A influência do ambiente

A influência do ambiente

Colégio Albert Sabin

05 de julho de 2021 | 11h32

Há bons argumentos pedagógicos para priorizar o ensino presencial na Educação Infantil.

Se for preciso fechar escolas de novo, a psicóloga Juliana Vassallo sabe que, mesmo a distância, o Colégio AB Sabin ainda poderá fazer muito pela educação do seu filho Antônio. Ao longo de quase todo o ano passado, Juliana observou o filho mais novo assistir às lives de sua turma e o ajudou a cumprir os roteiros de atividades que garantiam que ele seguisse aprendendo importantes lições, longe da sala de aula. “Foi comigo que ele aprendeu a escrever o próprio nome”, diz a psicóloga, que pondera: “Tem um lado bonito nisso de participar assim da educação do filho”. Ao longo de quase todo o ano passado, Juliana observou o filho mais novo assistir às lives de sua turma e o ajudou a cumprir os roteiros de atividades que garantiam que ele seguisse aprendendo importantes lições, longe da sala de aula. “Foi comigo que ele aprendeu a escrever o próprio nome”, diz a psicóloga, que pondera: “Tem um lado bonito nisso de participar assim da educação do filho”.

No entanto, quando pôde voltar a levar Antônio à escola, no final de 2020 e de novo no início de 2021, Juliana tinha certeza do que seria melhor para ele. “[A aula presencial] é fundamental! Na escola eles usam muito o lúdico, e é totalmente diferente quando esse lúdico é na interação com os amigos, em vez da família”. Se ainda havia dúvidas, logo o próprio Antônio tratou de tranquilizá-la. “Já na primeira semana de aulas, ele dizia: ‘Mãe, pode ficar despreocupada, que eu sou muito bem-cuidado na escola’. Com essas palavras!”, lembra Juliana, divertindo-se com o vocabulário do filho.

Há bons argumentos pedagógicos para dar razão a Juliana e Antônio. Mais do que em outras fases escolares, na Educação Infantil a criança aprende, basicamente, por meio de interações e pela frequência na repetição dos estímulos. São fatores que sofrem restrições difíceis de contornar no ensino remoto, como a falta de autonomia da criança no uso de computadores, a necessária limitação do tempo de telas e até, como bem notou Juliana, a diferença essencial entre as interações da criança com sua família e aquelas vividas com colegas e professores no ambiente escolar.

Por esses motivos, assim que as condições epidemiológicas no Estado permitiram a reabertura das escolas, mas com limite diário do número de alunos, tanto o AB Sabin quanto o Albert Sabin determinaram que as crianças da Educação Infantil teriam prioridade na volta às aulas presenciais, podendo frequentar os colégios todos os dias, se as famílias quisessem. Uma oportunidade que, segundo Dionéia Menin, coordenadora da Educação Infantil e do Fundamental I do Sabin, foi recebida com entusiasmo pela grande maioria de pais e alunos.

“Por incrível que pareça, este ano tivemos a melhor fase de adaptação de todas”, diz Dionéia, referindo-se às semanas iniciais em que as crianças da Educação Infantil, muitas em sua primeira experiência escolar, acostumam-se com as rotinas do colégio. “Mesmo sem os pais poderem entrar com eles, devido às medidas sanitárias, os alunos estavam ansiosos para vir à escola; todos se deram superbem, sabendo respeitar os protocolos; foi um fenômeno”.

Era inevitável, porém, que o entusiasmo não fosse o único efeito dos meses de afastamento sentido pelas professoras em seus alunos. E não demoraram a se acender alertas, relativos a alguns atrasos de desenvolvimento – nenhum grave e, certamente, nenhum irreversível –, que só confirmaram o acerto de dar a prioridade do ensino presencial à Educação Infantil.

Não era de se estranhar: alguns dos primeiros sinais de que o longo período de confinamento em casa havia interferido no desenvolvimento dos alunos se manifestaram em seus corpos. Mais precisamente, em suas competências espaciais e motoras, como nota Dionéia Menin.

