REUTERS/Michael Kooren
REUTERS/Michael Kooren

Turbinando a máquina da aprendizagem

Juntos, tecnologia e professores podem renovar as escolas – mas ela precisa estar a serviço do ensino, e não o contrário

O Estado de S.Paulo

30 Julho 2017 | 05h00

Em 1953, B. F. Skinner foi assistir a uma aula de Matemática na escola da filha. O psicólogo da Universidade de Harvard verificou que os alunos eram obrigados a aprender cada novo tópico da matéria da mesma forma e no mesmo ritmo. Dias depois, inventou sua primeira “máquina de ensinar”, que permitia às crianças lidar com os problemas cada qual em seu ritmo. Em meados da década seguinte, engenhocas semelhantes eram vendidas de porta em porta de uma ponta a outra dos EUA. Dali a alguns anos, porém, o entusiasmo se esvaíra.

Desde então, a tecnologia educacional volta e meia percorre o mesmo ciclo de euforia e desânimo, a despeito de os computadores terem transformado quase todas as outras dimensões da vida. O conservadorismo dos professores e de seus sindicatos é um dos fatores. Mas o fato de a tecnologia educacional ainda não ter comprovado seu potencial supostamente maravilhoso é outro.

Agora, porém, os herdeiros de Skinner estão obrigando os céticos a reavaliar seus conceitos. Com o apoio de bilionários da tecnologia, como Mark Zuckerberg e Bill Gates, escolas do mundo inteiro usam softwares para “personalizar” a aprendizagem. Centenas de milhões de crianças que não conseguem avançar nos estudos podem ser beneficiadas por isso — mas só se os entusiastas da tecnologia educacional resistirem à tentação de resgatar teses equivocadas e perniciosas sobre a maneira como as crianças aprendem. Para ser bem-sucedida, a tecnologia educacional precisa estar a serviço do ensino, e não o contrário.

Lápis na carteira. O modelo convencional de educação surgiu no século 18, na Prússia. Até o momento, nenhuma alternativa a ele se mostrou capaz de ensinar tantas crianças com tanta eficiência. Salas de aula, classes agrupadas por idade, currículos padronizados e horários fixos ainda são a norma para o contingente de quase 1,5 bilhão de crianças matriculadas na educação básica em todo o mundo.

Muitas delas jamais chegam a desenvolver seu potencial. Em países pobres, apenas 25% dos alunos do ensino médio concluem os estudos com conhecimentos básicos em Matemática, Leitura e Ciência. Mesmo entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em sua maioria desenvolvidos, cerca de 30% dos jovens apresentam dificuldades em pelo menos uma dessas áreas.

Esse índice permaneceu praticamente inalterado nos últimos 15 anos — durante os quais as escolas receberam bilhões em investimento em tecnologia. Em 2012, já havia um computador para cada dois alunos em diversos países ricos. Na Austrália, seu número superava o de alunos. Utilizados de maneira incorreta, eles podem levar à distração. Estudo realizado em Portugal, em 2010, verificou que as escolas onde não havia acesso de banda larga à internet e onde sites como YouTube eram interditados apresentavam melhores resultados do que as que se encontravam na crista da onda da tecnologia.

O que realmente importa é a forma como a tecnologia é utilizada. Educação “sob medida” é uma das coisas em que ela pode auxiliar. Desde que o Rei Felipe II da Macedônia contratou Aristóteles para preparar seu filho Alexandre e ensiná-lo a ser Grande, pais ricos pagam professores particulares para seus filhos. De São Paulo a Estocolmo, os reformadores acreditam que a tecnologia educacional é capaz de pôr a atenção individual ao alcance de todos. Nos EUA, a adoção do modelo é acelerada. Um terço dos alunos do país estão em distritos escolares que assumiram o compromisso de implementar “uma aprendizagem personalizada e digital”. 

De olho no pessoal do fundão. Esse tipo de inovação é bem-vindo. Mas o aproveitamento de todo o potencial da tecnologia da educação depende da compreensão de vários elementos. Em primeiro lugar, a “aprendizagem personalizada” precisa acompanhar as descobertas sobre o modo como as crianças aprendem. Não pode servir como desculpa para a recuperação de ideias pseudocientíficas, como a dos “estilos de aprendizagem”, isto é, a tese de que cada criança tem uma maneira particular de absorver informações. 

Uma falácia de consequências menos graves é a de que, com a tecnologia, as crianças não precisam acumular conhecimentos nem assistir a aulas ministradas por um professor — afinal, o Google está aí para quê? Alguns entusiastas da tecnologia vão ainda mais longe, argumentando que os conhecimentos atrapalham o desenvolvimento de habilidades como criatividade e pensamento crítico. A verdade é o oposto disso. Uma memória abastecida de conhecimentos impulsiona essas habilidades. Na infância, William Shakespeare teve que decorar frases e regras gramaticais latinas, e mesmo assim conseguiu escreveu algumas peças de qualidade bastante razoável.

Em segundo lugar, é fundamental fazer com que a tecnologia educacional contribua para reduzir, e não aumentar, as desigualdades na educação. Nesse ponto, há razões para otimismo. Algumas das primeiras escolas a adotar a tecnologia são instituições particulares do Vale do Silício, mas há inúmeras escolas públicas seguindo o mesmo caminho.

Em terceiro lugar, a tecnologia da educação só realizará seu potencial se contar com a boa vontade dos professores. Eles têm razão em exigir provas de que a tecnologia funciona, mas o ceticismo não deve se tornar aversão despropositada. Nesse ponto, a rede pública do Estado de São Paulo é um exemplo a seguir: seus professores acolheram a contribuição da desenvolvedora de softwares adaptativos Geekie.

Em 1984, Skinner disse que a oposição à tecnologia era uma “vergonha” para a educação. Tendo em vista as promessas que a tecnologia educacional oferece hoje, não há lugar para cabeças tecnologicamente bitoladas em sala de aula. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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