Tradição, foco e Harry Potter

Ex-alunos falam de sua experiência em Oxford a estudantes do ensino médio no ciclo Grandes Universidades

Reinaldo Adri e Sergio Pompeu, do Estadão.edu,

21 Agosto 2012 | 22h04

Oxford tem 900 anos de história, 48 ganhadores do Nobel e 120 medalhistas olímpicos. Estudaram lá 26 primeiros-ministros britânicos, líderes de outros países, como o americano Bill Clinton, e até 11 santos.

Isto você pode achar na Wikipedia. O que você não pode encontrar na web são as memórias de quem já estudou lá, compartilhadas com estudantes do ensino médio na manhã desta terça-feira, 21, na sede da Fiesp no ciclo Grandes Universidades, realizado pela Fundação Estudar com apoio do Estadão.edu.

Em Oxford, aluno não faz prova, faz dissertações - até duas por semana. Para isso tem de ler, ler muito. Prova, quando tem, é feita para descobrir o que ele sabe - e não aquilo que ele não sabe. O estudante recebe uma lista com dezenas de temas e escolhe de um a três tópicos para escrever dissertações. O objetivo é descobrir o quanto ele pode se aprofundar e ser original em temas que realmente despertam seu interesse.

O aluno tem um companheiro nessa aventura intelectual, um professor-tutor com o qual se reúne uma ou duas vezes por semana. O objetivo expresso desse tutor é dar autoconfiança ao estudante, apoiá-lo para que pense por si mesmo - e não torná-lo um reprodutor das ideias do mestre, como fazem tantos acadêmicos em tantas universidades do mundo.

"O sistema inglês é diferente do nosso ou mesmo do americano", disse aos estudantes brasileiros Antônio Bonchristiano, sócio da GP Investimentos e membro do conselho da Fundação Estudar. "Para quem se adapta ele é fantástico, pela chance que te dá de absorver conhecimento de forma profunda. Você ganha toda uma metodologia de análise e a capacidade de transformar conteúdo em conhecimento."

Bonchristiano acredita que estudantes que não tiveram contato prévio com o sistema inglês, que dá mais liberdade, mas exige maior autonomia do aluno, podem enfrentar dificuldades de adaptação em Oxford. Não foi o caso dele, porque o brasileiro fez os dois últimos anos do ensino médio na Inglaterra, graças a uma bolsa.

O financista entrou em Oxford aos 17 anos e escolheu um dos cursos mais populares da universidade, que mistura política, filosofia e economia. "É difícil, mesmo em universidades americanas, você ter tempo e foco para se concentrar em matérias tão diferentes."

Na mesa de alumni da qual Bonchristiano participou, com a mediação do repórter de Internacional do Estado Roberto Simon, houve espaço também para lembranças mais pessoais. O sócio da GP citou a música tocada nas capelas do college, a beleza da arquitetura e do campus da cidade de apenas 300 mil habitantes.

Filósofa e matemática, a ex-secretária de Educação de Campinas Ítala Maria Loffredo D'Ottaviano, que fez em Oxford um dos seus três pós-doutorados (os outros foram em Berkeley e Stanford), falou da visita que fez ao laboratório onde a penicilina foi desenvolvida. "Também me marcou muito a acolhida, a gentileza das pessoas."

Bonchristiano, Ítala e Alexandre Andrade de Melo, também financista, que fez mestrado em Financial Economics, lembraram da disputa por convites de colegas para almoçar ou jantar no Merton College -- graças a um ex-aluno, que doou para a universidade uma verba especificamente para contratar um chef francês para preparar as refeições.

Mais jovem, a doutoranda Roberta Gregório falou de Harry Potter -- o salão principal da escola do bruxo, Hogwarts, teve como locação uma das faculdades de Oxford, Christ Church. "A tradição lá é muito presente. É uma coisa que, embora existam excelentes faculdades no Brasil, não temos aqui."

O estudante Leonardo Bodo, de 17 anos, elogiou a apresentação. "Fiquei interessado, ainda não para graduação, mas, para uma pós-graduação, com certeza." Bodo pretende fazer Faculdade de Química. Pensou em se mudar para os Estados Unidos, mas preferiu permanecer no Brasil.

Viviane Freitas, de 18 anos, que embarca na próxima semana para cursar Economia na Universidade da Pensilvânia, já morou em Oxford por pouco mais de um mês e diz que se apaixonou pelo lugar. "Eu já considerava fazer um intercâmbio pela faculdade em Oxford, mas agora estou pensando em uma pós-graduação também, algo que permita explorar outras matérias e não só o que vou fazer nos próximos anos."

O momento é único para sonhar com Oxford. A universidade está negociando com o CNPq o financiamento de 13 bolsas de estudo para brasileiros como parte do programa Ciência Sem Fronteiras, 3 para cursos de graduação e os demais para pós. Ao contrário de outras parcerias do programa, cujas bolsas se limitam a 6 ou 12 meses, a expectativa é de que os bolsistas façam o curso integralmente na Inglaterra. "Queremos explorar novas áreas de colaboração e encorajar os estudantes brasileiros a estudar em Oxford", afirmou o vice-reitor, Andrew Hamilton, que deu uma palestra no evento na Fiesp. Ele mesmo admitiu que a quantidade de bolsas ainda não é suficiente e disse esperar que esse número possa aumentar em breve.

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