As imagens e o ensino de Biologia

As imagens e o ensino de Biologia

Colégio Albert Sabin

04 Abril 2016 | 12h10

Certa vez, um amigo insinuou, em um tom de brincadeira, que os livros de Biologia eram “perfumaria”, pois apresentavam muitas “figurinhas”, dando a entender que eram para um público infantil ou para alunos que não gostavam de ler. Como ele não era da área de Educação e disse aquilo só para provocar, relevei a brincadeira e sugeri que desse uma olhada em algumas revistas de divulgação científica como a Ciência Hoje, Fapesp Pesquisa e Scientific American. Com um simples olhar sobre a linguagem das Ciências da Natureza (Biologia, Física e Química), percebe-se como é frequente o uso de imagens para demonstrar fenômenos, processos e estruturas. Em artigos científicos, muitas vezes, é a imagem que dará sustentação ao trabalho. Em alguns tipos de livros, como os atlas de Anatomia Humana usados nos cursos de Medicina, o foco está justamente nas imagens.

E se retirássemos todas as imagens dos livros de Biologia? Como ficariam? Talvez desse a impressão de que o livro estaria incompleto. Imagine um livro sem a imagem de uma célula eucariótica, com sua membrana citoplasmática, organelas e núcleo. Ou sem a imagem do ciclo do nitrogênio, destacando a importância das bactérias fixadoras, das nitrificantes e das desnitrificantes. Ou sem um desenho de um coração humano, mostrando a sua forma típica e com seus átrios e ventrículos. Imagine, ainda, um livro de Biologia sem uma imagem do DNA, talvez a molécula mais “popular” da Biologia. Muito provavelmente, a compreensão dos conceitos ficaria mais difícil, e a aprendizagem, prejudicada.

dna

Neste texto, o termo imagem é considerado como todo tipo de signo não verbal, como fotos, desenhos, gráficos, fórmulas, esquemas, tabelas, mapas, outros tantos. Peço aqui a compreensão e a generosidade dos professores de Português pelo atrevimento em abordar, de uma maneira simples, um tema bastante complexo, a Semiótica. A Semiótica é a ciência que estuda os signos e ajuda a interpretar e a entender como as imagens transmitem suas mensagens. Para ela, o signo possui 3 “elementos”:

1. Significante: o que é percebido pela visão (p.ex. uma foto);

2. Referente: o que ela representa (p. ex., um coelho); e

3. Significado: o que significa (dependendo do contexto pode ser: para Biologia, um representante da classe Mammalia e da ordem Lagomorpha; para a Publicidade, uma propaganda sobre a Páscoa). Uma das funções dos livros e dos professores de Biologia é trabalhar para que as imagens (conceitos) sejam lidas e interpretadas com o significado estabelecido pela Ciência.

Apesar das imagens contribuírem, enormemente, para a formação de representações mentais, muitas vezes, mesmo com uma “boa intenção”, elas não conseguem cumprir seu papel de ajudar no esclarecimento do seu significado científico. Trabalhos realizados com livros de Biologia sugerem uma classificação das imagens em 4 categorias: a) decorativa (imagens para entreter o leitor e sem acrescentar informação); b) representacionais (ilustrações que representam um único elemento); c) organizacionais (representam relações entre elementos) e d) explicativas (explicam o funcionamento de um sistema). As duas primeiras são consideradas “sem valor didático”, e as duas últimas, “com valor didático”. Estes trabalhos ajudam os professores a refletirem sobre a qualidade das imagens usadas nos vários tipos de materiais, não só os livros como também revistas e jornais.

ciclo do nitrogenio

O cuidado na escolha da imagem não recai só sobre os livros, mas também sobre aquelas usadas pelo professor durante suas explicações na sala de aula. Além da lousa, o professor tem a seu dispor uma grande variedade de recursos tecnológicos, podendo, por exemplo, substituir uma imagem estática por uma em movimento. A sala de aula talvez seja o lugar mais privilegiado para se trabalhar com as imagens e ajudar a aprendizagem dos alunos, pois o professor pode modificar uma imagem, criar uma nova, fazer esquemas comparativos na medida em que as dúvidas dos alunos aparecem.

O domínio da linguagem não verbal, além de contribuir para a compreensão dos conceitos biológicos, coopera também para melhorar a leitura de mundo. Muitos meios de comunicação costumam usar um recurso que transmite a informação de modo rápido e didático, os infográficos. Para que esta leitura seja possível, o leitor deve estar familiarizado com este tipo de linguagem, que envolve tanto a verbal como a não verbal. Muitos leitores são capazes de entender os infográficos sem terem tido uma preparação formal. No entanto, a escola é o ambiente em que, intencionalmente, se criam situações para que o processo de aprendizagem dessas linguagens aconteça de forma sistemática.

Apesar desse texto defender as imagens nos livros de Biologia, deve ficar claro que a ideia não é substituir a linguagem verbal (palavras) pela linguagem não-verbal (imagens). A eficiência na aprendizagem passa necessariamente pela combinação dessas duas linguagens. Elas são as grandes responsáveis pelo desenvolvimento das representações mentais e pela construção do conhecimento nos seres humanos.

Aymar Macedo Diniz Filho

Assessor pedagógico e professor de Biologia.