RAFAEL ARBEX/ ESTADÃO
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Redação do Enem pega candidatos de surpresa

Tema foi considerado 'específico' por candidatos, que esperavam foco em política ou diversidade sexual

Luiz Fernando Toledo, Lauriberto Braga, José Maria Tomazela, Leonardo Augusto e Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 16h37
Atualizado 06 Novembro 2017 | 00h53

SOROCABA, SÃO PAULO, BELO HORIZONTE E FORTALEZA - Após ter sido alvo de polêmica na Justiça, a Redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) teve no último domingo, 5, como tema os desafios para a formação de surdos no Brasil. A proposta, que segue a tendência da prova de fazer discussões sociais, surpreendeu os participantes e foi considerada desafiadora por especialistas.

A segunda etapa, com questões de Matemática e Ciências da Natureza, será no próximo domingo, dia 12. A prova, usada como processo seletivo em boa parte das instituições públicas e privadas do País, foi feita por 4,3 milhões de candidatos.

“Não esperava esse tema. Não passou nem perto do que imaginei. Pensei que seria alguma coisa ligada à diversidade sexual”, afirmou Brenda Gabriela Noronha, de 17 anos, que fez a prova em Belo Horizonte.

Pedro Henrique Gonzaga, de 18 anos, também se surpreendeu. “Mas acho que deu certo. Falei sobre o fato de as empresas preferirem o lucro a investir na capacitação de pessoas que enfrentam esse problema”, disse o candidato, também de BH.

Em São Paulo, o aluno do terceiro ano do ensino médio Erik Enzo Okuhama, de 17 anos, apostava em um tema mais polêmico ou atual. “Acabei focando em educação de uma forma mais ampla. Como estudo na rede pública, sei que as escolas têm defasagem, daí falei que ela é ainda maior para pessoas que têm alguma deficiência.”

A dificuldade fez até alguns desistirem. “Já não estava muito afim e, quando veio esse tema difícil, optei por não fazer”, contou Jorge Alan, de 19 anos, em Fortaleza.

Entre os 4,3 milhões de candidatos do Enem, 3 mil são surdos ou deficientes auditivos. Na educação básica, com cerca de 48,8 milhões de estudantes no Brasil, há mais de 971 mil alunos de educação especial. O Plano Nacional de Educação prevê que, até 2024, deve ser universalizado o acesso ao ensino básico de todos, entre 4 e 17 anos, com deficiência, transtornos de desenvolvimento e altas habilidades.

Além da Redação, os candidatos testaram os conhecimentos em Linguagens e Ciências Humanas. Alunos avaliaram que, como em outros anos, os enunciados das questões foram extensos, o que tornou a prova trabalhosa. Com a intenção de cursar Medicina, Rachel Almeida, de 20 anos, disse que o problema maior foi em História. “Tinha muito conteúdo envolvendo direitos humanos, leis trabalhistas, mas não achei difícil”, disse ela, que também fez a prova em São Paulo.

Polêmica. Ao longo da semana houve polêmica sobre as regras válidas para a prova de Redação. A Associação Escola sem Partido conseguiu, há dez dias, liminar na Justiça que proíbe o Ministério da Educação (MEC) de zerar a Redação do aluno que desrespeitar os direitos humanos. O Supremo Tribunal Federal manteve a decisão anteontem.

O ministro da Educação, Mendonça Filho, esclareceu ontem que um eventual recurso não terá efeito retroativo – vale a decisão que impede o zero por violar os direitos humanos. Ele lembrou, porém, que norma no edital prevê descontos de até 20% da nota neste tipo de caso. “Está mantida a possibilidade de julgar dando valor e mérito para essa questão”, disse Maria Inês Fini, presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep), que realiza a prova. 

Abstenções. No primeiro dia do Enem, 30,2% dos candidatos faltaram – a taxa é a maior desde 2009, quando houve 37,7% de ausências na etapa inicial do exame. Dos 6,7 milhões de inscritos, 4,3 milhões compareceram ontem, segundo balanço do Ministério da Educação (MEC). 

O elevado índice de faltas fez a pasta criar regras para reduzir as ausências nos últimos anos. O participante isento da taxa de inscrição que faltou e não justificar a ausência formalmente perderá o direito à nova isenção. 

Segundo o ministro Mendonça Filho, ontem não houve “ocorrências graves”. No total, 273 pessoas foram eliminadas por descumprir regras. Destes, nove portavam objetos proibidos identificados por detector de metais.

Em dois locais não foi possível aplicar a prova por falta de energia – em Teresina (PI) e Curuaçu (GO). O ministério não informou quantos candidatos deixaram de fazer o exame por problemas técnicos. Garantiu, porém, que eles poderão fazer o Enem nos dias 12 e 13 de dezembro.

Dificuldades. O tema da Redação foi considerado atípico e pouco trabalhado ao longo do ano, mas desafiador, segundo professores ouvidos pelo Estado.

“É um tema muito específico”, diz a coordenadora de Redação do curso Poliedro, Gabriela Carvalho. “Não é um tema do cotidiano. Não sabemos como a pessoa surda se sente, não sabemos como é o processo de exclusão pelo qual ela passa”, diz. Para ela, a coletânea de textos que acompanhou a proposta da Redação deixou a desejar. “Estava muito pobre, com poucas informações.”

O professor de Português André Valente, do Cursinho da Poli, destaca que a escolha dos organizadores segue uma tendência de discutir temas relacionados a minorias. “É um tema que veio mostrar que não dá para tratar direitos humanos como algo ideológico no sentido partidário da palavra”, diz Valente. “O Inep (Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais, órgão organizador do exame) aponta, mais uma vez, que o jovem que presta o vestibular precisa discutir esses temas.”

O desafio, dizem os especialistas, é que o candidato deveria apontar uma proposta de intervenção objetiva, que não fugisse do tema proposto. “Pode contar pontos sugerir uma iniciativa de cotas e a ampliação do sistema de libras nas universidades. O aluno também pode reforçar a necessidade do poder público atuar mais efetivamente e da sociedade cobrar mudanças”, diz a professora Maria Aparecida Custódio, do Laboratório de Redação do Objetivo.

Outras provas. Para professores, o primeiro dia do Enem foi considerado mais denso do que em outros anos e com pouco tempo para resolver as questões. “A prova subiu de nível, ficou mais densa. Os temas foram diversificados, mas continuam atuais. Quem bobeou no tempo não conseguiu fazer a prova toda. Foi exigida uma concentração muito grande”, disse o diretor de ensino do Anglo, Paulo Moraes.

As citações próximas do mundo dos jovens também chamaram a atenção. “A prova transita por registros que os alunos conhecem. A música do Racionais (grupo paulista de rap) é um registro mais próximo deles do que um poema do Paulo Leminski, que também está na prova. O exame é todo contemporânea, até pelos registros que utiliza, como propaganda e cartazes”, destaca o coordenador pedagógico da Oficina do Estudante, Célio Tasinafo. Além de Racionais, a prova citou o compositor Chico Buarque e medidas da boneca Barbie e trouxe texto do ator Gregório Duvivier.

Os professores elogiaram ainda o novo formato da prova, dividida em dois domingos. A mudança foi feita pelo Ministério da Educação (MEC) após consulta pública sobre o tema. “Permite que o aluno descanse e revise parte do conteúdo”, diz o coordenador do curso Poliedro Vinicius Haidar.

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