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Tiago Queiroz

Rotina fora da escola, desigualdade vira aula

Até o fim do ano, 5 mil educadores do Estado de São Paulo terão preparação específica sobre diversidade de gênero

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Luiz Fernando Toledo e Isabela Palhares,
O Estado de S. Paulo

06 Março 2016 | 03h00

Em uma sala de aula da Escola Estadual Miguel Munhoz Filho, no Capão Redondo, periferia da zona sul de São Paulo, uma pergunta rompe o silêncio do primeiro dia de aula. “Que mulher aqui já sofreu violência ou conhece alguém que tenha sofrido?”, indaga a professora de Ciências Valdeti da Silva à turma do 9.º ano do ensino fundamental. A resposta é quase unânime e praticamente todos levantam as mãos. Nos minutos que se seguem, explicações sobre feminismo, direito ao corpo e desigualdade de gênero dominam a aula. Os temas, que se tornaram discussão nacional por causa da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2015, agora devem fazer parte do currículo obrigatório da rede estadual paulista.

Além disso, professores também receberão preparação específica, com um curso sobre diversidade de gênero. Até agora, 3 mil educadores já passaram pelo processo e a meta é chegar a 5 mil até o fim do ano. A Secretaria Estadual de Educação vai introduzir palestras, rodas de debate e trabalhos nas aulas de Sociologia e Filosofia do ensino médio, aproveitando experiências já existentes em outras escolas. Em alguns colégios, o debate já existe, mas a ideia é criar uma padronização.

A inclusão da discussão sobre identidade de gênero já causou polêmica durante a aprovação dos planos de educação municipal de São Paulo, em 2015, e no nacional, aprovado em 2014. O plano estadual ainda está em discussão na Assembleia Legislativa do Estado. 

A Secretaria Estadual de Educação deverá introduzir palestras, rodas de debate e trabalhos nas aulas de Sociologia e Filosofia do Ensino Médio, aproveitando experiências já existentes em outras escolas. Em alguns colégios o debate já existe, mas a ideia é criar uma padronização.

Na Miguel Munhoz Filho, por exemplo, o ensino fundamental já trata do assunto há alguns anos. “Aproveitei minha formação como psicóloga para trazer esse tema aos alunos”, conta Valdeti. As aulas são separadas do conteúdo de sua disciplina e não valem nota, mas ela garante que há adesão. Nos encontros, discute-se quem é Maria da Penha - mulher que sofreu duas tentativas de homicídio pelo marido e inspirou a lei de mesmo nome  - e os tipos de violência (física, psicológica, moral). Em outro momento, alunos são encorajados a trazer relatos pessoais. 

A estudante Grace Souza Silva, de 12 anos, foi uma das primeiras a contar sua história aos colegas. Teve a tia esfaqueada  e morta pelo marido após uma briga. Ela só ficou sabendo do episódio trágico dias depois, quando os pais contaram. "Aprendemos que é melhor denunciar do que continuar sofrendo e acabar assim", diz a estudante.  Relatos anônimos também são incentivados. “Acredito que isso vai repercutir e encorajar os pais deles, colegas e amigos a não se calar diante da violência. Vai encorajá-los a procurar seus direitos”, disse a professora. 

Na Escola Estadual Plínio Damasco Penna, na Vila Bancária, zona norte da capital, estudantes montaram um “clube” de feminismo com apoio dos professores. “A ideia é conscientizar as pessoas e mostrar que o assunto é sério”, disse a estudante Talita Pogmassolo, de 16 anos, que está no 2º ano do ensino médio.  Entre as atividades estão peças de teatro, leitura de livros do tema e debates com os alunos. 

O espaço é aberto para estudantes do ensino fundamental e médio. Até meninos podem entrar. “No ano passado era só meninas, mas expandimos. Eles não sabem muito bem o que é feminismo, não sabem o que é ser mulher, mas defendem a nossa causa. Acho que é algo importante”, explica. Além disso, conta ela, o colégio oferece uma disciplina optativa que neste ano trata da violência contra a mulher e sexualidade, valendo nota para todas as disciplinas. 

Caixinha. Na escola Carolina Cintra, também no Capão Redondo, na aula de biologia os alunos podem fazer perguntas de forma anônima em uma caixinha. No início, as perguntas eram sobre namoro e formas de prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis, mas, no último ano, a caixinha passou a receber perguntas em que os estudantes relatavam situações de violência contra a mulher. "Toda aula pegamos uma dessas questões para fazer um debate e as muitas passaram a ser sobre violência. Ao debater em sala, vi que para muitos essas situações são cotidianas", disse Hosana dos Santos, professora de biologia. 

Para Hosana, o debate é importante para desconstruir preconceitos que os alunos possam ter e mostrar às meninas que situações de abuso e violência não são naturais. "É um trabalho de formiga, mas precisamos dar a esses jovens informação para que juntos montemos ações para combater a desigualdade de gênero", disse. 

Importância. Thiago Sabatine, da equipe técnica de Educação para a Diversidade Sexual e de Gênero da SEE, disse que discutir questões de gênero em sala de aula é importante porque elas trazem impactos diretos na avaliação educacional. "Quando olhamos o acesso à educação básica, a permanência e a proficiência escolar, nós vemos desigualdades fundamentais entre meninos e meninas. Elas, por exemplo, em geral têm rendimento superior ao dos meninos na escola, mesmo em disciplinas que seriam tradicionalmente consideradas masculinas. Mas ainda assim, as meninas não são direcionadas, mas não conseguem decorrer no ensino superior a essas áreas. Precisamos trabalhar para desconstruir essas fronteiras", disse Sabatine.

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