“Eles voltaram mais tropeçantes. Víamos crianças caindo, andando nas pontas dos pés ou não exercitando direito a alternância dos pés”, diz a coordenadora, comentando a importância de escolas oferecerem espaços amplos e objetos diversos – como bambolês, motocas, cordas, gangorras e castelos – para a criança explorar. Ela lembra que habilidades motoras globais – como correr, saltar e subir escadas – estão ligadas à aquisição de habilidades finas, como desenhar letras e números.

Na casa da família Vassallo, Juliana corrobora o testemunho de Dionéia, tendo visto o próprio filho Antônio repetidamente esbarrar em móveis e cair no chão, no ano passado, “às vezes de fazer galos enormes”. E, quando Antônio e o irmão mais velho, João Pedro, puderam voltar à escolinha de futebol, no fim de 2020, “a sensação era de que eles tinham desaprendido a correr”.

Para além da parte motora, outro sinal de que a escola presencial fez falta para os alunos se mostrou em uma ligeira regressão na maturidade e autonomia de alguns – consequência de meses sem exercitar a socialização mais direta com outras crianças, com a maioria de suas interações apenas na posição de filhos, assistidos em quase tudo pelos pais. “Nas primeiras semanas, deu para perceber alunos com fala muito infantilizada, alguns usando chupeta”, diz Andréa Silva, orientadora educacional da Educação Infantil do Sabin.

Professora do Maternal I do AB Sabin, Fabiana Kalandjian ressalta a variedade de aprendizados socioemocionais que as interações entre os alunos – que, no ensino remoto, são mais limitadas – têm a proporcionar. “As rodas de conversa, por exemplo, são muito importantes para que eles se escutem trocando experiências e sentimentos, tanto para construírem a autoimagem como para reconhecerem a existência do outro, fora do contexto familiar”, diz a professora. “Até na hora do lanche, quando uma criança vê o amigo abrindo a lancheira sozinho, comendo e usando a toalhinha sem ajuda de adultos, ela acaba se comparando e aprendendo”.

O aprendizado se dá, ainda, quando surgem conflitos, o que costuma ocorrer, com intencionalidade das professoras, durante brincadeiras competitivas. “A criança está aprendendo a se colocar em conflito com alguém igual a ela”, diz a diretora do AB Sabin, Sílvia Adrião, ressaltando a diferença entre ter como adversário um colega e jogar contra o pai ou a mãe. “O mesmo jogo pode ser jogado em casa, mas a natureza da relação é outra, e a intervenção da professora ganha outro peso e efetividade na sala de aula”.

No entanto, se é fato que a distância da escola durante quase todo o ano de 2020 teve impactos no desenvolvimento dos alunos, as educadoras também garantem que nada foi perdido.

“A criança nessa idade se adapta muito rápido, tem o cérebro biologicamente pronto para isso, com uma neuroplasticidade muito alta”, diz Dionéia Menin. “Além disso, a Educação Infantil é estruturada em uma espiral, trabalha os mesmos conteúdos repetidas vezes. Tudo se recupera”. Já a coordenadora pedagógica do AB Sabin, Suzy Vieira, nota que nenhuma família é igual à outra, e que portanto as experiências de 2020 e seus efeitos nos alunos não podem ser generalizados. “A gente sempre teve um olhar individualizado para cada criança, e agora esse olhar é mais importante do que nunca”, diz ela. “Cada aluno atingiu um patamar de acordo com o que foi possível viver no ano passado. Então, se tem criança que ficou um pouco mais dependente dos adultos, a gente dá uns passinhos para trás nesse ponto com ela; por outro lado, também tivemos alunos que voltaram mais autônomos. O importante é que, agora, na escola presencial, podemos acolher e ver mais de perto as dificuldades de cada aluno e os desafios que cada um já é capaz de enfrentar”.

 

 

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