O presente no retrovisor

Colégio Albert Sabin

17 Abril 2017 | 10h00

Alunos e professores que orbitam em torno da USP e da Unicamp já devem estar familiarizados com o debate sobre as consequências da cegueira causada pelo encantamento siderado com a tecnologia proposto por Eça de Queirós, na obra A cidade e as serras. Livro póstumo, publicado em 1901, escrito já no fim da vida, é também um acerto de contas, ou até redenção, do autor com seu país, ou pelo menos do Eça schopenhaueriano do primeiro impulso realista com o indivíduo que volta a olhar com uma espécie de afeto resignado para o país que havia lhe dado régua e compasso.

Jacinto, o protagonista, é um descendente de portugueses que nasce e cresce na Paris da Belle Époque e é tragado pela mentalidade cientificista dominante na segunda metade do século XIX. Até aí tudo bem, não seria má ideia viver intensamente aquela cidade, naquele momento da História. Mas o sujeito torna-se tão aficcionado com os elementos do que chama de Civilização, nomeadamente, todo o saber de cunho científico, comprovável pelas mais reluzentes modas teóricas, que começa a desdenhar todas as demais possibilidades de interpretação e análise do mundo, como se a versão racional dos fenômenos da vida fosse a única possível.

O personagem, que acumula toda sorte de mecanismos inventados em seu tempo (hoje, talvez trocasse tudo umas três vezes por ano), começa, então, a testemunhar panes de toda ordem em cada um de seus aparelhos. Sua resposta é mais um voto de confiança na Civilização: uma reforma profunda em sua casa, que incluiu a substituição dos aparelhos quebrados por outros, novíssimos e mais avançados; em suma, muito dinheiro empregado para afiançar, mais uma vez, sua tese de que a felicidade do homem dependia da Ciência e da Tecnologia.

Depois de a vida prática lhe dar mais alguns sinais da fragilidade de seu pensamento, Jacinto, por razões familiares, decide ir ao interior de Portugal prestar uma homenagem a seus avós, de quem ele havia herdado seu patrimônio. Receoso do que irá encontrar, decide levar, de trem, tudo o que julga essencial. O que quase lota um vagão de carga, que, também por problemas técnicos, vai parar em outro destino. Depois de chegar às serras desesperado, apenas com uma pequena mala, aos poucos vai pegando gosto pela vida simples, pela espontaneidade das pessoas e mesmo da natureza do lugar, até chegar, então, ao extremo oposto: passa também a defender a ideia de que o conhecimento empírico é o caminho para a felicidade.

O passo adiante da personagem ocorre quando ele consegue se libertar da necessidade de olhar o mundo a partir de um ponto de vista restritivo e reducionista, e começa a buscar um ponto de equilíbrio entre os dois discursos, os dois momentos de sua vida. Com, vamos chamar assim, alguns rompantes de altruísmo, Jacinto busca modos de trazer para as serras alguns elementos pertinentes à Civilização que servissem para melhorar a vida das pessoas do lugar. Ele consegue, com isso, harmonizar os dois polos de sua mentalidade.

A trajetória do personagem Jacinto aponta para a necessidade de reflexão naqueles momentos em que a Humanidade dá seus saltos. Um indivíduo que está no centro do processo, sob a pressão do contemporâneo, dificilmente consegue perceber a urgência de recuar um pouco para tentar ver as coisas em seu conjunto, em perspectiva. Daí a tendência de adesão espontânea e entusiasmada ao que se apresenta como novo, como a única saída possível, ou então de recusa ao próprio tempo, negação das possibilidades que, no caso, a tecnologia oferece.

A obra, então, dá dimensão histórica para uma questão que para muitos parece nova, resultado do nosso tempo, e que por isso mesmo é tratada – algumas vezes com a devida mediação, muitas outras como uma novidade que precisa de novas teorias, de preferência com novas designações, fadadas, aliás, à liquefação – com afinco, também por quem trabalha com Educação. O lado bom disso está na promoção do debate constante acerca das práticas pedagógicas nas escolas, em uma tentativa reiterada de mapear o perfil do aluno deste tempo, de testar os novos recursos disponíveis, o que leva os profissionais envolvidos a repensarem – ou ratificarem – suas práticas dentro e fora da sala de aula. O lado questionável pode ser o risco de essa atualização atropelar, ou nivelar, disciplinas que demandam modos e ritmos diferentes de ensino-aprendizagem.

Para o caso da Literatura, que para valer a pena deve ultrapassar os limites restritivos da análise esquemática dos textos, o andamento pode e deve ser outro, até para evitar que o aluno seja tragado pela mesma lógica que mesmerizou o Jacinto parisiense. E isso, convenhamos, não é difícil de acontecer. Os recursos e os materiais disponíveis oferecem um caminho bastante atrativo porque dão a ilusão de substituírem o contato com o texto original. A resistência à leitura leva o aluno, por exemplo, aos sites que publicam resumos de obras, o que sem dúvida pode ajudá-lo a entender o enredo, vencer as eventuais barreiras linguísticas – ou simplesmente o sono. Outra tendência é a leitura de análises soltas, muitas vezes contraditórias, o que resulta em um acúmulo de informações que pouco ajudam na compreensão do assunto.

A sala de aula é o espaço para alcançar o equilíbrio; o professor de Literatura é o sujeito que pode oferecer o contraponto ao caos, organizar a conversa e promover o momento – cada vez mais raro – da leitura e da interpretação, trecho a trecho, verso a verso. Uma aula de Literatura, desse modo, vai na contramão da dinâmica de resolução de listas de exercícios. A prioridade é balancear a interpretação espontânea, momento em que o aluno e o texto de outra época se cumprimentam e ganham alguma intimidade, o que não raro é um degrau a mais na escalada da habilidade de leitura, e a análise dirigida, o debate aberto com disciplinas afins (ou não). Isso leva tempo; não há fórmulas; determina o ritmo da aula. E sem dúvida justifica a presença da disciplina como uma das trincheiras de resistência à lógica tecnicista que domina a grade curricular do chamado, pelo menos por enquanto, Ensino Médio.

Quando se fala que uma obra é um clássico, isso também significa que ela é capaz de dar um depoimento relevante ao leitor de qualquer época. O livro de Eça está entre os mais importantes do autor sem no entanto ser uma unanimidade. Calhou de ser escolhido para os principais vestibulares de São Paulo nos últimos tempos e já para 2018 estará fora das listas. Mas sai de cena cumprindo a tarefa de jogar um balde de água gelada na fervura deslumbrada e irrefletida com o presente e colocar o leitor diante do retrovisor. Esse é um trabalho de prospecção que pode ser feito em uma aula de Literatura.

 

Rodrigo Ennes da Cunha

Professor de Literatura no Colégio Albert Sabin.

Mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS e Doutor em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela USP.