Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Redação do Enem tem 300 mil zeros e só 53 notas mil

Número de textos com pontuação máxima diminuiu em relação a anos anteriores, mas desempenho médio em Matemática cresceu

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2018 | 21h12
Atualizado 19 Janeiro 2018 | 00h07

SÃO PAULO - Apenas 53 candidatos que fizeram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no ano passado obtiveram nota mil na Redação. O número de participantes que conseguiram nota máxima no teste escrito vem caindo ano a ano. Em relação a 2014, a queda é de quase 80%. Os resultados individuais dos estudantes foram divulgados nesta quinta-feira, 19, pelo Ministério da Educação (MEC). 

Notas do Enem são liberadas aos candidatos

A estudante cearense Debora Valença, de 19 anos, foi uma entre os poucos candidatos que comemoraram a nota máxima nesta quinta. “Fui olhar de manhã e quase não acreditei. Foi muita felicidade”, conta a aluna, que pretende cursar Medicina em uma universidade federal do Ceará. 

Cálculo de média do Enem mobiliza colégios privados

Debora explica que fazia, em média, duas redações por semana para treinar. Todos os textos eram corrigidos por professores e, assim, ela conseguia identificar as falhas. “A Redação faz muita diferença na nota”, diz ela, que estuda no Colégio Ari de Sá, um dos mais bem posicionados do Brasil em relação à nota no Enem.

Homens têm 72% das mil melhores notas do Enem

O tema do teste no ano passado, que foi Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil, não significou um problema para Debora. “Já tinha ouvido falar e tinha feito uma redação sobre educação inclusiva.” Mas, para o coordenador do Curso Poliedro, Vinicius Haidar, o assunto pode ser uma hipótese para explicar a queda no número de notas mil. “Não foi um tema comum, esperado e, para ter uma nota máxima, é preciso bagagem cultural”, diz. 

Em 2014, 250 candidatos conseguiram nota mil. Em 2015, foram 104, e em 2016, 77. Para Maria Inês Fini, presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), não se pode comparar os dados. “As populações que fazem o exame são totalmente diferentes.”

Apesar da queda de notas máximas, a média dos participantes em Redação subiu em relação a 2016: de 541,9 para 558,0 pontos. Mas o número de participantes que zeraram o texto aumentou: foram 309 mil, ante 292 mil no ano passado. O principal motivo foi a fuga ao tema. 

Segundo o Maria Inês, 205 candidatos desrespeitaram os direitos humanos na Redação. O Inep, no entanto, foi proibido de zerar esses textos, como ocorria nas edições anteriores do exame, após decisão judicial. 

Outras áreas

Houve piora no desempenho médio dos alunos em Linguagens e Códigos, que cobra questões de interpretação de texto, e em Ciências Humanas, com testes de História, Geografia, Filosofia e Sociologia. Por outro lado, as notas subiram em Matemática e Ciências da Natureza, que envolve Biologia, Física e Química.

Para Marcelo Dias, coordenador do Curso Etapa, é possível que a separação da prova em dois dias tenha causado impacto nas notas. Pela primeira vez, o Enem foi aplicado em dois domingos. No primeiro, alunos realizaram testes de Humanas mais a redação. Ambos exigem alto grau de leitura, o que contribui, segundo Dias, para o cansaço dos estudantes. 

De acordo com Haidar, uma das explicações possíveis para a melhora em Matemática é o fato de a prova ter sido realizada no segundo domingo. “Deu tempo para uma revisão, para dar uma descansada.” 

 

Ensino superior

As notas no Enem poderão ser utilizadas para a disputa de vagas em universidades públicas pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu). As inscrições começam no dia 23. “Cada universidade tem pesos diferentes para as áreas. É interessante que o aluno entre no site das universidades, verifique o sistema de pontuação e a maior chance de aprovação que tem”, explica Dias. 

O MEC ainda divulgou nesta quinta as datas do Enem deste ano. As provas serão aplicadas nos dias 4 e 11 de novembro.

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