Universidades brasileiras formam consórcio para importar técnicas de ensino dos EUA

O treinamento pretende levar metodologias ativas de ensino aos professores; aulas começam em maio

Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

25 Fevereiro 2014 | 03h00

Lousa suja de giz e filas de carteiras em frente ao professor se transformam, aos poucos, em página virada na história das salas de aula. No Brasil, dez instituições privadas e públicas, entre elas a Universidade de São Paulo (USP) em Lorena e duas faculdades de Tecnologia (Fatecs), resolveram unir esforços para formar seus docentes sobre novos métodos de ensino, já usados em Harvard e no Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos. As apostas são a aprendizagem por projetos e a troca de experiências entre colegas.

A ideia é formar uma espécie de consórcio entre as universidades para trazer especialistas de MIT e de Laspau, um Instituto de Harvard focado na América Latina, que darão aulas aos professores brasileiros, selecionados pelo comitê gestor do projeto de acordo com seus interesses acadêmicos. Também serão convidados palestrantes de outras universidades americanas e de uma canadense.

A previsão é formar, no prazo de três anos, 300 docentes que teriam o compromisso de serem multiplicadores nas instituições de origem, para atingir 1,5 mil professores no total. Os investimentos serão de aproximadamente US$ 540 mil (R$ 1,281 milhão) e as aulas, presenciais e online, começarão em maio. Ainda é discutido como será o rateio de custos entre as instituições e já existem diálogos com fundações de apoio à pesquisa e a Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes), autarquia ligada ao Ministério da Educação, para buscar apoio financeiro.

No primeiro momento, algumas universidades participam apenas informalmente, como a USP e o câmpus de Guaratinguetá da Universidade Estadual Paulista (Unesp), já que dependem de mecanismos legais para contratar professores estrangeiros. Além das paulistas, participam instituições cariocas e mineiras.

Uma das técnicas ensinadas será a Peer Instruction (Instrução pelos Colegas), desenvolvida pelo professor de Física de Harvard Eric Mazur na década de 1990. A proposta incentiva os alunos a estudarem os conteúdos antes das aulas para que sejam discutidos em grupo na classe. Outro modelo a ser importado é o Projects Based Learning (PBL), em que os estudantes aprendem por meio do desenvolvimento de projetos ou na resolução de problemas propostos.

"Nesse formato, o professor não faz monólogos nem dá as respostas prontas. O aluno é sempre instigado a participar e pensar junto", afirma Fábio Reis, diretor operacional da Unisal, de Lorena, uma das faculdades que encabeçam a iniciativa. Segundo ele, a prioridade da formação é para o campo de tecnologia, mas docentes de outras áreas também poderão fazer os cursos.

"O estudante terá vantagens para se colocar no mercado. Se ele pensa na execução de projetos que têm impactos na sociedade e na empresa, é bem visto pelos empregadores", diz Reis, que aponta a sistematização de ideias e pesquisas como outro foco do treinamento. Para ampliar a conexão com o mercado, executivos farão parte do comitê gestor do consórcio.

Segundo Messias Borges da Silva, professor da Escola de Engenharia de Lorena responsável por discutir a adesão ao projeto, os métodos de Instrução pelos Colegas e Aprendizado baseado em Projetos já são usados na universidade. "Incluímos o desenvolvimento de projetos até em disciplinas do primeiro ano e conseguimos excelentes resultados." O Instituto de Física de São Carlos, também da USP, é outra unidade que adota o formato.

Adaptação. As transformações nos métodos pedagógicos também exigem ajustes estruturais. Na USP Lorena estão sendo construídos dois laboratórios baseados no modelo Technology Enable Active Learning (Teal), desenvolvido no MIT. Os espaços, que ficam prontos no fim do ano, favorecerão os experimentos em grupo, o uso de mídias móveis e a troca de experiências entre os estudantes.

"O aluno poderá buscar a teoria antes e durante a aula, fazer a experiência e usar softwares em simulações, com diversas possibilidades para testar fórmulas e parâmetros", explica Borges da Silva. A reforma das salas e a compra dos programas virtuais e do mobiliário, feitas por meio de um edital da USP voltado à inovação, custam R$ 500 mil.

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