Universidade e PF investigam performance em que mulher teve peito cortado e outra, vagina costurada

Trabalho encerrou seminário Corpo e Resistência, da Universidade Federal Fluminense. Chefe do departamento destacou que performance foi realizada 'dentro de uma perspectiva acadêmica' e que artista estava 'em plena posse dos sentidos e o fez porque quis'

Thaise Constâncio, O Estado de S. Paulo

03 Junho 2014 | 19h14

RIO - Era para ser uma performance contra o aumento de estupros e a violência sexual contra a mulher como parte do seminário Corpo e Resistência, no câmpus de Rio das Ostras, na Região dos Lagos, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Terminou como uma grande polêmica sobre arte e os limites da liberdade de expressão quando fotos do evento foram publicadas nas redes sociais. A universidade e Polícia Federal investigam o caso.

Além de discussões teóricas, o seminário, realizado no dia 28 de maio pelo curso de Produção Cultural, incluía uma apresentação da artista mineira Raíssa Vitral e uma festa intitulada Xereca Satanik. Durante o evento, mulheres ficaram nuas, uma participante foi cortada no peito com um estilete e Raísssa - que costuma usar o próprio corpo como parte das performances -, teve a vagina costurada enquanto fumava e conversava. Tudo fazia parte de uma performance artística.

Choque à sensibilidade. Diante da polêmica, o chefe do departamento de Artes e Estudos Culturais, Daniel Caetano, explicou em seu perfil no Facebook que as performances foram “feitas para chocar a sensibilidade das pessoas e fazê-las pensar sobre seus próprios limites”. “Damos apoio total aos promotores do evento, realizado dentro de uma perspectiva acadêmica, com base em discussões ocorridas nas aulas de uma disciplina. É coisa séria e deve ser respeitada.”

Ele acrescentou que costurar partes do corpo “não é novidade” e já foi reproduzido por artistas contemporâneos como Marina Abramovic e Lydia Lunch. O professor esclareceu que Raíssa “estava em plena posse dos seus sentidos e o fez porque quis” e "nenhum aluno ou qualquer outra pessoa foi constrangido a fazer nada”. “Qualquer tentativa de intimidar o curso, os alunos, os professores ou os participantes do evento será por nós considerado um gesto de censura (...), não haverá de nossa parte qualquer censura a atos do gênero.”

Na segunda-feira, 2, a UFF instaurou uma comissão de sindicância para, em 30 dias, apurar o que aconteceu no câmpus de Rio das Ostras. No mesmo dia, o vice-reitor em exercício, Sidney Mello, afirmou em nota publicada no site da universidade que “é inegável o direito da manifestação política e cultural. Existem, no entanto, regras mínimas de respeito pelo outro e pelo espaço público, norteadas por princípios éticos e pela legislação vigente”.

Nesta terça-feira, 3, o vice-reitor  ressaltou que a Direção Central “não compactua com qualquer tipo atividade que, desvirtuando de sua essência institucional, extrapole os limites do razoável, atentando aos valores da liberdade e igualdade, ou ofendendo a dignidade da pessoa humana”.

A Polícia Federal também investiga “as circunstâncias da utilização do patrimônio público federal” e vai ouvir representantes da UFF e os responsáveis pela organização da festa para esclarecer o caso.

Estupros. Um dos objetivos da performance era “denunciar” o aumento das ocorrências de estupros em Rio das Ostras: no primeiro trimestre de 2014 houve 20 registros, contra 14 casos no mesmo período do ano anterior (crescimento de 42%), de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública.

Questionada sobre o aumento da violência sexual contra a mulher na cidade, a prefeitura de Rio das Ostras informou que o crescimento populacional “está diretamente relacionado ao aumento dos índices de violência”. Em 2004, havia 45 mil habitantes, ante 120 mil pessoas em 2013.

A prefeitura também informou que reforçou o patrulhamento no município em, pelo menos, 80 policiais e aumentou a quantidade de câmeras de vigilância na cidade (de 20 para 60). Além disso, ampliou o Núcleo de Atendimento à Mulher, na 128ª Delegacia de Polícia, e oferece atendimento individualizado às vítimas de todos os tipos de violência.

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