Biblioteca: modos de usar

Biblioteca: modos de usar

Colégio Albert Sabin

07 Novembro 2018 | 12h22

Como a biblioteca escolar pode ser usada para promover aprendizados diversos sobre a leitura

 

Os melhores livros não se despedem de nós depois da última página. Eles ressoam ainda, alguns pela vida inteira, contribuindo com alguma parte de quem somos, influenciando nossos atos, valores e sentimentos. Tampouco nossa relação com um livro começa apenas quando o abrimos pela primeira vez: o que sabemos da obra de antemão, o que nos fez chegar até ela e o que esperamos encontrar, tudo isso, de certa maneira, já nos coloca no papel de leitores antes de virarmos a capa.

Para educadores, perceber a leitura como atividade que antecede e extrapola o contato com o livro é fundamental. Por essa visão, formar leitores significa muito mais do que fazer com que alunos leiam uma lista de obras. Significa capacitá-los a explorar uma gigantesca biblioteca universal, tornando-os aptos a pesquisar e a escolher o que querem ler no mundo; a compreender e a interpretar textos; a comparar leituras, com outras leituras e com suas experiências de vida; a se inspirar, a se emocionar e a extrair reflexões e aprendizados do processo. Todo um arsenal de habilidades que os alunos do AB Sabin e da Educação Infantil e Fundamental I do Sabin estão começando a conquistar.

Nos dois colégios, alunos do Maternal em diante têm uma aula de biblioteca por semana (no Sabin, até o 4º ano; a partir do 5º, as visitas à Biblioteca já não são mais sistematizadas na grade semanal). Embora as atividades de leitura não se limitem à biblioteca, trata-se de ambiente adequado para a criança aprender a se relacionar com a leitura no sentido mais amplo. Não só por propiciar o contato direto com livros variados, mas por ser um espaço regido por regras comuns a todos – primeiro indicador de que a literatura e as letras em geral são um patrimônio coletivo.

“O uso da biblioteca é um aprendizado social”, diz Karla Ramos, assessora de Língua Portuguesa da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I do Sabin. “No início do ano, nosso bibliotecário dá uma aula inaugural aos alunos do Maternal ao 4o ano, para explicar as regras da biblioteca escolar”. Entre as regras, enumera a assessora, estão o respeito, “pois a biblioteca é também ambiente de estudo”; a conduta disciplinada, sem correria; e o conhecimento do critério de organização das obras nas estantes. Karla ainda lembra a regra fundamental dos empréstimos: “O direito de retirar outro livro vem acompanhado de devolver o primeiro”. Orientações, em suma, que mostram ao aluno como agir com respeito aos colegas, aos demais usuários e aos livros em si.

É evidente, no entanto, que não só de regras se constrói a relação entre livros e leitor. Na obra Como usar a biblioteca na escola, a educadora americana Carol Kuhlthau propõe um programa em etapas, da Educação Infantil ao término do Fundamental, que não por acaso coloca como objetivo inicial promover nas crianças uma atitude positiva – um encantamento – em relação ao universo dos livros e das histórias infantis.

Para a autora, isso vai desde propiciar conforto e acessibilidade para as crianças se sentirem à vontade – por exemplo, com tapetes e almofadas no chão e estantes de livros à altura dos alunos – até a realização de atividades diversas, em especial os “3 Ds” – discussão, desenhos, dramatizações –, por meio dos quais as crianças se engajem com a literatura, exercitem a empatia pelos personagens e “entrem” na história, criativa e criticamente.

Tais recomendações não diferem muito de como as professoras conduzem as atividades de leitura no Sabin e no AB Sabin. Segundo Karla Ramos, seja em rodas de contação de histórias (para os pequenos), seja em leituras compartilhadas (nas turmas já alfabetizadas), as sequências didáticas são sempre feitas em três etapas: pré, durante e pós-leitura. “Em qualquer dessas etapas, podemos propor desenhos e discussões, antevendo o que será lido, comentando o desenrolar do enredo ou, ainda, debatendo o final. Dramatizações também; os mais novos gostam muito”.

Isso sem falar nas atividades dos demais componentes curriculares que, inspiradas na leitura de livros de literatura, reforçam a ligação da criança com os personagens e o enredo, enquanto promovem aprendizados. Caso do Maternal II do AB Sabin, cuja leitura de Dudu e a Caixa, no primeiro trimestre, gerou brincadeiras com caixas de papelão transformadas em carros, casas e tapetes voadores – no processo, transmitindo conceitos matemáticos, linguísticos e científicos para os pequenos fãs do Dudu. “Quando a história encanta, a gente expande facilmente essa leitura para outras disciplinas”, diz a professora da turma, Gislaine do Nascimento.

Mas, enquanto atividades mais dinâmicas podem ser feitas sem problemas em sala de aula, num pátio ou num bosque, na biblioteca escolar outras atividades se mostram mais adequadas, com outras oportunidades de aprendizado.

Em aulas de biblioteca com leitura livre, por exemplo, a criança escolhe o que ler – e nessa simples ação há o exercício de percorrer estantes, examinar capas, folhear, colocar o livro no carrinho de devolução ou sentar com ele para ler. Mesmo para crianças não alfabetizadas, diz Suzy Vieira, coordenadora pedagógica do AB Sabin, há aprendizado: “Eles estão ensaiando procedimentos de leitura, como segurar o livro e passar as páginas, e pela imaginação ou memória estão criando ou relembrando enredos, com ajuda das ilustrações”. Em outras palavras, os alunos estão descobrindo que existem mundos além do real, e aprendendo a navegar por eles.

Levar livros emprestados para casa, por sua vez, também tem muito a ensinar a uma criança: não só pela responsabilidade de preservar e devolver o livro, como já citado, mas pela oportunidade de engajar os pais. “A criança precisa de modelos para se tornar leitora”, diz Karla Ramos.

Outra atividade comum na biblioteca do Sabin conta com a ajuda do bibliotecário para selecionar títulos diversos sobre um mesmo assunto, ou de um mesmo autor. Uma maneira de ensinar os alunos a comparar diferentes linguagens e abordagens e a motivá-los a expandir seus interesses. “Criança adora repetir o mesmo livro – e tem todo o direito”, diz Karla, “mas é importante estimular novas descobertas”.

Com o tempo, essa busca nem precisa mais ser motivada: o sucesso do livro Felpo Filva, adotado no 3o ano, por exemplo, foi o suficiente para que grande parte da turma quisesse conhecer outras obras da escritora Eva Furnari. Da mesma forma, no 5o ano, muitos alunos, encantados com a adaptação de Fernando Nuno para A Volta ao Mundo em 80 Dias, já começam a buscar outros grandes clássicos da literatura. Provas de que a escola está, efetivamente, conseguindo formar leitores, aos quais continuará ajudando, promovendo neles as competências necessárias para que possam desbravar o mundo dos livros por conta própria.