A vida (do professor) como ela é

Colégio Albert Sabin

21 Setembro 2018 | 17h50

Relações mais próximas entre professor e aluno podem trazer efeitos positivos em sala de aula e ter algo a ensinar

Rubens Pimenta gosta de correr. Costuma treinar quatro vezes por semana: três treinos-padrão de uma hora e meia, à noite, e, na manhã de sábado, um treino mais pesado, de longa distância. Já consegue correr 30 quilômetros, quer chegar a 42 – uma maratona. Está se preparando para participar de sua primeira, em Buenos Aires, no dia 15 de outubro. Dia do Professor.

Sérgio Ricardo Andrielli também percorre longas distâncias, mas com menos pressa. Partindo de sua casa, no bairro da Aclimação, chega a passar cinco horas caminhando pelas ruas da cidade, sem destino certo. Seu interesse é tanto a atividade física quanto a contemplação do cenário urbano à sua volta, hábito condizente com um professor de Filosofia.

Quando não está dando ou preparando aulas de Química, Rachele Hanania gosta de cozinhar. Caroline Ribas tem uma banda de rock, canta e toca bateria. Marcelo Resende pratica aquarismo. Jackson Neo fabrica bonecos de biscuit.

Professores do Ensino Médio do Sabin, todos eles, Rubens, Sérgio, Rachele, Caroline, Marcelo e Jackson não fazem segredo sobre hobbies e interesses particulares para colegas ou alunos. Não que precisassem fazê-lo. Pelo contrário: segundo eles, o contato do aluno com os interesses do professor pode trazer efeitos positivos para o relacionamento em sala de aula, além de possibilitar trocas ricas de ideias, sentimentos e valores – o que também é fundamentalmente educativo.

“Desde que não seja em excesso, a proximidade entre professor e aluno ajuda muito”, diz Rachele Hanania, que define a medida ideal desse relacionamento como quem ensina uma fórmula química, ou uma receita de bolo. “O vínculo demasiado pode levar à perda de limites claros, e ainda há uma hierarquia que precisa ser respeitada. Por outro lado, sem vínculo nenhum, você não toca o coração, e precisa tocar para que o aluno fixe o que você quer passar”, diz a professora e assessora de Química.

Uma aula de cálculo estequiométrico, que é a investigação da proporção entre elementos químicos de um composto, por exemplo, poderia ter um caráter puramente matemático, frio, racional. Mas Rachele gosta de cozinhar, e seus alunos sabem disso. Sua aula não poderia ser diferente: “Eu puxo pelo assunto para mostrar como a proporção certa interfere na vida prática. É como fazer um bolo: para duas xícaras de farinha, duas xícaras de açúcar”.

Assim como Rachele, a professora de Física Caroline Ribas também aproveita suas atividades paralelas para engajar alunos. “Nas aulas de acústica, levo instrumentos, mostro vídeos meus, brinco com eles: ‘Essa é a parte que mais entendo de Física’”, diz Caroline, que é vocalista da banda Radiometria, que compõe com seu marido e um casal de amigos. Cantora e baterista profissional, ela traz tatuada no pulso uma clave de sol no centro de um átomo, representando suas duas paixões: a Ciência e a Música. “Razão e emoção”, define a professora, cuja jovialidade deixa alunos à vontade tanto para buscar conselhos sobre música como sobre estágios profissionais.

 

Os alunos de Marcelo Resende, professor de Química, talvez não o conheçam tão bem – ele comenta pouco sobre si e não usa redes sociais –, mas também ele vê o lado positivo da questão. “Em geral, se a relação fica mais humanizada, fica mais respeitosa”, diz. Ouvi-lo falar de seus hobbies, além disso, revela outra forma pela qual um professor pode ensinar seus alunos: pelo exemplo.

Praticante do aquarismo, Marcelo é um autodidata. Buscou todas as informações sobre aquários em fóruns na internet, aprendeu o que fazer, foi lá e fez: os aquários, os móveis dos aquários, os filtros. Construiu-os com as próprias mãos. Hoje, tem aquários que chegam a 400 litros de água, com espécies exóticas encontradas apenas em lagos africanos, cardumes de “incontáveis” peixes. Mais recentemente, tem se dedicado a outro hobby sobre o qual também teve de aprender quase tudo em sites e fóruns especializados: a produção de cervejas artesanais. E é claro que não comprou os equipamentos, quando descobriu que poderia fabricá-los. “Sempre gostei de pôr a mão na massa”.

Assessor e professor de Física, Jackson Neo diria o mesmo. Sua massa, no caso, é o biscuit. Pelo tamanho dos bonecos que fabrica, não dá para perceber, mas cada um leva meses para ficar pronto. O segredo está nos detalhes: nas mãos do personagem Sonic, dos video games, cada dedo é moldado solto, para só depois unirem-se em um sinal de positivo. A mesma coisa com o Fuleco, mascote da Copa de 2014: na carapaça do tatu, cada placa hexagonal foi feita separadamente. “Eu poderia riscar as divisões com um palito, mas perderia o realismo”, diz o professor, que faz um paralelo entre seu hobby e o aprendizado de seus alunos. “Sempre digo a eles: nada se aprende rápido. É preciso tempo, paciência e dedicação”.

Rubens Pimenta é outro que entende de dedicação. Perguntado se conseguia conciliar os treinos de corrida com a rotina de professor de Biologia, não hesita: “Tenho de conseguir”. Pelo compromisso com suas metas, traça planos e planilhas, suporta dores e tremores nas pernas, compartilhando com seus contatos nas redes sociais – entre eles, alunos – a sua evolução. “Tudo é questão de esforço: estou me preparando para correr 42 quilômetros, mas comecei correndo apenas cinco”, diz Rubens.

Já o professor de Filosofia e História Sérgio Ricardo Andrielli gostaria de inspirar seus alunos com outro tipo de exemplo. “Vim do interior, de Leme. Fui boia-fria e operário de fábrica de sabão. Sou filho de pais analfabetos”, diz Sérgio. “Faço questão de contar minha história para mostrar como só a Educação foi capaz de romper o ciclo em que eu vivia”. A Educação e a cidade, que o professor também associa à liberdade – de vida, de pensamento, de perspectiva. Caminhar por São Paulo, para ele, é ser lembrado o tempo inteiro do que o mundo tem a ensinar: dos rios que correm sob as ruas paulistanas à diversidade humana que vive sobre elas. “A cidade me abriu as portas”, diz o professor, que, em sala de aula ou em conversas pessoais, busca fazer o mesmo para seus alunos.

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