o professor assumia um papel passivo, atuava como um mero transmissor de conhecimento. Uma primeira transição foi a de assumir o papel de facilitador, dividir o espaço com os alunos. Hoje, queremos chegar a uma transformação na qual o professor se torne um mediador, abra o espaço educacional para a discussão do que pode ser melhorado, propicie a análise crítica também do aluno que se tornará protagonista de seu aprendizado. Stuart Maclure, em sua obra Learning To Think, resume claramente para qual direção a evolução na educação caminha: para além da sala de aula:

 

[…] aprender a utilizar eficazmente o poder do pensamento através das disciplinas práticas e teóricas do currículo escolar trará benefícios a outros aspectos da existência humana: outras formas de resolver problemas em outros contextos.

Nessa perspectiva, o foco da assistência de aula está na otimização desse tempo precioso que temos com nossos alunos para que eles possam desenvolver suas habilidades, cada um com suas necessidades e prioridades. Para podermos trabalhar as melhorias deste processo de ensino-aprendizagem, precisamos dar o passo seguinte à observação que é o feedback da aula. É nesse momento que se inicia a transformação na educação. Para o professor conseguir absorver toda a riqueza de aprendizagem desta prática de observação, ele precisa estar aberto às mudanças. Sair da zona de conforto, explorar o novo, o desconhecido, é uma tarefa árdua, porém necessária. Entendo que essa prática pode ser o início de uma transformação maior da educação, porque o reflexo da mudança não ficará apenas na aula seguinte. A reflexão recairá sobre  todo o processo de ensino-aprendizagem, e não somente sobre os cinquenta minutos observados. Uma mesma aula não funciona da mesma forma em turmas diferentes. Quando o aluno se torna protagonista de seu aprendizado, as necessidades serão diferentes, as habilidades a serem exploradas em cada turma serão diferentes, e o professor precisará estar conectado e atento a todos os alunos, em diversos momentos.

A formação do professor, voltada para a reflexão e o desenvolvimento de uma consciência crítica, abrirá portas no espaço da sala de aula para um aprendizado significativo. No ambiente escolar, os professores precisam dialogar na diferença, questionar, assumir compromissos, submeter-se à crítica de seus valores, normas e direitos. Num feedback de assistência de aula, o professor pode refletir sobre suas habilidades, seu exercício de cooperação, desenvolver seu pensamento crítico, trabalhar com resolução de conflitos e fortalecer seu poder de argumentação. O educador estará em processo constante de formação. Segundo a Pedagogia das Perguntas, de Paulo Freire, o questionamento é uma ferramenta essencial no processo reflexivo. A pergunta, presente constantemente no momento de feedback, desestabiliza, cria conflitos, inicia um processo de busca. Uma questão permite-nos correr riscos, aventurar-nos, descobrirmo-nos, construirmo-nos como seres. A pergunta incita o pensar, produz momentos de conflitos cognitivos, possibilidades de produção de conhecimento, de atuação da negociação como forma de criação de novos significados, de autonomia e de criatividade. Enfim, a colaboração entre parceiros proporciona a construção de novos conhecimentos e, assim, o pensar sobre o fazer se torna um instrumento de transformação.

Renata Bongiovanni da Cunha  é Assessora de Inglês em Educação Infantil e Ensino Fundamental 1

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