Ler

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Colégio Albert Sabin

04 Dezembro 2018 | 15h33

Quando nossos avós liam ou contavam histórias, a imaginação fluía sem censura. Num outro momento, a leitura transportava os sentimentos a lugares inexplorados, contraditórios, cheios de mistérios. É esse mundo que a leitura auxilia, na compreensão, na raiva contida, na lágrima solitária, no amor sonhado…

 

Alunos do projeto Biblioteca Social Colaborativa, vencedor do Prêmio Impacta Sabin. A iniciativa visa estimular o prazer pela leitura de crianças e adolescentes

Ler um texto, ler um carro, ler uma casa, ler um professor, ler um colega, ler o pai, ler a mãe. O que é ler?

Costumeiramente a leitura que se entende é a de textos escritos, às vezes longos, às vezes curtos, mas escritos.

O ler está intrínseco a nossa vontade. Querendo ou não, lê-se a todo momento. A imagem que circula nos ambientes frequentados comprova “a tese” de que as pessoas têm muito a dizer e demonstram como leram esse espaço.

A leitura de mundo, além do seu conhecimento, traz autonomia e segurança nas proposições. Mas a leitura não se resume a ler o mundo. Faz parte desse “acervo” a leitura do livro. Os livros de História, Literatura, Ciências, Geografia, Filosofia, Sociologia, Matemática, Biologia… e ainda aqueles – imagino que existam – que se escolhe para ler.

A leitura provoca uma relação afetiva com o conhecimento, com a cultura, com a curiosidade e com a vida. Por meio dela, adquire-se conhecimento, constrói-se a história e a consciência de si. Compartilhar histórias nas rodas de leitura desperta o sentimento de pertencimento essencial para a construção das identidades e da autonomia.

A leitura lida sozinha, em silêncio, acalenta o discurso – o saber – e o conhecimento produzido, proporciona segurança nos diálogos, na construção de textos e … na vida.

Um grande leitor comprovadamente tem soluções diferentes para variados problemas que lhe forem “dados”, a conquista da individualidade e a liberdade de ser de cada um.

Michel de Certeau, historiador francês do século XX, tinha uma fórmula bonita para evocar essa liberdade do leitor, escrevia “os leitores são viajantes, circulam em terras alheias, são nômades que caçam furtivamente em campos que não escreveram”. […]

O leitor não é passivo, atua sobre o texto, ora está nele, ora se coloca além dele na construção de suas identidades e na possibilidade de conscientização, de ver-se, de ver o outro, de pertencer, de compreender o diferente, de omitir-se e de posicionar-se.

A desistência da leitura destitui o conhecimento do mundo e facilita a manipulação dos meios de comunicação – whatsapp, instagram, facebook – empobrece-se o mundo e, por consequência, a vida.

Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. Nós lemos emoções nos rostos, lemos os sinais climáticos nas nuvens, lemos o chão, lemos o mundo, lemos a vida. Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar. Queixamo-nos de que as pessoas não leem livros. Mas o déficit de leitura é muito mais geral. Não sabemos ler o mundo, não lemos os outros.

Vale a pena ler livros ou ler a vida quando o ato de ler nos converte em sujeitos de uma narrativa, isto é, quando nos tornamos personagens. Mais do que saber ler, será que sabemos, ainda hoje, contar histórias? Ou sabemos simplesmente escutar histórias onde nos parece reinar apenas silêncio?

 

Texto elaborado por Maria Isabel Pedroso Fragoso, assessora pedagógica e professora de História.