Aulas de Arte: um espaço de valorização da arte popular

Aulas de Arte: um espaço de valorização da arte popular

Colégio Albert Sabin

04 Outubro 2016 | 09h26

No decorrer da História da Humanidade, a Arte tem sido considerada uma das mais importantes e reveladoras formas de expressão e de comunicação. Ao mesmo tempo em que define o momento sócio-histórico-cultural no qual o Homem está inserido, possibilita a interpretação de acordo com a visão de mundo de cada um de seus observadores. Deste modo, a Arte foi e sempre será uma inesgotável fonte geradora de sentidos e significados, capaz de atravessar todas as barreiras do tempo e alcançar todas as gerações.

Em meio a uma infinidade de manifestações artísticas, encontramos a Arte Popular. Sua principal caracterização se dá a partir das produções cujas autorias são de pessoas simples, do povo, que têm como referência um conjunto de valores enraizado em um modo nativo de ser, de criar e de transformar. A fonte de pesquisa desses autores tidos como populares é aquilo que se encontra no entorno da população e abrange a maioria dos indivíduos, ou seja, aquilo que pertence ou aquilo que é relativo ao povo. O artista Raul Cordula, estudioso do assunto, resume a Arte Popular numa sentença simples: “é a arte dos pobres”. No entanto, também devemos lembrar que tal Arte pode ser feita por oriundos de outras classes sociais.

O Brasil é um país de território imenso, dotado de uma riqueza e de uma diversidade cultural imensuráveis. Seu povo foi formado por uma miscigenação incrível, na qual cada indivíduo trouxe consigo, em suas memórias ou em suas bagagens, um pedaço de suas raízes culturais dotadas de costumes, crenças, histórias, referências. Cada homem e cada mulher que aqui chegou construiu um país que, rapidamente, se transformou num celeiro de inúmeros artistas. Com técnicas, cores e materiais dos mais simples aos mais sofisticados, eles ofereceram um legado artístico espantoso ao solo brasileiro, do mesmo modo que criaram um problema, pois o reconhecimento desses artistas e de suas obras não é uma tarefa muito fácil. No entanto, não se pode negar que, mesmo assim, a cultura deste mesmo povo é a origem, a raiz e o fruto da Arte Popular.

Durante muitos anos, as escolas valorizaram o aprendizado da Arte considerada erudita, e deixaram em segundo plano a importância do contato com a Arte Popular. Se considerarmos que o que caracteriza a Arte Popular em sua essência é a manifestação de seu povo, desperdiçava-se aí uma grande possibilidade de se fomentar a formação da cultura regional em que aquele aluno estava inserido.  Perdia-se uma grande oportunidade de ampliação de sua visão de mundo e de seu desenvolvimento da imaginação e do pensamento criador.

“Sem conhecimento de Arte e História não é possível a consciência de identidade nacional. A escola seria o lugar em que se poderia exercer o princípio democrático do acesso à informação e à formação estética de todas as classes sociais, propiciando-se, na multiculturalidade brasileira, uma aproximação de códigos culturais de diferentes grupos”. (BARBOSA, 2001, p. 33)

Diante de tal realidade, no ensino de Arte do Colégio Albert Sabin, procuramos fazer da sala de aula um espaço cultural que apresenta a importância da Arte Popular como fonte de estudos multiculturais, de forma a desenvolver o respeito às diferenças culturais de vários povos e regiões. Segundo Rosa Iavelberg, “não basta informar-se sobre arte, é preciso apreciar e refletir de maneira pessoal”.

A partir dessa visão, nas séries iniciais do Fundamental I, os alunos são apresentados a uma obra do artista Airton Marinho, que retrata um famoso encontro festivo brasileiro: a Festa do Divino. Por meio da apreciação da obra, eles buscam suas referências pessoais para responderem às questões levantadas pela professora e que, compartilhadas com o grupo, tornam-se repletas de significado.

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Só depois da construção de significado pelo grupo é que a professora apresenta algumas características da Festa do Divino, como a Cavalhada, a Dança dos Mascarados, os Curucucus e a Coroação do Imperador Menino.

Na proposta seguinte, os alunos são incentivados a representarem uma das atrações apresentadas, lembrando que o desenho é uma forma de comunicar ideias em que os detalhes garantirão maior entendimento ao observador. Ao final, todos fazem uma apreciação dos trabalhos e discutem as soluções encontradas pelos colegas.

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Ainda no mesmo tema, a próxima proposta tem como objetivo o fazer artístico, momento em que os alunos vivenciarão a construção de seu próprio Curucucu (personagem que chama a população durante a Festa do Divino para a apresentação da Cavalhada). Para tanto, eles escolhem a representação de um animal de sua preferência e o constroem utilizando as técnicas do empapelamento, da pintura e da colagem.

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“Nem todas as culturas são “ricas”, nem todas são herdeiras diretas de grandes sedimentações. Cavocar profundamente numa civilização, a mais simples, a mais pobre, chegar até suas raízes populares é compreender a história de um país. E um país em cuja base está a cultura do povo é um país de enormes possibilidades.” (LINA BO BARDI, 1994, p. 20)

A inserção da arte popular em sala de aula proporcionará ao aluno a possibilidade de refletir sobre sua natureza, rever conceitos e estabelecer novas possibilidades por meio da Arte. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, “a arte é um conhecimento que permite a aproximação entre indivíduos, pois favorece a percepção de semelhanças e diferenças entre as culturas, expressas nos produtos artísticos e concepções estéticas, em um plano diferenciado da informação discursiva. Nessa perspectiva, a arte na escola tem uma função importante a cumprir. Ela situa o fazer artístico dos alunos como fator humanizador, cultural e histórico, no qual as características da arte podem ser percebidas nos pontos de interação entre o fazer artístico dos alunos e o fazer dos artistas de todos os tempos, que sempre inauguram formas de tornar presente o inexistente. Cada obra de arte é, ao mesmo tempo, produto cultural de uma determinada época e criação singular da imaginação humana, cujo sentido é construído pelos indivíduos a partir de sua experiência. Por isso, uma obra de arte não é mais avançada, mais evoluída, nem mais correta do que a outra, mas tem a qualidade de concretizar uma síntese que suscita grande número de significados” (Parâmetros Curriculares Nacionais, 1998, p. 35)

Por fim, não podemos dizer que a Arte Popular tem menos importância do que a Arte Erudita. Assim como uma obra de arte pertencente ao período clássico da História da Arte pode ser analisada e compreendida, uma obra, um objeto ou uma manifestação artística do povo também podem ser analisados e compreendidos, pois neles também se encontram elementos da linguagem visual, uma vez que carregam todo o contexto estético, histórico e social de uma cultura. E o conhecimento sócio-histórico-cultural é fundamental para a compreensão de qualquer tipo de linguagem.

Roberta Moretti Gomes

Assessora Pedagógica e Professora de Arte.