Jessica Rinaldi / REUTERS
Jessica Rinaldi / REUTERS

Reforma pode ser ‘desafio extra’ na preparação para faculdades estrangeiras, dizem especialistas

Para educadores, falta de oficinas extracurriculares no ensino médio prejudicaria quem se interessa por graduação nos EUA

Tulio Kruse, Especial para o Estado

08 Agosto 2017 | 18h25

Alunos brasileiros interessados na graduação no exterior podem enfrentar novos desafios após a implementação da reforma do ensino médio. Para educadores ouvidos pelo Estado, os itinerários formativos e o aumento da carga horária obrigatória em algumas escolas pode se tornar um obstáculo caso não seja acompanhado por atividades extracurriculares – oficinas como Teatro, Robótica, Culinária e Artes, que não têm relação com matérias cobradas por vestibulares nacionais. Essas matérias são consideradas decisivas no processo seletivo americano, o mais procurado por estudantes brasileiros.

Ainda não há definição sobre o espaço que as escolas poderão dedicar ao conteúdo extracurricular em suas grades no ensino médio. Aprovada em fevereiro, a reforma amplia a carga horária mínima da etapa, do mínimo de 800 horas para 1,4 mil por ano. A lei, porém, não diz exatamente de que forma as horas a mais devem ser usadas. O Ministério da Educação (MEC) prometeu entregar uma proposta para a base curricular da etapa até o fim de 2017.

Matérias eletivas ou extracurriculares têm pouca ou nenhuma relação com as aulas tradicionais, mas contam muito na avaliação do perfil do estudante por universidades dos Estados Unidos. Além disso, os interessados devem estudar para os exames de admissão americanos - o Scholastic Aptitude Test (SAT) e o American College Testing (ACT) - e às cartas de motivação, que cobram técnicas de redação próprias. O receio de especialistas é que o número de horas dedicadas ao conteúdo obrigatório aumente, o que resultaria em menos tempo dedicado aos processos de seleção estrangeiros e a interesses fora da escola.

“Quanto mais a escola brasileira estiver sobrecarregando o aluno na preparação para o vestibular e para o Enem, menos tempo ele tem para se dedicar a áreas extracurriculares, que são exigidas pelas universidades americanas”, diz Felipe Fonseca, diretor da consultoria educacional Daquiprafora, especializada na orientação de alunos para o ensino superior estrangeiro. 

Com 16 anos de experiência, a consultoria recomenda que os alunos separem de três a cinco horas por semana à preparação para processos seletivos no último ano do ensino médio. 

A especialista em graduação no exterior da Fundação Estudar, Carolina Lyrio, também ressalta as dificuldades que alunos de escolas em tempo integral enfrentam quando decidem se preparar para exames como SAT e ACT. “A gente já trabalhou com alunos que estudavam em período integral, e ou eles se preparavam de madrugada durante a semana, faziam simulados no final da semana, ou então estudavam no tempo que passavam na condução, indo e vindo da escola”, diz. “Quem precisa cria ou acha esse tempo de algum jeito.”

Segundo a Fundação Estudar, o processo de candidatura a universidades estrangeiras custa em torno de US$ 1,2 mil, o que inclui taxas de inscrição em provas de proficiência em inglês, do SAT e ACT, envio das notas e até taxas de candidatura.

Estudar até dormir. O estudante André Garcia, de 18 anos, não esconde as dificuldades que enfrentou para ser aprovado na Universidade Yale, integrante da elite acadêmica norte-americana. Garcia mora em Embu das Artes, na Grande São Paulo, e estudou em escolas públicas até o fim do fundamental. A mãe é diarista e o pai vende produtos de limpeza.

O trajeto de ida e volta entre casa e escola tomava cinco horas de seu dia, e para chegar sem atraso era preciso acordar no máximo às 4h30. Havia atividades extracurriculares em quase todas as tardes, o que reduzia o tempo que ele poderia se dedicar à lição de casa a menos de duas horas. No 3º ano do ensino médio, já dedicado ao sonho de ir para o exterior, decidiu acordar mais cedo para ganhar uma hora de estudo, antes de a aula começar. Também reduziu ainda mais o tempo dedicado ao lazer e o período de intervalo. 

No seu caso, a conquista veio com apoio financeiro externo. Ao entrar no ensino médio, foi selecionado pelo programa Ismart e recebeu bolsa de estudos no colégio particular Lourenço Castanho, na zona sul de São Paulo. No último ano, também recebeu o auxílio de um programa do Departamento de Estado americano, o ‘Oportunidades Acadêmicas’, que seleciona alunos de baixa renda com alto rendimento e oferece orientação, materiais didáticos e auxílio financeiro na candidatura para cursos em universidades do país.

Na Yale, Garcia pretende seguir a área de Ciências Biológicas e encaminhar sua formação para Engenharia Química. No ensino superior americano, o aluno não precisa escolher seu curso no momento da matrícula. Perguntado sobre o sistema de itinerários formativos proposto pela reforma do ensino médio, ele diz que esse modelo provavelmente teria prejudicado sua formação.

"Não gosto desse estilo de ensino, até porque mudei muito a minha opinião durante o ensino médio. Odiava História, odiava Geografia, odiava Literatura, e mudei muito ao longo do tempo, porque criei afinidade e acabei vendo o quanto isso era importante e fazia sentido.”

Itinerários. Alguns educadores também têm dúvidas sobre o sistema de itinerários formativos, em que o aluno escolhe 40% de sua carga horária entre cinco áreas de especialização. É o caso do diretor do Lourenço Castanho e coordenador do Núcleo de Orientação de Estudos no Exterior para alunos do ensino médio na escola, Alexandre Abbatepaulo. Para ele, a configuração do ensino superior nos Estados Unidos demonstra que a preferência é por estudantes de formação ampla. “Tenho críticas a essa reforma porque acho que essa carga de 40% (do currículo) em itinerários formativos restringe a formação do aluno."

Fonseca, da consultoria Daquiprafora, vê o sistema de itinerários com bons olhos e diz que a mudança pode dar mais autonomia ao jovem brasileiro. Já para José Olavo de Amorim, diretor internacional do Colégio Bandeirantes, os itinerários formativos interferem pouco na preparação para os exames de admissão. A escola é uma das poucas que oferece o SAT no Brasil, e a única em São Paulo que sedia os exames do ACT.

“O sistema hoje já é diferente (do americano), e isso não tem impedido ninguém de aceitação no exterior”, diz. "Acho que essa reforma vai preparar o aluno brasileiro muito melhor [para o exterior].”

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