Antonio Scarpinetti
Antonio Scarpinetti

Tese resgata a história de cursinhos alternativos

Geógrafo da Unicamp defende investimento na expansão dos sistemas públicos de ensino

Isabel Gardenal, do Jornal da Unicamp,

07 Maio 2012 | 16h43

O que falta para democratizar o acesso ao ensino superior no País é acelerar o ritmo de expansão dos sistemas públicos e a execução de políticas públicas para corrigir desigualdades, pensar políticas para pôr fim ao exame vestibular e refletir alternativas de acesso para atender à diversidade. Foi o que apurou o geógrafo Cloves Alexandre de Castro em sua tese de doutorado, defendida no Instituto de Geociências (IG), que refletiu os últimos 25 anos dos cursinhos alternativos e populares do Brasil. O trabalho teve orientação da professora Regina Célia Bega dos Santos.

 

O geógrafo resgata na tese a organização dos cursinhos populares (MSU, Rede Emancipa, Educafro e Uneafro) e alternativos (cursinhos de universidades e prefeituras) como movimentos socioespaciais urbanos.

 

Esse conceito é resultado de um intenso debate na Geografia brasileira sobre os movimentos sociais há 30 anos, com implicações naqueles que não lutam pelo espaço em si e sim pelos usos dos serviços e infraestrutura. Nesse sentido, os cursinhos são movimentos sociais, espaços e canais em torno de uma demanda pelo acesso ao ensino superior.

 

Essa demanda cresceu a priori entre 1990 e 2000. E o movimento por acesso ao ensino tende a ampliar mais, verifica ele. Os alternativos e populares se constituíram com a reelaboração de experiências educacionais e práticas dos movimentos populares. É raro, hoje, ter um câmpus de universidade pública sem o seu próprio cursinho.

 

A primeira versão do Cursinho da Poli-USP é de 1948. Mas não se tratava, aponta Cloves, de um cursinho de "excluídos". Também não se tratava de um cursinho de mercado, até porque estava situado dentro do espaço público. Foi nesse momento, diz, que se criou o tronco dos cursinhos alternativos e populares.

 

O doutorando diferencia o cursinho popular do alternativo. O alternativo, informa, pode se tornar um cursinho de mercado. Normalmente o alternativo, que opera nas universidades e prefeituras, é um movimento que enfrenta limites, embora execute suas pautas e estratégias junto aos populares.

 

Os populares em geral estão em escolas públicas e em salões de igrejas. Com a diferença espacial que há entre ambos, observa-se também a diferença de concepção. Enquanto o cursinho de elite é só a continuidade de um processo que o educando seguiu em sua história escolar, o popular e o alternativo buscam uma inversão, por não haver vagas para todos.

 

O comprometimento dos alunos pode ser visto como superação das desigualdades na educação brasileira, dimensiona o geógrafo, que estudou a fundo os movimentos MSU, Educafro, Uneafro, Cursinhos da Unesp, Fórum de Cursinhos de Ribeirão e região, e Rede Emancipa. Resgatou algumas histórias, a construção de suas pautas, os interlocutores, suas agendas e ações, e os seus espaços.

 

Notou que as práticas espaciais dos movimentos são muito interessantes. É como e quando eles se mostram para a sociedade. Isso ocorreu em manifestações públicas por uma universidade pública no lugar onde funcionou o Carandiru ou em lugares históricos com usos associados ao castigo de negros lutando por liberdade. Foram criados outros espaços para discutir a memória da cidade e a instalação de equipamentos públicos.

 

Nos momentos de expansão do ensino médio, a pressão sobre as universidades por mais vagas foi respondida com aumento do caráter meritocrático do acesso, por meio da instituição do exame vestibular e da facilitação da abertura de instituições privadas. Desse descompasso surgiram demandas por uma formação alternativa fora do privado.

 

Também por conta dela surgiu a disposição de construir outra prática de educação, para incluir as camadas mais pobres. O engajamento encontrou uma forte demanda dos jovens de baixa renda, que passaram a ver nos cursinhos populares chances de aprovação nos vestibulares.

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