Você prefere um diploma ou aprender a ler?
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Você prefere um diploma ou aprender a ler?

Newton Campos

28 Novembro 2018 | 15h49

Autora convidada: Letícia Bahia (texto escrito para este blog em novembro de 2018).

O Brexit poderia ter dado cabo da ideia. Não deu. A eleição de Trump tampouco foi o suficiente. Desta vez, o exemplo aconteceu dentro de casa: Bolsonaro venceu o pleito de outubro e foi mais votado que Haddad em 967 dos 1000 municípios brasileiros com maior IDH. Ainda assim, parte da esquerda insiste na ilusão de que um projeto educacional verdadeiramente amplo e profundo desemboca irremediavelmente em uma população progressista.

Recortes de raça e gênero apontam que há outros fatores envolvidos, mas é uma verdade inequívoca que o estudo eleva a renda. Este não é o único efeito da educação, evidente, mas jamais poderia ser considerado pouca coisa.

Sabe aquele motorista de Uber que deu várias voltas a mais porque não sabe ler mapa? Ele poderia ter feito mais corridas com o mesmo tempo de trabalho. O excedente de renda poderia se traduzir em mais fartura na mesa, em um curso para a filha, em mais passeios no fim de semana, em uma TV nova ou no que o dono do dinheiro escolhesse.

Esse ano os chineses da Yellow prometeram disponibilizar 20 mil bicicletas para aluguel por hora em São Paulo. É uma alternativa para o paulistano que enfrenta diariamente o complexo problema da mobilidade, mas a Yellow precisa de usuários minimamente familiarizados com tecnologias e que possuam um cartão de crédito, única forma de efetuar o pagamento.

E um novo idioma, quantas portas não abre? Quantos empregos a mais temos à disposição com inglês fluente?

Para muitos, no entanto, persiste a ideia de que a baixa escolaridade do brasileiro é um projeto (e não a ausência ou má execução de um) arquitetado por uma elite malvada, que odeia pobre e faz de tudo para não encontrá-los no aeroporto. Ora, o Uber quer mais é que o motorista faça mais viagens em menos tempo. O hipster quando volta do Vale do Silício quer é uma população capaz de usufruir dos aplicativos disruptivos que inventa. Funcionário que fala inglês, se o mercado não quisesse, pagava menos, não mais.

É claro que empresários preferem funcionários que não façam greve, mas a concepção da baixa escolaridade como projeto só faz sentido para quem tem certeza de que a educação vai obrigatoriamente levar as pessoas a se revoltarem contra “o sistema”. Para estes, o pensamento crítico é obrigatoriamente o pensamento de esquerda, a educação que forma bons funcionários não presta e o saber técnico é menor.

Mas é preciso farta dose de pensamento crítico para usar conhecimentos da Física na resolução de problemas ambientais. Bons funcionários são mais valorizados do que maus funcionários, portanto tendem a ganhar mais – algo que todo mundo quer. E é com o saber técnico que podemos fazer pequenos reparos na elétrica de casa, construir máquinas que nos facilitam a vida e explorar o universo.

Não, a educação não vai obrigatoriamente formar um exército de esquerda, mas ela irá proporcionar o milagre do incremento de renda. É preciso estar muito longe de uma situação de desemprego para subestimar o quanto a dignidade escorre pelo ralo junto com a impossibilidade de pagar o aluguel e a comida dos filhos. Mas o inverso também é verdadeiro: o aumento de renda, quando persistente, gera um ciclo virtuoso em que as pessoas passam a ter mais escolhas, do menu da semana ao bairro em que se vai viver.

Hoje, infelizmente estamos longe disso. Apenas 8% da população brasileira atinge o grau máximo de letramento medido pelo IBGE, ou seja, consegue compreender plenamente um texto.

O percentual de analfabetos – e não falo dos funcionais, mas de contato zero com o mundo das palavras – é bem próximo, com 11,8 milhões de brasileiros vivendo nessa condição precária. Os índices pioram nas regiões Norte e Nordeste e entre as pessoas negras.

Nossos recursos são limitados. Devemos investir no fetiche do diploma para todos, desprezando os saberes técnicos e produzindo um exército de semiletrados com canudo? Ou a universidade deve ser um centro de saber destinado a quem se dispõe a grandes pesquisas e reflexões? Aqueles para quem as profissões técnicas – eletricista, mecânico, encanador – são menores vão defender que sim, a universidade deve ser para todos. Enquanto isso, fracassamos em ensinar o brasileiro mais pobre a ler e a contar.

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Letícia Bahia é psicóloga com especialização em Psicodrama. Representa a Fundação ONU no Brasil, liderando o Girl Up, um movimento voltado para a equidade de gênero com foco em meninas. É co-fundadora da Revista AzMina.