Werther Santana/AE
Werther Santana/AE

Seleção gamificada

Acompanhamos simulação de processo seletivo que usa games para testar jovens

Cristiane Nascimento, especial para o Estadão.edu,

19 Agosto 2012 | 12h29

Como atravessar os mais de 2.300 quilômetros que separam Rio Verde, em Goiás, do Parque Nacional da Guiana Francesa, limite do Brasil ao norte? Qual é o melhor trajeto? O que passa por Novo Progresso, no Pará, ou por Manaus? Essas foram algumas das perguntas feitas por um grupo diante de um Brasil em miniatura, de menos de 4 metros quadrados.

No dia 1.º, 13 jovens se reuniram em Moema, zona sul de São Paulo, em busca de respostas a desafios como este acima. O objetivo foi simular um processo seletivo de trainees e estagiários com uso de jogo corporativo – recurso empregado por um número crescente de empresas não só para selecionar, mas para treinar funcionários.

Organizado para o Estadão.edu pela consultoria de Recursos Humanos MBA Empresarial, a simulação usou o jogo de tabuleiro Expresso Brasil, desenvolvido pela empresa Darwin Jogos, para analisar competências comportamentais de participantes de quatro times, como criatividade, espírito de equipe e senso de liderança. “É possível descobrir mais a respeito de uma pessoa em uma hora de jogo do que em um ano de conversa”, diz Satiko Monobe, diretora da MBA.

“Em meio à adrenalina do jogo, deixamos aflorar emoções e atitudes que talvez tentássemos evitar em um processo seletivo convencional”, diz Breno Fortuna, de 19 anos, aluno de Administração da FGV. Confrontados com algo para o qual não foram tecnicamente treinados, os candidatos deixaram transparecer pontos fortes e fracos. Ao longo de quase três horas de dinâmica, teve gente que mal conseguiu falar, enquanto outros insistiram em suas ideias mesmo quando a equipe argumentava na direção contrária. O clima lembrou, às vezes, o de reality shows. “Acabei deixando a ansiedade falar mais alto”, admitiu Thais Sayuri, de 18, aluna de Gestão de RH do Senac, que num determinado momento se irritou com seu grupo, bateu o pé e decidiu sair da roda até se acalmar.

“Mesmo trabalhando na área, nunca havia participado de uma dinâmica como esta”, diz Bianca Guido, de 26, analista de RH da MBA que acabou entrando na simulação. “Como psicóloga, é curioso perceber o quanto as características pessoais ficam explícitas.”

Apesar de a aplicação dos jogos empresariais não se limitar aos jovens, são eles que mais se adaptam às dinâmicas, afirma Yuri Fang, engenheiro de jogos da Darwin. A recepção positiva, no entanto, não se dá apenas pela familiaridade com o universo dos games. “Tanto no caso de trainees quanto de estagiários, estamos falando de jovens talentos cada vez mais ávidos por grandes desafios.”

Como qualquer jogo, o Expresso Brasil teve uma equipe vencedora. Seriam seus integrantes os selecionados caso a dinâmica fosse para valer? Difícil dizer. Isso depende da leitura feita pelos recrutadores e, principalmente, das competências valorizadas pela empresa.

 

Online. O tabuleiro é só uma das opções de jogos corporativos. Games de negócios online, por exemplo, permitem recriar o ambiente de uma organização, com concorrentes, mercado e métricas próprias. “As simulações colocam as pessoas em uma dimensão muito próxima à realidade”, afirma Antonio Dirceu de Miranda, diretor da BRAcademy, empresas especializada em jogos para empresas e escolas de negócios.

A Compass Consult, consultoria de RH que também é responsável pela criação de jogos empresariais, recorre até a um ambiente com fotos e projeções do Monte Everest, no qual executivos se dividem em equipes para a escalada da montanha.

Eles têm de tomar decisões como resolver se seguem em frente para ultrapassar o grupo adversário ou se permanecem onde estão para garantir segurança à equipe. “Entretenimento à parte, mostramos a eles como a atuação no jogo pode estar vinculada ao comportamento no ambiente profissional”, diz Wilson Roberto Lourenço, sócio da consultoria.

 

Ferrovias

No tabuleiro, o mapa do Brasil é recortado por uma malha ferroviária que tem exatas 36 estações. As linhas, de extensões diferentes, são identificadas por cores. Os participantes devem se organizar para cumprir desafios que lembram operações de logística

Componentes do jogo

Cada time controla um conjunto de vagões. Na mesa, há um monte de cartas coloridas, que reproduzem trechos do mapa. Só cinco delas ficam abertas – a maioria permanece virada para baixo. Há ainda cartas curingas, que têm o desenho de uma locomotiva

Dinâmica

O primeiro objetivo das equipes é preencher trechos do mapa com trens de sua companhia. Para isso, elas têm de acumular cartas da mesma cor da linha que desejam ocupar, em  número igual à distância entre um ponto e outro

Desafios

A equipe recebe três 'cartas de destino’, cada uma com duas estações a serem ligadas. A pontuação indicada depende do grau de dificuldade da conexão. O grupo decide se persegue todos as metas, mas pode descartar até duas delas e ficar só com uma carta

Ações

A cada rodada, as equipes podem comprar cartas da mesa, fechadas ou abertas; realizar uma conexão entre duas cidades caso tenham cartas em número e cor correspondentes aos trechos; adotar mais um desafio ou negociar cartas com os demais times

Pontuação

As equipes ganham pontos quando conectam duas cidades, completam o desafio que lhes foi proposto ou criam a maior malha ferroviária contínua ao final do jogo. Quando um destino não é alcançado, o valor atribuído na carta é subtraído da pontuação

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