Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Temíamos pela perenidade da Escola da Vila, conta diretora

Sócia-fundadora, Sônia Barreira afirma que projeto pedagógico será mantido e que continuará na instituição

Bia Reis e Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

03 Abril 2017 | 00h00

SÃO PAULO - Uma das mais tradicionais escolas de São Paulo e referência em educação humanista, a Escola da Vila entrou em uma nova fase no início deste ano. Com ociosidade que bate os 50%, enfrentando forte concorrência de grupos educacionais e no meio de um processo de aposentadoria de três sócias, as proprietárias decidiram vender 80% do colégio. O negócio foi fechado, afirma a direção, para poder dar sequência ao projeto pedagógico da escola. O anúncio pegou os pais de surpresa e causou desconforto - muitos temem mudanças de rumo.

A escola foi vendida em fevereiro para a Bahema - holding de participações em empresas - por R$ 34,48 milhões. “Começamos a temer pelo futuro, pela sustentabilidade e perenidade da escola”, contou ao Estado Sônia Barreira, sócia-fundadora e diretora da escola, que continua na instituição. A venda, explica, começou a ser discutida quando as taxas de inadimplência e pedidos de bolsa aumentaram. E a pressão subiu com o crescimento de colégios concorrentes, com maior poder financeiro. 

“A crise sempre bate nas escolas um pouco mais tarde do que nos demais setores. Especialmente porque o pai dos nossos alunos deixa de ir ao dentista, por exemplo, para pagar a educação do filho”, afirma Sônia. 

A escola tem unidades no Butantã (zona oeste), no Morumbi (zona sul), e na Granja Viana, em Cotia, na Grande São Paulo. Os locais são de forte competição na educação básica privada. 

“A Escola da Vila é lucrativa e tem situação financeira saudável, mas enfrentamos concorrência de escolas que têm subsídio fiscal ou recebem dinheiro de outros países”, diz ela. Outro fator que motivou a venda foram os planos das sócias de se aposentarem. 

A escola se abriu para ofertas do mercado há cerca de dois anos. Dois grupos ingleses fizeram propostas, mas elas não foram aceitas porque as sócias sentiram que haveria mudança no projeto pedagógico. Em julho de 2016, a escola foi procurada pelos investidores da Bahema.

Segundo Sônia, o que atraiu as sócias foi o histórico do grupo - de investimentos a longo prazo, segundo ela - e o interesse em investir na área de educação, apesar de a holding não ser do setor. “Demos graças a Deus de que eles não eram da educação, porque aí sim iam querer mudar o projeto. Temos exemplos de escolas que foram compradas por grandes grupos educacionais, com proposta, material pedagógico prontos, e é claro que elas mudaram.”

Sônia admite que a escola falhou em comunicar sobre a venda - feita duas semanas após o início do ano letivo. Os pais se sentiram traídos por não terem sido informados das negociações na matrícula e por terem sabido da venda pela imprensa, afirma a diretora.

“Os pais souberam pelos jornais e isso magoa, machuca, cria insegurança e levanta suspeitas.” Ela reconhece que a direção deveria ter enviado comunicado aos pais no dia da venda foi concretizada, em vez de só mandá-lo no dia seguinte, como foi feito.

Algumas famílias colocaram em dúvida os interesses da Bahema em manter o projeto pedagógico pelo fato de um dos diretores ter participado da organização do 3.º Fórum Liberdade e Democracia, que teve entre os palestrantes o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) e o vereador Fernando Holiday (DEM). Sônia nega veementemente e diz que o diretor não tem essa linha de pensamento.

Procurada, a Bahema afirmou que “não defende nenhuma linha política ou ideológica e não tem ligação com qualquer instituição política, movimento ou partido”.

Histórico. Esse é o terceiro ciclo de mudanças da Escola da Vila e, em todas, houve resistência e protesto das famílias, lembra Sonia. “O perfil de pais da nossa escola é o que valoriza a educação e a participação.”

O primeiro impasse ocorreu logo no início, quando só havia turmas de educação infantil. Na época, alguns pais pressionaram para que houvesse os anos iniciais do ensino fundamental. Para isso, a escola deixou a Vila Madalena e foi o Butantã, o que dividiu os pais. A segunda crise foi em 1995, quando a direção sentiu que precisava crescer para enfrentar a concorrência e criou a unidade do Morumbi. Os pais do Butantã reagiram. “A solução para uma escola continuar forte é crescer, para que possa ter mais poder de investimento.”

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