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Residência docente já é realidade em escolas de São Paulo e do Rio

Em algumas unidades, programas buscam aperfeiçoar a formação dos docentes com a prática; modelo nacional está em discussão

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Luiz Fernando Toledo,
O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2016 | 06h00

SÃO PAULO - Enquanto o Ministério da Educação (MEC) planeja seu programa nacional de residência docente, iniciativas pontuais - tanto na rede privada quanto na pública - buscam melhorar a formação dos professores no País. Assim como na residência médica, a ideia é aproximar o aluno recém-formado da experiência real da profissão. Há programas em que o docente ajuda em aulas de reforço, acompanha um outro professor na classe ou ainda planeja e executa sua própria aula sob supervisão.

No Colégio Porto Seguro, no Morumbi, zona sul da capital, um projeto-piloto criado no ano passado levou os professores recém-formados para a sala de aula. A partir do último ano de licenciatura já é possível se inscrever no processo seletivo. As vagas são para dar aula do 6º ano do ensino fundamental até o ensino médio, a depender da disponibilidade. "Estamos apostando no ganho a longo prazo. Contratar professores está muito difícil e o perfil que buscamos é exigente", explica o diretor pedagógico do Porto Seguro, Carlos Nascimento Junior.

Ao longo de um ano, os selecionados têm um curso de metodologia de ensino, que é baseado em um programa de formação docente alemão. Paralelamente à formação, os residentes acompanham as aulas de seus professores-tutores por um semestre. Já a partir do segundo semestre eles já podem ministrar as aulas, com assistência dos tutores. "O aluno-professor planeja a aula, quanto tempo vai durar as atividades, qual é a intenção desta aula e o que se pretende que os alunos aprendam", diz o coordenador. O curso se encerra com uma avaliação em uma aula dada pelo residente. Com base no resultado, que se soma ao desempenho em todo o ano, o colégio decide se ele será ou não contratado no ano seguinte.

No início do projeto, o colégio ofereceu somente três vagas e neste ano serão abertas mais três. A ideia, no entanto, é expandir o curso. "Queremos enxergar, para o futuro, a possibilidade de transformar este curso em um centro de formação." O curso, pago, seria oferecido ao público em geral.

Experiência.  A  residência foi uma saída para a professora de Matemática Caroline Rodrigues, que obteve recentemente a Licenciatura na área, entrar no mercado de trabalho. Antes, ela já havia estagiado em um colégio e em uma empresa que oferecia aula de Educação para Jovens e Adultos (EJA) aos funcionários.

Caroline assistiu a seminários sobre metodologia e didática e recebeu orientações sobre as tecnologias usadas no colégio e receber assistência de psicólogos. Além disso, assistiu às aulas do currículo brasileiro e do currículo alemão, que é oferecido pela unidade. Quando começou a dar aulas, recebia feedbacksa constantes. "Mostravam o que dava para melhorar, explicavam como resolver conflitos de sala", contou. Um dos principais aprendizados, afirma, foi a metodologia ativa - trazer os alunos para realizar atividades nas aulas em vez de só ouvir o professor.

"Eu já tive aulas teóricas disso, mas nunca tinha colocado em prática. Se eu falei 15 minutos de 45 de aula, acho que foi muito. O resultado é muito bom. Todos os alunos deveriam fazer um processo como este", contou. Recentemente a jovem foi contratada no colégio.

No Colégio Elvira Brandão, em Santo Amaro, na zona sul, a residência ocorre somente na educação infantil, etapa que sempre tem um professor titular e dois auxiliares em sala de aula. Neste caso, a maioria dos "residentes" vem do programa de estágio do colégio. A partir daí, os professores começam a trabalhar como professores assistentes.

"Eles têm um acompanhamento ao longo do ano para sabermos se estão em condição de assumir alguma turma", explica o diretor Renato Júdice.  Diferentemente de outros projetos, neste o professor não pode assumir a sala de aula - exceto para cobrir falta de algum colega -, mas ajuda os alunos, tira dúvidas e serve como um "braço direito" do professor titular. Não há um prazo específico para que os assistentes se tornem titulares. Ao longo da residência, a escola oferece cursos para aprimorar a didática. O colégio estuda expandir o projeto para ensino fundamental e médio.

Pioneiro. O colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, foi um dos primeiros a implementar um programa de residência docente, em 2012. O projeto funciona em parceria com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior  (Capes), ligada ao MEC, e oferece bolsas de R$ 400 e R$ 700 para docentes recém-formados e que já tenham iniciado a atuação na rede pública do Estado. A escolha dos residentes é feita por meio de edital. Eles passam um ano em uma das unidades da rede e podem trabalhar em todos os ciclos (da educação infantil ao 3º ano do ensino médio), acompanhando outros professores e dando aulas. O curso é reconhecido como uma especialização, com duração de 420 horas. No ano passado, 170 professores fizeram parte do programa.

Além da experiência na sala, os residentes do Pedro II têm encontros periódicos para discutir a melhor forma de abordar temas mais difíceis, discutir estratégias pedagógicas e participar de oficinas.  "Os professores recém-formados entram na sala de aula muito despraparados. O problema não é conteúdo, mas a falta de prática da sala de aula", diz a coordenadora do programa, Christine Sertã.

Entrevista: como deve ser a formação ideal?

A pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e educadora Bernardete Gatti, uma das principais referências do País em formação de professores, assumiu a coordenação de um grupo do MEC responsável por criar a residência docente. Ela defende um programa nacional remunerado, com apoio do governo federal aos estados e com o olhar para projetos que já deram certo em outros países. O tema deve ser a próxima pauta do MEC após a aprovação da Base Nacional Comum.

Como dve ser o programa ideal de formação dos professores?

Em geral, o que tem funcionado é um programa remunerado com o professor formado. Ele presta um serviço público de dois anos e. Neste período, faz-se um projeto para que ele conviva em diferentes salas de aula, com diferentes petodologias e possa aprender a utilizá-las com vários professores. A relação não deve ser com um só orientador, mas vários. Deve ser um trabalho coletivo. Em cada ciclo, um projeto diferente.

Quem seria o responsável pelo programa?

Poderia partir de um estímulo do MEC em parceria com as secretarias de educação e universidades selecionadas. Acho que se algumas instituições privadas se oferecessem, seria interessante, mas é importante que haja residência nas escolas públicas, já que 80% das crianças que estudam estão lá.

Como deve ser a seleção dos residentes?

Por meio de um vestibular ou apresentação de portfolio. Deve ser um programa para quem está saindo agora. Para quem está em exercício, já existem os processos de formação continuada.

O que falta na formação dos professores?

O professor, hoje, está saindo com uma formação mais genérica e desarmado para o trabalho pedagógico. O grane desafio é que ele aprenda a lidar com os alunos. Motive, utilize os recursos disponíveis, promova a dinamização da sala de aula. Quem age assim, aprendeu na prática.

 

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