Segurança preocupa associações atléticas universitárias

Tragédia em Santa Maria deixa estudantes apreensivos com a estrutura de casas noturas

Cristiane Nascimento, Especial para o Estadão.edu,

29 Janeiro 2013 | 06h48

A tragédia na boate Kiss, em Santa Maria (RS), acendeu um sinal amarelo entre as associações atléticas - organizações estudantis que, entre outras atividades, promovem festas universitárias. Alunos ouvidos pela reportagem afirmam que o episódio despertou uma nova preocupação: a de ter mais cuidado com segurança. "A notícia nos fez repensar e remodelar nosso conceito de diversão", diz Luís Sun, de 18 anos, aluno de Publicidade e Propaganda e presidente da Atlética da ESPM.

"A atenção que já era grande será redobrada", acrescenta Gabriel Issa, de 22, dirigente da Atlética 22 de Agosto, do curso de Direito da PUC-SP. Segundo ele, será “natural” uma cobrança dos alunos nesse sentido, da mesma forma que as agências de produção e os próprios proprietários de casas de eventos deverão estar mais atentos às exigências de segurança previstas na lei.

O estudante, que já chegou a organizar festas para até 5 mil pessoas, afirma que, para a realização de eventos, contratantes e contratados têm de se comprometer com uma série de responsabilidades. "Quando fechamos com um estabelecimento, assinamos um contrato e somos obrigados a cumprir uma série de exigências para garantir a segurança da realização da festa", diz Gabriel. Entre elas, a contratação de seguranças, brigadistas, médicos e ambulâncias.

Para Luna Delazari, de 20, presidente da Atlética de Arquitetura do Mackenzie, é fundamental que as empresas de segurança e brigadistas contratadas façam uma vistoria na casa antes da festa. "São eles que realmente podem dizer se o local está preparado para receber o evento ou não."

Apesar de garantir que o procedimento é adotado nas festas que organiza, Luna confessa que normalmente não se atenta às medidas de segurança das baladas que frequenta. "Sei onde é a porta de entrada e costumo sair por ela", diz. "Daqui para frente, essa preocupação será de todos." A estudante acredita que orientações como as que são dadas em cinemas e grandes casas de shows poderiam ser adotadas pelas casas noturnas, uma vez que, na sua opinião, dificilmente as saídas de emergências são bem sinalizadas.

Ao contrário de Luna, Stefano Livani, de 22, presidente da Atlética da Faculdade de Economia e Administração da PUC-SP, diz estar atento a detalhes como saídas de emergência e sinalizações quando sai pela noite paulistana. "Ter experiência com eventos me possibilita esse olhar mais atento, mas sei que, em geral, isso não é algo observado”, diz. Livani, no entanto, também acredita que isso tende a mudar. "As pessoas certamente ficarão mais ligadas na sinalização e não mais só preocupadas em curtir", diz.

"Somos jovens e, como jovens, nunca pensamos que coisas desse tipo podem acontecer com a gente", diz Daniel Galrão, de 22, ex-presidente da Atlética da FEA-USP. "É triste pensar que foi preciso que algo trágico acontecesse para que a galera se tocasse dos riscos que corremos quando entramos em um lugar inseguro", afirma.

O outro lado

A casa de shows A Seringueira é um local bastante procurado por estudantes das faculdades paulistanas para a realização de festas. O proprietário Rodrigo Zanardi afirma que a rigidez da fiscalização anual realizada pela Prefeitura impossibilitaria o funcionamento da casa se ela não atendesse todas as normas previstas por lei. "Um alvará nunca é definitivo e, justamente por isso, a cada ano, temos nossa casa completamente vistoriada", diz. A largura de portas e escadas, a localização de hidrantes e extintores e o funcionamento das saídas de emergência são alguns dos aspectos observados a cada avaliação.

Segundo Zanardi, a casa sempre exige a contratação de profissionais terceirizados para além dos que já atuam no estabelecimento. São seguranças, brigadistas e médicos que têm de garantir a segurança dos convidados. "Sem eles, a festa simplesmente não acontece."

De acordo com o empresário, um ponto que normalmente é alvo de discussão em meio aos contratos refere-se ao número máximo de pessoas permitido pela casa. No caso da Seringueira, são 3 mil convidados. "Vira e mexe tentam negociar isso conosco, mas somos sempre contundentes: não tem como", afirma.

Francisco Mafra, responsável pelo hotel Cambridge, diz que a insistência dos jovens em convidar mais pessoas do que o permitido foi o principal motivo para que a casa, que oferece dois ambientes para eventos, passasse a negar receber festas universitárias. "Combinamos uma coisa e no dia da festa chegam com o triplo de convidados", diz. "Ter de ficar barrando todos eles é muito desgastante."

Os presidentes das atléticas ouvidos pela reportagem, no entanto, negam que organizem festas para além do número permitidos pelas casa que contratam.

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