Quem estamos formando para 2036?
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Quem estamos formando para 2036?

Newton Campos

22 Dezembro 2016 | 23h59

Autor convidado: Daniel Machado (texto escrito para este blog em dezembro de 2016).

Uma criança de 2 anos que entrou este ano na escola vai demorar 16 anos para concluir o ensino infantil, fundamental e médio. Depois, serão, no mínimo, mais 4 anos no ensino superior. Portanto, em tese, esse estudante entrará no mercado de trabalho em 2036. É muito importante que ele esteja preparado para enfrentar as mudanças e desafios que lhe esperam.

Com o acréscimo de 20 anos na expectativa de vida no século XX, é presumível que, com os avanços da ciência moderna, outros 20 anos serão acrescidos aos atuais 75 anos de expectativa de vida do brasileiro. Se partirmos do princípio lógico que o aumento da expectativa de vida acarreta no aumento do tempo de contribuição previdenciária, podemos concluir que esse mesmo estudante deve se aposentar até 2086, após pelo menos 50 de anos de contribuição à previdência social.

É fácil perceber que o mundo no século XXI tem sido e será cada vez mais dinâmico.

O crescimento exponencial de novas tecnologias também irá transformar o mercado de trabalho. Vejam que só nos Estados Unidos, por exemplo, 3,5 milhões de caminhoneiros serão substituídos por caminhões que não precisam de motoristas*. Outras 3,5 milhões de pessoas que trabalham como caixas de lojas e de supermercados deverão ser substituídas por sensores e câmeras que possibilitarão compras expressas. E todas essa mudança ocorrerá entre 5 e 10 anos.

A minha pergunta é: qual o papel dos pais e das escolas na formação do indivíduo para esse futuro? Quais instruções estão sendo passadas para os nossos estudantes se adaptarem a essa nova dinâmica? E sabe o que é mais surreal e assustador? Quando eu penso nessa conta, no tempo que um estudante gasta para passar por todas essas etapas até se formar e no conteúdo que ele precisa “aprender”, eu tenho certeza que tem algo errado com a educação brasileira.

Nossas escolas dedicam tempo demais ensinando conteúdo ou disciplinas que logo serão esquecidas e que muitas vezes não serão utilizadas por esses estudantes. Qual a necessidade de se dedicar 20 horas de estudo para aprender logaritmo neperiano, por exemplo?

Ensinamos matemática, física, química. Fazemos nossos estudantes decorarem fórmulas e mais fórmulas. Esquecemos de ensinar a criatividade. Na verdade, nós fazemos justamente o contrário, abolindo a criatividade de nosso plano de ensino. Inibimos sonhos e curiosidades. Não ensinamos nossos estudantes a desenvolverem um pensamento crítico, a serem mais colaborativos, tolerantes. Não lhes ensinamos a ser autodidatas, a aprender a se adaptar. Não lhes ensinamos habilidades primordiais para o convívio social. Os nossos ensinamentos muitas vezes passam longe do que seria ideal para a formação do aluno em um futuro incerto.

Carro Uber sem motorista (Foto: EFE)

Carro Uber sem motorista (Foto: EFE)

A minha vontade como diretor de uma escola de classe A é falar para esse aluno: “Olha, não tenho ideia do que você ainda vai enfrentar na vida, mas muitas coisas do que você aprende aqui hoje, não serão necessárias. As habilidades mais importantes, das quais você mais precisa aprender para sobreviver, infelizmente eu não irei te ensinar. Isso você terá que aprender sozinho. Mas não se preocupe, seus pais são ricos. Você aprenderá um, talvez dois idiomas, terá acesso a livros, internet e poderá aprender a lógica do desenvolvimento de softwares, se quiser. Suas oportunidades são gigantescas, basta você querer e saber aproveitá-las.

Mas o que um diretor de escola pública irá dizer para os seus alunos? “Olha, o conteúdo que alunos de uma escola privada A aprendem em um ano é bem provável que você aprenda em dez. Isso, se aprender. Mas não se preocupe você não vai precisar disso. O que você não aprender aqui, a vida te ensina, de um jeito bem mais cruel. Porque você está condenado a permanecer nessa classe social, seu trabalho manual e repetitivo será substituído pela tecnologia, seu emprego será terceirizado para outro país com mão-de-obra mais barata. E se você tiver um salário, este será o suficiente apenas para sobreviver e não para viver.

Quanto mais eu penso no papel da escola, mais eu tenho certeza de que a função de um educador não é preparar os alunos para adquirirem conhecimentos que podem ser facilmente aprendidos no Google. O papel da escola é muito mais que isso: é fomentar junto com a família e outros agentes todo o potencial do aluno; é desenvolver as habilidades que lhes tornem pessoas mais completas como seres humanos, preparadas para os desafios individuais e coletivos do século XXI. Que não analisem somente a parte, mas o todo. Que enxerguem mais possibilidades do que aquelas a que foram obrigadas enxergar.

Mas eu pergunto novamente: se até as escolas privadas falham nesse quesito, imagina o que acontece no ensino público? O que será dos 40 milhões de alunos de escolas públicas, especialmente os de baixa renda e moradores da periferia? Talvez o que precisemos analisar é que existe uma diferença crucial entre estes dois estudantes: as oportunidades. Infelizmente, não são iguais para todos. E, neste caso, se a nossa falha pode ser remediada para uns, infelizmente ela não pode ser remediada para a grande maioria. E não usemos o discurso da meritocracia, pois isso não existe no Brasil!

Se o ensino público já não consegue ensinar seus alunos a ler, escrever e a fazer contas básicas, imagine o que acontece com a formação do sujeito como indivíduo, que ainda tem o desafio de sobreviver nesta nova dinâmica social do século XXI?

É assim que nossos estudantes de ensino público (a grande maioria) vão deixando de acreditar: a vida, a escola e a falta de oportunidades vai subtraindo tudo deles, até a capacidade de sonhar.

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Daniel Machado é empreendedor na área de educação, tendo fundado escolas e a primeira e maior solução de aprendizagem adaptativa para textos do mundo. É também Coordenador do Comitê de EdTech da Associação Brasileira de Startups (ABStartups).