Línguas em processo de aprendizagem e suas multi-influências

Línguas em processo de aprendizagem e suas multi-influências

Colégio Albert Sabin

09 Maio 2016 | 10h50

Todos temos alguma experiência com o (não)aprendizado de uma segunda língua. Os exemplos vão desde nossas lembranças das tradicionais aulas de gramática, de quando éramos estudantes, até aquele curso de Inglês que prometemos começar todas às segundas-feiras, ritualisticamente, como a dieta após o final de semana. Mas como esse aprendizado se dá é fonte das mais variadas teorias e de alguns mistérios que fascinam linguistas, professores e, os próprios alunos.

De estudiosos que defendem a exposição constante à língua, até aqueles que acreditam na interação e comunicação como fundamentais no processo de aprendizagem, as pesquisas na área de segunda língua aprofundaram-se muito nos últimos anos. No Brasil, a língua inglesa aparece como líder nas pesquisas acadêmicas, uma vez que é a principal língua estrangeira ensinada no país.

O ensino obrigatório de uma língua estrangeira existe em escolas regulares desde a década de 30, e sua importância foi reassegurada na LDB (Lei de Diretrizes e Bases), documento de 1996 que norteia parâmetros educacionais no país. O Inglês aparece como a escolha principal de língua estrangeira presentes nas escolas por sua importância mundial, sendo hoje falada por mais de um bilhão de pessoas ao redor do mundo.

lousa ingles

Mas quais são as múltiplas influências entre as línguas nos processos de aprendizagem? A primeira língua atrapalha ou auxilia neste processo? Devemos comparar Português e Inglês, ou quaisquer outros idiomas, durante aulas e em nossos estudos pessoais?

Jim Cummins, pesquisador e professor da Universidade de Toronto, no Canadá, desenvolveu a teoria da interdependência, na qual formula hipóteses sobre pontos de aproximação e afastamento entre duas línguas em processo de ensino-aprendizagem.

Segundo o pesquisador, as línguas possuem características superficiais e profundas. As características superficiais seriam aquelas que tipificam aquele idioma como único, no modo como é falado, em sua morfologia, nos conceitos que expressa, etc. Dentre as características profundas, encontramos a habilidade de ler, compreender e escrever textos de diferentes formatos em diversas situações sociais, a habilidade de resolver problemas por meio da língua e o pensamento abstrato.  Para Cummins, as características profundas são comuns às línguas, o que as tornam interdependentes entre si. O que podemos esperar dessa hipótese?

Se há interdependência entre certas características de diferentes línguas, a influência entre elas torna-se ponto favorável não só no processo de ensino-aprendizagem, como para a vida. Um aluno, portanto, em processo de letramento em Português, que passe a estudar Inglês, poderá se valer, mesmo que inconscientemente, de seu conhecimento do Português e de suas habilidades nesta língua para o desenvolvimento do novo idioma. Um claro exemplo disso é o desenvolvimento do processo de leitura. Quando um aluno brasileiro aprende a ler em Português, sua língua nativa, ele desenvolve uma série de estratégias, dentre elas a inferência (habilidade de construir o significado de uma determinada palavra desconhecida por meio do contexto). No processo de aprendizagem de um novo idioma, os alunos se valem desse processo da inferência e compreendem significados de novas palavras, comunicam-se mesmo sem domínio total do idioma e são capazes de aprender novas expressões por meio deste recurso.

idiomas

Por outro lado, outras estratégias são desenvolvidas no processo de uma segunda língua que podem e acabam por influenciar positivamente o desenvolvimento do Português. Um bom exemplo é a habilidade de se expressar oralmente, advinda das necessárias exposições vividas em uma aula de outro idioma. A capacidade argumentativa em expressar-se em uma segunda língua também pode auxiliar a construção de argumentos em Português, dentre outras influências.

Mas devemos ter atenção! Não podemos confundir a interdependência entre línguas com ensino por meio da tradução. Podemos supor que, para Cummins, a forma como as palavras aparecem para nós, ou seja, como elas são faladas e escritas, são parte das características superficiais das línguas e devem ser aprendidas e praticadas no idioma que está sendo desenvolvido. Assim, voltamos àquela máxima da importância de “pensarmos em Inglês” e nos esforçarmos para encontrar correspondências de significado no mesmo idioma.

Dessa forma, podemos enumerar diversas vantagens em sermos alunos e falantes de mais de um idioma que vão para além das já esperadas esferas acadêmicas e a do mercado de trabalho: capacidades cognitivas mais desenvolvidas, flexibilidade e habilidade de lidar com múltiplas escolhas, maiores ferramentas para lidar com soluções de problemas, além dos ganhos culturais em um mundo cada vez mais globalizado.

Assim, a possível interdependência das línguas defendida por Cummins traz maior independência nos estudos, nas oportunidades e nas escolhas de vida. Se aprender é sempre uma aventura, por que não a ampliar e vivê-la de forma mais profunda e intensa sob diferentes pontos de vista acerca do mundo, ou seja, por meio de diferentes (interdependentes) línguas?

Camila Dias

Professora de Inglês do Colégio Albert Sabin.