USP propõe 50% de cota para aluno de escola pública até 2021

No último ano, apenas 36,9% dos alunos ingressantes cursaram a rede pública

Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

01 Julho 2017 | 13h06
Atualizado 01 Julho 2017 | 21h46

SÃO PAULO -  A Universidade de São Paulo (USP) pretende implementar, até 2021, cotas de 50% para alunos da rede pública em todos os cursos e turnos da instituição. É a primeira vez que a universidade prevê uma reserva de vagas geral nas graduações.

A mudança consta em minuta de resolução enviada aos integrantes do Conselho Universitário (CO), instância máxima da USP. O conselho votará a proposta na próxima terça-feira. A proposta não indica reserva de cadeiras para pretos, pardos e indígenas (PPI).

A USP havia se comprometido a ter metade dos alunos da rede pública entre seus calouros até o ano que vem, mas ainda está longe da meta: foram 36,9% de ingressantes de escolas públicas no último processo seletivo. 

Com a nova proposta, o reitor Marco Antonio Zago quer estender o prazo até 2021. A USP é a última a aderir às cotas entre as estaduais – Unicamp aprovou reserva de vagas em maio deste ano e a Unesp, em 2013. Já o ensino superior federal usa cotas desde 2012. 

Uma das primeiras tentativas da USP de aumentar a inclusão foi há dez anos, com o início do bônus no vestibular para alunos da rede pública. A bonificação passou por ajustes ao longo dos anos, como conceder mais pontos para candidatos autodeclarados PPI. 

Desde 2016, a universidade adotou outra estratégia de inclusão. A reitoria passou a usar a Fuvest, vestibular tradicional da instituição, e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem)como métodos de ingresso na USP. A nota do Enem servia para o aluno tentar vaga pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu) – plataforma digital que reúne vagas no ensino superior público. Coube a cada faculdade decidir se reservaria, no Sisu, vagas para alunos da rede pública e para pretos, pardos e indígenas. 

A ideia da nova proposta é manter as duas formas de ingresso – sendo, no máximo, 30% no Sisu. Na avaliação da reitoria, isso ajuda a atrair talentos de outras parte do País, que não teriam condições de vir até São Paulo para fazer a Fuvest. 

A adesão às cotas será de modo escalonado. De acordo com a minuta da resolução, no próximo processo seletivo serão reservadas 37% das vagas para alunos da rede pública. No ano seguinte, 40%. Em 2020, serão 45% e, finalmente, metade das cadeiras em 2021. 

Para conseguir esse patamar de cota, a reserva de vagas deverá ser feita tanto na Fuvest quanto no Sisu. O sistema, de acordo com a proposta, terá a duração de dez anos e será avaliado por comissão específica. 

Tema historicamente polêmico na universidade, a reserva de vagas vem ganhando espaço dentro da instituição nos últimos anos. Faculdades tradicionais, como a Direito, passaram a usar cotas desde 2016, quando a USP entrou no Sisu. Anteontem, a Faculdade de Medicina da capital também aprovou cotas no Sisu para alunos de escola pública e PPI. 

A proposta da reitoria também não prevê critérios de renda para fazer a reserva de vagas entre os candidatos. Isso pode, segundo especialistas, colaborar para que só a elite da rede pública – de escolas técnicas ou que fizeram cursinhos preparatório – ingresse nas carreiras mais concorridas. .

Posicionamento. Procurada pelo Estado, a assessoria de imprensa da reitoria disse que vai se manifestar sobre a proposta só após reunião do CO. A proposta de mudança já teve parecer favorável de comissões e conselhos internos. A adaptação do vestibular era uma das metas da gestão do reitor Marco Antonio Zago, que está em seu último ano à frente da USP.

Novas graduações. O Conselho Universitário também vai discutir na próxima terça-feira a proposta de criação de novos cursos na USP. Um deles é o de Medicina no câmpus de Bauru. Hoje a USP oferece a carreira só na capital e em Ribeirão Preto. A ideia é que esse novo curso no interior, que tem previsão para começar já no próximo vestibular, ofereça 60 vagas. 

Outra proposta é inaugurar um bacharelado de Biotecnologia na USP Leste, em substituição à turma matutina da licenciatura de Ciências da Natureza no mesmo câmpus, que foi extinta. Essa graduação também tem 60 vagas previstas. Os dois casos ganharam aval de comissões internas. 

Apoio ao estudante pobre será desafio para evitar evasão alta

A proposta de implementar cotas para a rede pública foi considerada um avanço para especialistas ouvidos pelo Estado. Mas eles ressaltam que, sem outros mecanismos – como a reserva de vagas para pretos, pardos e indígenas (PPI) ou critérios de renda –, há risco de a medida beneficiar só uma elite da escola pública, principalmente em carreiras concorridas. Eles também destacam a importância de e uma política de apoio ao aluno, para evitar a evasão. 

Especialista em ensino superior pela USP, Elizabeth Balbachevsky elogia, mas faz ressalvas. A mudança, diz, pode ter efeito menor do que o desejado entre os pobres. Colégios militares, técnicos e federais têm seleção rigorosa, o vestibulinho, e recebem alunos de classe média. “Ainda assim é um avanço por democratizar o acesso, principalmente, a algumas faculdades, como Medicina e Poli.” 

Além disso, diz ela, a reserva de vaga pela cor da pele não é necessariamente uma boa saída. “A cota racial segrega pessoas iguais economicamente. Entendo e valido o argumento de que temos passado escravocrata e uma sociedade ainda fortemente discriminatória, mas essa divisão desprivilegia o aluno branco pobre e não o que estudou na escola particular.” 

Já para o diretor do cursinho da Poli, Gilberto Alvarez, o melhor modo de garantir real inclusão é pela reserva racial. “O critério mais justo é como o que há nas federais, que reserva dentro das cotas para escola pública um porcentual para PPI”, diz. 

E o reforço na política de assistência, acrescenta, é essencial. “Sem pensar em oferecer cursos noturnos, aumentar a moradia estudantil e dar bolsas, os alunos não vão concluir. O sucesso das cotas depende desse acompanhamento.” /COLABOROU ISABELA PALHARES

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