Carmem Terezinha Pereira
Carmem Terezinha Pereira

Surdo nota mil expõe dificuldade no Enem

Um dos 77 com nota máxima em Redação em 2016, ele relata problemas de estrutura este ano, mas se sente representado na escolha do tema

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

07 Novembro 2017 | 03h00

Quando leu o tema da Redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no domingo, Bernardo Manfredi, de 20 anos, imaginou que a única dificuldade seria escrever apenas 30 linhas. Diagnosticado com surdez severa, sempre estudou em escolas regulares, sofreu bullying e teve até matrícula rejeitada, mas também ganhou bolsa de estudos pelo bom desempenho. Apesar da proximidade com o tema, o candidato, que também sofre com disgrafia profunda (dificuldade na escrita) e transtorno psicomotor em mãos e braços, só recebeu o auxílio de um transcritor nos 30 minutos finais da prova. 

A Redação deste ano teve como tema os desafios para a formação de surdos no Brasil. A proposta, que segue a tendência da prova de fazer discussões sociais, surpreendeu os participantes e foi considerada desafiadora por especialistas. Foi a terceira vez que Manfredi prestou o Enem. No ano passado, ele foi um dos 77 candidatos que tirou nota máxima (mil) na Redação.

Este ano, como nos outros, solicitou na inscrição o apoio de um intérprete de leitura labial e um transcritor para preencher o cartão de resposta e escrever a redação. Logo que chegou à sala de prova, foi informado de que não teria o transcritor. “Disseram que eu não havia solicitado esse apoio, mas depois avisaram que o Ministério da Educação autorizou que chamassem alguém para me ajudar. O problema é que demorou muito.”

Enquanto o profissional não chegava, Manfredi resolveu as questões, preencheu o cartão de respostas e fez o rascunho da redação. “É claro que eu fiquei angustiado, temia que o transcritor não aparecesse. Então, sim, fui prejudicado porque poderia ter feito uma prova e uma redação melhores com mais calma.” Com pouco tempo para transcrever a redação para a folha de respostas, Manfredi disse que teve de cortar muito do que havia no rascunho. “Fiquei bem chateado, mas o importante é que passei a mensagem principal. Pela primeira vez senti que realmente existimos e podemos fazer diferença.”

Desafio. Com a pontuação no exame anterior, foi aprovado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e conseguiu bolsa de estudos integral na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio para Filosofia. 

Ele optou por fazer a graduação na PUC, mas precisou trancar por não conseguir assistência necessária para acompanhar as aulas. A universidade ofereceu um intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais), que o estudante não utiliza. “A instituição se esforçou para ajudá-lo, mas acho que falta informação para saber qual tipo de apoio oferecer em cada caso. O problema é que, sem a assistência adequada, ele foi se sentindo incapaz, chateado por não acompanhar as aulas”, contou a mãe do jovem, Carmem Terezinha Pereira, de 62 anos. 

No segundo semestre deste ano, Manfredi foi aprovado em História na UFRJ. Com sete disciplinas, cada uma de quatro horas semanais, ele também não teve o apoio de um intérprete. “Quando ele estava no colégio, em uma sala com no máximo 30 alunos, o professor falava olhando para ele, repetia quando necessário. Em uma sala de universidade, isso não acontece”, disse Carmem. 

Com dificuldades enfrentadas nas duas instituições, Manfredi decidiu que faria o Enem pela última vez na esperança de encontrar uma universidade que oferecesse melhor apoio a alunos com deficiência auditiva. “A falta de recursos me impediu de estudar. Não tive condições de seguir o curso que queria. Ainda assim, não desisto.”

Procurada, a PUC-Rio disse ter o Núcleo de Apoio e Inclusão da Pessoa com Deficiência, que dá aos alunos suporte para acompanhar as rotinas acadêmicas. A UFRJ não comentou. O Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do ministério responsável pela prova, disse não ter tido resposta do consórcio que fornece os profissionais de apoio. 

Dados. Para especialistas, o desafio da inclusão de deficientes é grande em todos os níveis educacionais, mas ainda maior no ensino superior. “Falta informação sobre o assunto, a profissão do intérprete é pouco valorizada e difundida. Algumas instituições têm dificuldade de encontrar esse profissional e há até aquelas que dizem para o deficiente pagar pelo intérprete. A acessibilidade é um direito”, disse Carla Regina Tesser, pedagoga do Instituto Singularidades.

Levantamento feito em abril e publicado pelo Estado mostra que a participação de alunos com deficiência cai a cada etapa da educação. Nos anos iniciais do fundamental (1.º ao 5.º ano), 3% têm alguma deficiência – física e/ou intelectual. Nos finais, 2%. Já no ensino médio, a taxa cai para 0,9%. No ensino superior, que não é obrigatório, há ainda menos alunos com deficiência: só 0,5% do total.

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‘Medida padronizada a pessoas com deficiência não faz sentido’

Para Aline Santos, coordenadora do projeto Diversa, inclusão depende, em primeiro lugar, de atitude

Entrevista com

Aline Santos

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2017 | 03h00

A grande repercussão e o susto de muitos candidatos com o tema da Redação do Enem mostram como a inclusão de surdos na educação brasileira é pouca debatida, segundo Aline Santos, coordenadora do projeto Diversa, do Instituto Rodrigo Mendes, dedicado a promover ações de acessibilidade e inclusão. 

O desconhecimento de instituições de ensino faz com que sejam ofertadas poucas formas de apoio a alunos com deficiência auditiva?

Temos de ter em mente que há uma diversidade dentro do público com deficiência auditiva e, naturalmente, cada um precisa de recursos diferentes. É como a pessoa com deficiência física: nem todas usam cadeiras de rodas. Cada um tem uma necessidade específica. Nem todos os surdos usam Libras (Língua Brasileira de Sinais). Alguns usam a leitura labial e outros, implantes auditivos. Pensar em medidas padronizadas não faz sentido. Só com o convívio é que vamos entender qual tipo de apoio cada um precisa e quais cuidados precisamos ter. Para quem faz leitura labial, por exemplo, o professor não pode falar virado para a lousa e os alunos não devem ficar enfileirados de costas uns para os outros. Quando pensamos na diversidade de estratégias para uma educação inclusiva, mais alunos são beneficiados e não só os deficientes. O modelo de aula expositiva, com o professor falando sozinho por 50 minutos, deixa de fora muita gente. Um único estímulo exclui não só surdos ou cegos, mas vários outros alunos. 

Como as instituições devem preparar-se para oferecer uma educação mais inclusiva?

A principal barreira é de atitude. Só com a mudança de atitude é que vamos conseguir enxergar as particularidades das pessoas. Por falta da convivência com pessoas deficientes na sociedade, há invisibilidade desse público. Isso suscita a ideia de que não sabemos conviver com eles e precisamos da ajuda de especialistas para essa interação. Esquecemos que é a convivência que ensina, como com qualquer pessoa que conhecemos. 

No ensino superior, a inclusão é ainda mais difícil? Por quê?

O índice de pessoas com deficiência na educação básica é muito maior do que no ensino superior porque vamos aos poucos as desestimulando e excluindo. Isso faz com que as faculdades tenham de lidar pouco com essas situações. Nós precisamos de mais formação para os professores e de mais acessibilidade, não só de estrutura arquitetônica, mas de material didático, recursos diferentes para o ensino.

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