Foco até no descanso

Foco até no descanso

Colégio Albert Sabin

23 de outubro de 2019 | 11h09

O que a Ciência tem a dizer sobre manter uma rotina de estudos, e quais as práticas que podem ajudar nisso.


Em uma planilha de Excel, a coordenadora do Ensino Médio, Áurea Bazzi, mostra o planejamento semanal de um de seus alunos da 3ª série. De segunda a domingo, a tabela está quase toda preenchida de cores indicativas das atividades previstas na rotina do estudante, da hora em que acorda (às 6h) à hora em que vai dormir (por volta das 22h), como “escola”, “estudos”, “academia”, “vôlei” – mas também “café”, “almoço”, “jantar”, “banho”, “filme” e “descanso”. A semana de um vestibulando é cheia, mas não precisa ser insuportável.

Pelo contrário: se a rotina desenhada pelo aluno for seguida à risca, o que parece excesso de planejamento só tem a ajudar, proporcionando melhor rendimento nos estudos, mais tranquilidade e até mais qualidade de vida. É o que faz dessa agenda semanal uma das principais ferramentas que o Sabin oferece para os alunos superarem os desafios do Ensino Médio.

“Nenhuma rotina é espontânea”, diz a orientadora educacional Gisele Calia, antes que alguém pense que levar uma vida regrada só é possível para aqueles naturalmente organizados. A princípio, não é natural mesmo – sobretudo para adolescentes, que, como afirma Gisele, psicóloga especializada em Neuropsicologia, ainda não têm totalmente formado no cérebro o mecanismo que possibilita adiar recompensas (fazer algo hoje para atingir um objetivo a longo prazo, como passar no vestibular ao fim do ano). Segundo a orientadora, a própria percepção de duração do tempo – o que dá para fazer em uma hora, um dia ou uma semana, por exemplo – precisa ser amadurecida, motivo pelo qual estruturar uma agenda em blocos menores (de meia em meia hora, como propõe) ajuda o jovem a ver que o que parecia pouco pode ser o bastante.

A questão, diz Gisele, é saber que, embora não seja “natural”, seguir uma rotina pode ser aprendido. Como toda atividade, requer treino. E é para ajudar os alunos na montagem e na execução desse treino que ela e Áurea estão ali, de portas abertas, para quem quiser procurá-las.

Essa observação é crucial. Segundo Gisele, no início de todo ano, ela e a coordenadora informam aos alunos e pais sobre o trabalho de orientação e se colocam à disposição dos alunos, mas cabe a cada um a decisão de procurar essa ajuda. Para surtir efeito, a elaboração da rotina de estudos tem de vir da vontade do aluno. “O que acontece é que, ao longo do ano, a procura vai aumentando, quando surgem as primeiras dificuldades”, diz a psicóloga, que vê o processo com naturalidade. “Tudo bem; podemos tomar esse primeiro insucesso como subsídio para montarmos uma agenda. O que deu errado? A partir daí, construímos juntos um novo plano de ação”.

“Sentamos com o aluno e mapeamos sua vida em detalhes”, descreve Áurea. “A que horas acorda, chega na escola, sai da escola? O que faz à tarde? Como vai para casa: de carro, de ônibus? Assim, vamos encontrando os espaços nos quais ele pode estudar”.

Mas atenção, alerta Gisele: é preciso ter os estudos como prioridade, e não como uma tarefa para encaixar, se possível, nas horas vagas: “É como um emprego: você não trabalha no ‘tempo livre’, você tem de trabalhar e ponto. O que sobra depois do trabalho é o tempo livre. Estudar é a mesma coisa”, diz a orientadora. “Isso às vezes coloca os alunos na posição de ter de decidir entre uma atividade extracurricular e os estudos. Nós orientamos para que considerem seu desempenho, suas metas de vida. Mas a escolha é sempre deles”.

De qualquer forma, diz Áurea, pondo-se tudo no papel, essa escolha nem é tão frequente assim. “A rotina cria uma régua visual que deixa mais claro para os alunos como eles têm tempo suficiente”, diz a coordenadora. Na maioria dos casos, ela recomenda uma média de, pelo menos, uma hora e meia de estudo por dia (exceto aos domingos para a 1ª e 2ª séries do Médio, mas também aos domingos para a 3ª série), dividida em blocos de meia hora, cada um dedicado a uma disciplina diferente.

“O estabelecimento dessa rotina está relacionado com a preparação do cérebro para a recepção e a sedimentação de informações”, diz Gisele, novamente recorrendo à Neurociência. Segundo ela, se o aluno estabelece o hábito de estudar todo dia, às cinco da tarde, seu cérebro acaba “se preparando” para a tarefa às cinco da tarde. Pela mesma razão, recomendam-se pausas de dois a três minutos, entre uma disciplina e outra, e intervalos um pouco maiores depois de algum tempo. “Os descansos breves são avisos bioquímicos para o cérebro ‘trocar de pista’ (passar da Matemática para a História, por exemplo), ao passo que os descansos maiores servem de ‘recarga de combustível’, como a dopamina e outras substâncias de que o cérebro dispõe para realizar bem as funções executivas”, diz a psicóloga. Nesses momentos, o aluno aproveita para se levantar, beber água, respirar, afagar o cachorro – o que for preciso para “seguir viagem”.

Saber aproveitar os momentos de descanso, aliás, é outra dica que Áurea considera fundamental. “Aos sábados e domingos, quando terminar os estudos, vá fazer o que gosta: assistir a um filme, namorar, pedalar. Não desperdice essas horas sem fazer nada”, diz a coordenadora. “Até no descanso é possível ter foco!”

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