Só para seus olhos

Carreira do delegado de Polícia Federal envolve aventuras na selva, treinamento com armas de fogo e muita burocracia

Cedê Silva, Especial para o Estadão.edu,

26 Março 2012 | 20h59

Da janela de um monomotor sobrevoando o litoral da Bahia, o delegado da PF Amaury Portugal podia ver num pasto os destroços de outro avião. Raiava o começo da manhã, e sua missão era chegar a um porto a tempo de impedir que traficantes zarpassem com um navio carregado de minério. Amaury viajava com a ajuda de um piloto civil, sem plano de voo, radar ou aparelhos de bordo - muito menos paraquedas.

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Na madrugada de 8 de julho de 2008, policiais federais em quatro capitais brasileiras abriram envelopes contendo mandados de prisão, decisões judiciais, fotos dos alvos, mapas, pontos de referência, potenciais perigos e até os hospitais mais próximos. Entre os 24 presos na Operação Satiagraha estavam o banqueiro Daniel Dantas, o investidor Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta. Quem redigiu o conteúdo dos envelopes foi o chefe da operação, Protógenes Queiroz.

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Entre Guaíra e Foz do Iguaçu (PR), o professor do cursinho LFG Marcelo Borsio, também delegado da PF, fez em um ônibus com equipamentos de circo a primeira metade da maior apreensão de maconha na história da região. As outras 3 toneladas estavam debaixo de uma lona preta no meio da mata. De roupa camuflada e botas, a equipe se embrenhou mata adentro, levando a droga para a delegacia em carrinhos de pedreiro.

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Ainda neste semestre, a PF deve lançar o edital do próximo concurso para delegado, com 150 vagas (inscrições para agente federal e papiloscopista estão abertas até 3 de abril). Se tem a estabilidade e o bom salário inicial do serviço público, está longe de ser uma carreira sem adrenalina.

Uma das exigências é ser bacharel em Direito, mas há quem ache pouco. Marcos Leôncio Ribeiro, diretor de Comunicação da Associação Nacional dos Delegados da PF (ADPF), diz esperar que o edital inclua prova de títulos, exame oral e uma maior cobrança de conhecimentos jurídicos. “É um pedido da categoria ao governo. Isso nos aproximaria de carreiras como as de defensor, promotor, juiz.”

O professor Borsio, aprovado no último concurso para delegado da PF, em 2004, recomenda muito preparo físico. Na prova masculina daquele ano, a pontuação máxima em corrida exigia 2,6 km em 12 minutos. Outra dica de Borsio é estudar a jurisprudência do STJ e do STF, especialmente as decisões recentes.

Quem passa no concurso ingressa na Academia Nacional de Polícia, em Brasília, para um curso de formação de quatro meses. É raro um aluno ser reprovado nessa fase, mas, ao contrário do que ocorre com diplomatas, o ingresso na carreira só se dá depois do fim do curso. Lá ele vai aprender a manusear diferentes tipos de armas, como o fuzil M16, mas sairá proficiente mesmo no uso da pistola Glock 9mm. Além de aulas de defesa pessoal e educação física, o futuro delegado aprende a usar outras ferramentas de trabalho, como instaurar inquéritos, indiciar pessoas e pedir a juízes informações protegidas por sigilo, prisão domiciliar ou recolhimento de passaporte.

“Tem que ter muito equilíbrio emocional e ler muito Sun Tzu (autor do livro ‘A Arte da Guerra’)”, conta o hoje deputado Protógenes (PCdoB-SP). “Quem trilha a carreira da inteligência, do segredo, pode derrubar um ministro, um presidente do Congresso, pode criar um caos muito grande.”

A carreira tem quatro degraus (veja infográfico acima). O consenso é que os próximos calouros irão para postos de fronteira, enquanto os mais experientes disputam as cidades grandes - exceto São Paulo, onde a carga de trabalho é imensa, e Brasília, uma cidade cara onde só os poucos cargos muito altos são interessantes.

Mesmo após a aposentadoria, o espírito de aventura da carreira permanece. Amaury Portugal hoje preside o Sindicato dos Delegados da PF de São Paulo. O toque de seu celular é a música-tema de James Bond.

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