Seleção pelo Enem faz crescer o número de vagas ociosas nas federais

Alunos se matriculam, frequentam as aulas, mas desistem depois de alguns meses de curso

Davi Lira, Ocimara Balmant e Pedro Proença, Especial para O Estado de S. Paulo,

03 Novembro 2012 | 22h32

Para os coordenadores dos cursos de Medicina de universidades federais, a questão mais problemática não é a “invasão de estrangeiros”, mas as vagas ociosas geradas por eles. “Nossa evasão era praticamente zero, mas neste ano tivemos 11 vagas ociosas. Os alunos se matricularam, frequentaram as aulas, mas desistiram fora do prazo, deixando a vaga ociosa”, diz Iasmin Duarte, da Federal de Alagoas (Ufal).

No Ceará, a situação se repete. “Há alunos que são chamados por outras universidades e desistem após pouco tempo”, diz Yacy Mendonça de Almeida, coordenadora do curso da Federal do Estado, a UFC. “E ainda tem aqueles que, depois de meses, conseguem transferência para outras universidades.”

É esse o plano de Lucas Aquino, da Ufal, que descarta a possibilidade de exercer a medicina em Alagoas. “Vou tentar transferência para Santa Catarina ou Porto Alegre assim que terminar o segundo semestre”, diz, sem titubear.

A paulista Taená Roma, que se mudou para São Luís, no Maranhão, também não pretende ficar por lá. Na sala em que estuda, 70% dos alunos são de fora, e embora considere a possibilidade de mudar de ideia, acha que o destino é certo. “Quero voltar para São Paulo assim que me formar. Lá tem mais tradição.”

Além do espaço ocioso em sala de aula, a decisão de Lucas e Taená também contribuiu para que siga a situação atual, de carência de médicos nessas regiões. Hoje, de acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), 72% dos médicos atuam nas Regiões Sul e Sudeste.

Para o Ministério da Educação (MEC), a forma mais eficaz de mudar esse cenário é investir na criação de residências médicas. “A mobilidade em medicina sempre existiu, mas sabemos, por pesquisas internacionais e nacionais, que o médico tende a se fixar na cidade onde realizou a sua residência”, afirma Amaro Lins, secretário de Educação Superior do MEC.

A pasta anunciou, neste ano, a criação de 4,5 mil programas de residência, a maior parte nas capitais e no interior dos Estados do Norte e Nordeste. “Os hospitais universitários estão sendo reestruturados, estamos contratando pessoal e estamos certos de que conseguiremos fixar o médico nos locais mais necessitados”, completa Lins.

O CFM discorda dessa lógica. A única forma de atrair os médicos para essas áreas do País, afirma Desiré Callegari, primeiro secretário da entidade, é a criação de uma política de carreira específica. “Se houver incentivo financeiro e um comprometimento por lei daqueles que se prontificarem a atuar nas áreas de difícil provimento, isso vai melhorar. Não existe fórmula mágica.”

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