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Universidade de São Paulo completa 80 anos

USP abre sindicância para investigar aumento nos gastos com salários

Auditoria externa também será contratada para revisar as contas da última gestão, comandada pelo ex-reitor João Grandino Rodas

Atualizada às 20h52

SÃO PAULO - A Universidade de São Paulo (USP) contratará uma auditoria externa para investigar o aumento nos gastos da instituição com salários entre 2009 e 2014. A reitoria também instalou sindicância para apurar as contas da última gestão. O ex-reitor João Grandino Rodas disse que não vai se manifestar.

A decisão foi anunciada nesta terça-feira, 3, pelo reitor Marco Antonio Zago, durante reunião do Conselho Universitário, órgão máximo da instituição. Embora não seja a primeira auditoria externa da universidade, a medida é tomada em situação extraordinária, pois a instituição passa por controle interno e do Tribunal de Contas do Estado (TCE). Em crise financeira, a USP gasta hoje 105% das receitas com salários de docentes e funcionários. 

O nível de comprometimento das contas já fez a universidade cortar 30% dos gastos com custeio e investimentos e congelar os salários de professores e servidores neste ano - decisão em conjunto com as outras estaduais, Unesp e Unicamp. Por causa disso, os trabalhadores estão em greve.

Embora fosse pró-reitor de Pesquisa da última gestão, Zago afirma que o descontrole orçamentário não foi informado pelo ex-reitor a todos os integrantes da administração e do Conselho Universitário. Durante a campanha eleitoral para a reitoria, Rodas foi apontado como centralizador e pouco transparente - crítica que apareceu pouco nos anos anteriores. O alto gasto com salários já constava no orçamento de 2013, quando a previsão de comprometimento com a folha era de 93% do total, conforme o Estado revelou em janeiro do ano passado. 

Ainda não há data para abertura de licitação nem os detalhes referentes à contratação da auditoria. Já a sindicância será formada por três professores da própria USP, que tem 60 dias para concluir os trabalhos - mas o prazo pode ser prorrogado. Após o resultado da sindicância, o grupo pode abrir processo administrativo disciplinar, cuja pena máxima é a demissão dos professores ou servidores. Além de Rodas, outros integrantes da antiga reitoria podem ser ouvidos na sindicância.

Para Zago, a auditoria também será uma oportunidade de provar que ele não tinha acesso às contas da universidade na gestão passada. “Não é com esse objetivo (que a auditoria foi pedida), mas fará isso. Eram decisões em que não houve obrigação de o Conselho Universitário se manifestar”, afirmou o reitor ao Estado “Será mostrado como funcionavam os mecanismos de decisão”, afirmou.

Sob cobrança por mais transparência e controle independente, Zago tem divulgado informes periódicos sobre as contas da USP. “Examinar externamente as contas não deve ser visto como algo excepcional”, disse. “Se cobravam isso, a universidade deve fazer.” O TCE realiza auditorias sobre as contas anuais da universidade, mas somente após os exercícios. As contas dos dois últimos anos analisados - 2008 e 2011 - foram rejeitadas pela Corte.

Apuração. O diretor da Faculdade de Direito da USP, José Rogério Tucci, elogiou a iniciativa. “É um dever e uma forma de precaução. Se o reitor não tem essa postura de investigar poderia sofrer até uma ação de improbidade administrativa por omissão”, apontou.

Para Sigismundo Bialoskorski Neto, diretor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, a crise reflete a necessidade de profissionalizar a gestão da universidade. “Quem ocupa cargos administrativos nem sempre está preparado para a função”, argumenta. “Esse não é um problema só da USP, mas da administração pública”, disse.

Já na opinião do presidente da Associação de Docentes da USP, Ciro Correia, é preciso dar mais transparência ao processo de apuração de gastos. “A USP deve tornar pública toda a base documental da auditoria”, defende. O sucesso da apuração, segundo ele, também dependerá da pressão da comunidade acadêmica. “E se não houver transparência surgirá outra vez a desconfiança”, completou./ COLABORARAM BÁRBARA FERREIRA SANTOS e PAULO SALDAÑA

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