Pablo Martinez Monsivais/AP
Pablo Martinez Monsivais/AP

Reforma aproxima ensino médio brasileiro do exterior, dizem especialistas

Canadá, Estados Unidos e Austrália são citados como exemplos próximos à proposta do MEC para a etapa

Tulio Kruse, Especial para o Estado

27 Junho 2017 | 12h23

O ensino médio brasileiro deve ficar mais parecido com modelos adotados na Europa e na América do Norte, ao menos em relação ao formato do currículo. Sancionada em fevereiro, a reforma escolar reserva 40% das aulas a itinerários que serão escolhidos pelo próprio aluno. Especialistas que acompanham tendências internacionais em educação dizem que a mudança já é considerada o padrão em países desenvolvidos.

Diretores de colégios paulistanos comparam a reforma brasileira a modelos adotados nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália e na Inglaterra. Todos já implementaram, em maior ou menor proporção do currículo, a especialização em áreas do conhecimento durante esta etapa.

“O Brasil está chegando muito atrasado nessa discussão”, diz o diretor-presidente do Colégio Bandeirantes, Mauro Aguiar. “Temos uma quantidade enorme de disciplinas e nenhuma flexibilidade, quando se sabe que os alunos têm aptidões diferentes.”

Atualmente, o ensino médio brasileiro tem 13 disciplinas obrigatórias. Com a reforma, apenas as disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática permanecerão durante os três anos do ensino médio. No caso dos conteúdos de Artes, Sociologia, Filosofia e Educação Física, a oferta será obrigatória de acordo com o que será previsto no currículo, mas não necessariamente em disciplinas separadas. O Ministério da Educação (MEC) prometeu entregar uma proposta para a base curricular do ensino médio até o fim do ano.

“Desconheço país que tenha tamanha carga de disciplinas obrigatórias”, diz a diretora-geral do Colégio Rio Branco, Esther Carvalho. “Países bem sucedidos vêm de uma história de flexibilidade, em que existe uma base com maior ou menor proporção de obrigatórias, mas o que define o sistema de ensino é uma flexibilidade baseada no interesse do aluno.”

Entre os exemplos, o Canadá tem os melhores resultados. Conheça mais sobre alguns deles:

Canadá

Os canadenses ficaram entre as 10 melhores posições em todas as áreas avaliadas no último ranking do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), de 2015, que testa conhecimentos de ciências, leitura e matemática. O país adota uma política descentralizada para a área de educação.

Cada um dos 13 Estados tem autonomia para aplicar seu próprio currículo. No ensino médio, a maior parte dos sistemas estaduais de ensino oferecem várias opções de programas de estudo, desde o estudo de Línguas e Matemática até Artes Visuais, Comunicação e Dança. O estudante se inscreve nos cursos por meio de um sistema de créditos. Esse é o método adotado em províncias como Ontario, Alberta, Labrador, Manitoba, Brunswick e Columbia Britânica, que concentram a maior parte da população.

Na maior parte dos casos, os cursos preparam o aluno para universidades ou para a "educação pós-secundária", que é formada por institutos de tecnologia e colégios comunitários com cursos profissionalizantes. O governo de Ontario, o mais populoso do Canadá, faz propaganda do currículo flexível com argumento semelhante à justificativa do MEC para a reforma, que pretende combater a evasão escolar. 

"Programas inovadores, que ajudam alunos a customizar seu aprendizado, estão ajudando mais estudantes a se formar", diz o site oficial da Secretaria de Educação de Ontario. São aproximadamente 700 mil pessoas matriculadas em mais de 850 escolas de ensino médio financiadas pelo Estado de Ontario. "A meta do governo é ter 85% dos estudantes formados."

Estados Unidos

As escolas de ensino médio americanas, conhecidas como high schools, oferecem uma grade de aulas obrigatórias que o aluno deve fazer em paralelo a cursos eletivos. O estudante monta um programa individual de acordo com seus interesses acadêmicos.

Os cursos obrigatórios incluem Inglês, Matemática, Educação Física, História, Ciências Sociais e Ciências Naturais. O tempo que o aluno dedica ao currículo fixo varia de acordo com a escola e o Estado.

A grade eletiva serve para aprofundar o conteúdo de algumas matérias obrigatórias, mas há também cursos profissionalizantes para alunos que não têm interesse em seguir para universidades quando concluírem o ensino médio. "Com frequência, é possível encontrar matérias de agricultura, cursos técnicos e de Belas Artes", explica um guia sobre a high school elaborado pela Universidade de Minnesota. 

Austrália

Ao contrário dos sistemas americano e canadense, a educação na Austrália tem uma base curricular obrigatória, que é válida para todo o território nacional. A base estabelece o que os alunos devem aprender a cada série, desde o ensino infantil até o fim do ensino médio, em todas as escolas do país. Uma proposta semelhante está em discussão no Brasil, que deve padronizar o conteúdo das aulas no ensino básico com a aprovação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

"O currículo estabelece as expectativas para o que todos os australianos devem aprender, independentemente da região em que vivem e de seu contexto", diz o site oficial do currículo australiano. Os estudantes têm a opção de começar a experimentar disciplinas eletivas a partir da sétima série, com aulas de Tecnologia ou Artes, por exemplo.

O ensino médio tem duração mínima de dois anos, e o aluno pode escolher entre quatro percursos de formações: inglês, matemática, ciências e história. O estudante pode trocar de itinerário no meio do caminho. Cada Estado e região tem regras próprias que permitem a matrícula em outro percurso, no semestre ou ano seguinte.

Finlândia

Entre os cinco países com os melhores desempenhos em leitura e ciências do Pisa, a Finlândia é considerada exemplo de pioneirismo em sua política de educação. O currículo flexível, em que o aluno escolhe parte de sua carga horária, foi introduzido no ensino médio do país em 1985. O aluno completa essa etapa após três ou quatro anos de estudo, de acordo com a sua opção de percurso formativo.

Aliada a outras mudanças no sistema educacional, a reforma aumentou a presença de estudantes no ensino secundário, que não é obrigatório na Finlândia. Antes de introduzir os percursos formativos, na década de 1970, o porcentual de adultos com ensino médio completo era de 30%. Em 2010, o índice já havia aumentado para 80% de adultos com diploma no ensino secundário em todo o país. Entre pessoas de 24 a 35 anos, 90% já estavam formados na etapa, segundo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

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