Nova chance para o aprender

Nova chance para o aprender

Colégio Albert Sabin

21 de julho de 2021 | 10h48

Mais que aulas de reforço, o Programa Especial de Estudos dá a alunos a oportunidade de estudar por outros meios, em um contexto motivador.

 

“Que delícia de atividade, professora!” Não era o primeiro elogio que a professora de Língua Portuguesa Fernanda Meireles recebia de uma aluna, mas ainda assim era gostoso de ouvir.

A atividade era a leitura conjunta de um trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, para identificar figuras de linguagem. Não valia ponto, ninguém estava sendo avaliado: era apenas uma conversa entre Fernanda e alunos do 9º ano sobre Machado de Assis, sua época, seu estilo, e sobre como uma “chuvinha miúda, triste e constante” caindo sobre um velório podia ter mais de um significado. O fato de aquela ser uma aula do Programa Especial de Estudos (PEE) do Sabin – oferecido para alunos que estavam com alguma dificuldade na assimilação de conteúdos de Português ou Matemática (ou de Física e Química, no Ensino Médio) – não diminuía em nada a leveza do momento, ou o prazer da turma em descobrir as metáforas e ironias da escrita machadiana.

Pelo contrário: longe do estigma comumente associado a “aulas de reforço”, no que depender dos professores do Sabin, as aulas do PEE serão sentidas pelos alunos como momentos privilegiados. Uma chance de reverem conteúdos das aulas regulares, mas por outros caminhos, com outros recursos, em um contexto agradável e motivador.

“Ser convidado para as aulas do PEE não é uma obrigação, nem deve ser entendido como punição, mas sim como uma oportunidade”, diz Elaine Ramos, orientadora educacional do Fundamental II. Ela explica que, no início de cada trimestre letivo, o Sabin convoca alguns alunos para participar do programa, de acordo com necessidades identificadas pelos professores, mas que a escolha é sempre do aluno e sua família. “Pela nossa própria filosofia, o Colégio oferece muitas atividades eletivas; se houver conflito de horários, cabe a cada um pesar suas prioridades”.

De fato, como diz Fernanda Meireles, participar do PEE não só não é obrigatório como nem sempre está relacionado a notas baixas. “Às vezes, o aluno ficou em recuperação, conseguiu alcançar a média, mas sentimos que ainda precisa fortalecer certos conteúdos e habilidades. Porque nós não olhamos só o resultado de uma prova, olhamos a caminhada toda”, diz a professora, que acrescenta: “E também temos alunos que pedem para participar, mesmo sem terem sido convocados!”

É um sinal de que o programa vem conseguindo quebrar antigos preconceitos, com resultados que se fazem sentir no desempenho – e na motivação – dos participantes.

“O incentivo à participação já começa na hora da convocação ”, diz Sandra Lieven, assessora de Matemática do Fundamental II e professora do 9º ano. Segundo ela, no início do trimestre os professores designados para o PEE tomam um tempinho das aulas regulares para falar para toda a turma – não só para os convocados – sobre os benefícios do programa. “E eu reforço o convite, enfatizo como pode ser legal aprender com outro professor, que vai usar estratégias diferentes das minhas”, diz Sandra. “No caso da Matemática, por exemplo, o PEE usa muito os vídeos da Khan Academy, que são ótimos. Pode acontecer até de o professor apresentar conteúdos antecipados no PEE, que ele ainda vai dar na aula regular!”

Elaine ressalta a importância de diferenciar o programa das aulas regulares, entendendo que o conceito simplista de “aula de reforço” costuma significar mais do mesmo – mais exposição, mais leitura, mais exercícios –, o que não faria sentido.

“O foco do programa é também a ampliação do repertório procedimental do estudante”, diz a orientadora. “Ainda que ele apresente dificuldades com algum conteúdo pontual, o problema pode não ser tanto o conteúdo, mas alguma habilidade que precisa ser fortalecida”. E, se uma determinada forma de estudo não ajudou o aluno a desenvolver tal habilidade, o professor no PEE pode tentar oferecer outros métodos que podem combinar mais com o estilo de aprendizado de cada um.

O professor de Matemática Aurélio Silva tem um exemplo dessa abordagem, no chamado “papel diamante”. Trata-se de um recurso extremamente simples, que pode ser desenhado a lápis numa folha de papel comum, dividida em quatro quadrantes, com um losango (o “diamante”) no meio. Nele, escreve-se um problema matemático, e em cada quadrante o aluno busca a solução por um caminho possível: por meio de desenhos, de uma história escrita, do algoritmo mais adequado, etc.

O exemplo é bom por ilustrar alguns pontos que o PEE tem como diferencial. Primeiro, há o foco na resolução de problemas. “O PEE é menos sobre aprender conteúdo e mais sobre aprender formas diferentes de pensamento e estratégias”, diz Aurélio. “Depois que o aluno resolve a questão, eu pergunto para ele: ‘Como você preferiu fazer isso? Leva para a aula [regular]’. Assim, eles começam a ficar mais confortáveis com a Matemática”.

O outro ponto é o aproveitamento do tempo, que dá prioridade à qualidade sobre a quantidade de exercícios. Aurélio pode ocupar uma aula inteira do PEE com poucos problemas matemáticos; Fernanda pode analisar apenas dois ou três parágrafos de Machado de Assis.

A diferença é o tempo de atenção que eles poderão dar a cada aluno, já que a turma é menor do que nas aulas regulares. Se um aluno sente dificuldades com equações de segundo grau, por exemplo, o professor vai querer ver de perto como ele está procedendo, desde a leitura do enunciado até a tentativa de resolução. “Às vezes, o aluno erra e começa a apagar, e eu digo: ‘Não! Eu quero ver o erro, mostre para mim como você está pensando’”, diz Aurélio.

Até porque não há notas. “No PEE, não tem lição para entregar, nem se cobram tarefas. É um momento reservado do aluno com o professor, de uma forma mais light e sem olhar o relógio”, diz Elaine Ramos. A única coisa que é cobrada, diz a orientadora, é o comprometimento. “É muito importante que os alunos e as famílias entendam que o PEE é um percurso ao longo do trimestre, é sequencial; não é uma aula a que você assiste na véspera de prova e pronto. Inclusive, se um aluno falta, nós vamos atrás, entramos em contato para entender o que houve e incentivá-lo a voltar”.

Os efeitos para quem aproveita essa oportunidade, garantem os professores, são notáveis. “A gente percebe na qualidade da produção do aluno”, diz Fernanda Meireles. Na qualidade e no próprio prazer de estudar, acrescenta Aurélio. “Ano passado, uma mãe de aluno me disse que ouvia o filho em casa conversando e rindo tanto que ela pensou que ele estivesse brincando; quando foi até a porta do quarto, era uma aula minha do PEE”, lembra o professor de Matemática. “Este ano, ele não está mais no programa, porque já está caminhando com mais autonomia – o que, no fim das contas, é o que esperamos para todos”.

 

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