Estranhar o normal, perseguir a verdade

Colégio Albert Sabin

06 Junho 2018 | 16h51

Como as aulas de Filosofia reforçam o espírito questionador dos jovens em prol de valores humanistas

“O drama da internet”, afirmou o escritor italiano Umberto Eco, “é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. Em declaração dada alguns meses antes de morrer, Eco lamentou que as mídias sociais tivessem dado voz a “uma legião de imbecis”, que teriam ganhado o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel. Ao que parece, nos últimos anos de sua vida, o autor de O Nome da Rosa não era dos mais confiantes na capacidade de reflexão e diálogo da humanidade.

Professor de História e Filosofia do Sabin, Sérgio Ricardo Andrielli mostra-se bem mais positivo. Não poderia ser diferente. Primeiro, porque ser professor já é, em si, uma afirmação de otimismo – só ensina quem acredita no potencial das próximas gerações. Depois, porque, como professor de Filosofia, um dos principais objetivos de Sérgio é ensinar aos alunos como a palavra, o diálogo e a razão podem ser usados na busca pela verdade, pelo bem comum e por uma vida ética. Se não acreditasse que eles fossem capazes disso, Sérgio estaria fazendo alguma coisa de errado.

“Quando assumi a disciplina de Filosofia no Sabin, busquei imprimir um programa voltado para o estudo da Ética”, diz Sérgio. Como explica o professor, antes de ser um conjunto definitivo de regras de conduta – o que seriam o Certo e o Errado, o Bem e o Mal –, a Ética seria o campo de investigação filosófica dessas regras, que podem e devem ser questionadas. Trata-se de empreendimento racional, e a razão só admite como verdade aquilo que é discutido e questionado – até para que, após cuidadosa análise, seja possível reafirmá-lo como verdade.

Assim, nas aulas de Filosofia, Sérgio tem o papel de ajudar seus alunos a exercitar essa investigação – cultivando a dúvida, refletindo, dialogando e argumentando sobre diversos dilemas da atualidade –, tarefa para a qual, segundo ele, demonstram inclinação natural. “Eu os invejo. A geração deles não é a da afirmação, mas a do ponto de interrogação”, diz o professor.

No Sabin, a disciplina de Filosofia é oferecida na matriz curricular do 2o ao 7o ano do Ensino Fundamental e na matriz da 1a à 3a série do Ensino Médio. Sérgio é responsável pelas turmas de 6o e 7o anos e pelo Ensino Médio inteiro (até o 5o ano, a disciplina é dada pelas professoras regentes).

Segundo o professor, um dos primeiros objetivos é explicar para os alunos o que significa pensar filosoficamente, desfazendo a ideia de que a Filosofia é atividade exclusiva de grandes intelectuais, absortos em questões profundas, sem se preocupar com o cotidiano. “Filósofo gosta de pensar sobre tudo, inclusive sobre histórias em quadrinhos, filmes, coisas do dia a dia”, diz Sérgio. Pensar sobre qualquer coisa, porém, não significa pensar de qualquer jeito. Há método no filosofar, como o professor demonstra com um exemplo que não poderia ser mais banal.

“Em uma aula do 6o ano, eu falei para a classe: ‘Imaginem que estivéssemos debatendo se um desenho animado é bom ou não, e eu dissesse: eu gosto de leite com chocolate’”, conta. “Eles responderam: ‘Nada a ver, professor!’ Claro, porque eu havia desviado a conversa. Eu queria que percebessem como uma reflexão filosófica tem uma via certa a seguir; como existem argumentos pertinentes, que fazem avançar o pensamento, e outros, não”.

Se essa ideia parece simples, a próxima lição que Sérgio busca transmitir é um pouco mais refinada; tanto que será reforçada ao longo dos anos seguintes, até a conclusão do Ensino Médio. Trata-se da percepção de como nosso ponto de vista influência opiniões que temos sobre o mundo.

“Nós exibimos o desenho animado As Aventuras de Azur e Asmar, do francês Michel Ocelot”, diz Sérgio. “A história começa na França, na Idade Média. Azur é filho de nobres; Asmar é filho da ama de leite do primeiro. Criados praticamente como irmãos, eles se separam, e, depois de adulto, Azur vai procurar Asmar no norte da África. Lá, ele descobre um mundo no qual ele é o ‘estranho’, com seu cabelo loiro e olhos azuis, seus costumes e crenças diferentes”.

Tal descoberta é fundamental. Reconhecer que visões de mundo partem de um contexto – da época em que se vive, do local onde se nasce, da família da qual se faz parte, da religião em que se crê – é a chave para abrir o canal do diálogo filosófico, em que ambas as partes devem transcender e mesmo questionar seus valores e sua moral. O humanista Montaigne é o melhor exemplo disso; ao escrever sobre o canibalismo de índios brasileiros, no século XVI, questionava por que tal ato seria considerado bárbaro, enquanto queimar hereges na fogueira seria “normal”. “Ele ironizava dizendo que, pelo menos, os indígenas não desperdiçavam uma boa carne”, diverte-se Sérgio.

E é com essa capacidade de “estranhar o normal” que ele conta para motivar debates sobre temas diversos, da correção (ou não) de atos de justiçamento à possibilidade de manipulação genética de bebês antes de nascer. “Na 3a série do Médio, por exemplo, eu peço a eles que tentem debater a união homoafetiva sem usar razões de fundo moral ou religioso. É um exercício interessante”.

O objetivo dos debates, garante, não é chegar a respostas específicas, mas exercitar a argumentação. Metódica, racional, como propunham os humanistas. Que, como nota Sérgio, eram essencialmente otimistas em relação à humanidade. “Também sou otimista, e meus alunos estão sempre me dando motivos para isso, porque se mostram capazes de dialogar, de questionar, de pensar além do senso comum em nome de princípios éticos. Já tive alunos que formaram ONGs, outros que trabalham no Banco Mundial tentando quebrar patentes de remédios”, relata o professor. “Essa cultura de paz e de diálogo que noto no Sabin é algo que realmente me impressiona e me orgulha muito”.