Reprodução/Youtube
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'Químicos brasileiros deveriam investir na pesquisa em biomassa'

Para o cientista britânico Martyn Poliakoff, País pode liderar desenvolvimento científico e tecnológico

Carlos Lordelo, Estadão.edu

29 Junho 2011 | 16h57

“O Brasil deveria liderar a pesquisa mundial em química usando biomassa.” A opinião é do professor Martyn Poliakoff, da Universidade de Nottingham, no Reino Unido. Famoso na web por seus vídeos sobre os elementos da tabela periódica, o cientista esteve no País pela primeira vez em maio. Deu palestras sobre química verde, sua área de pesquisa, em Santa Catarina, Rio e São Paulo.

 

Na entrevista a seguir, concedida ao Estadão.edu no Instituto de Química da USP, Poliakoff fala sobre a importância da química nas nossas vidas, o ensino nas escolas, os vídeos e também do que mais chamou sua atenção na visita ao Brasil: o nível de inglês “surpreendentemente baixo” dos estudantes.

 

O Brasil deveria liderar a pesquisa na área de química verde por ser um dos países mais verdes do planeta?

 

O verde da expressão química verde não tem necessariamente a ver com florestas. O Brasil está, sim, numa posição forte para liderar a pesquisa e fazer produtos químicos a partir de biomassa, porque tem grandes áreas produzindo biomassa. Então é muito mais fácil para vocês investirem nisso do que para a Holanda, por exemplo. Trata-se de uma oportunidade, mas depende do desejo dos químicos brasileiros.

 

Mas, já que você falou do Brasil, a química verde tem como um dos objetivos aumentar a produção química, para que levemos o benefício da química para os mais pobres. O Brasil é um país enorme, mas tem um número relativamente grande de pessoas pobres, que não podem comprar os produtos da indústria química.

 

O senhor acredita que existe um preconceito contra a química? Porque quando você diz que algum produto tem química, as pessoas podem achar que ele não é  produzido de maneira sustentável...

 

É preciso fazer uma distinção linguística. A palavra química (chemistry, no inglês) é neutra, mas a palavra química (chemical, no inglês) é muito emotiva.

 

Em português, a palavra é a mesma.

 

Em inglês, chemical tem os mesmos adjetivos que tóxico ou desagradável. Se você diz para alguém, e isso realmente ocorre, que determinado xampu tem substâncias químicas feitas de uma maneira mais verde, ela vai dizer: “Ah, tem química nesse xampu, então vou comprar de outra marca.” É necessário educar as pessoas sobre os benefícios da química. E para vocês que falam português a dificuldade parece mais óbvia.

 

Que conselhos o senhor pode dar para alunos brasileiros que pretendem fazer vestibular para Química? Quais são as grandes áreas em que eles podem se especializar?

 

Hoje, é preciso expandir o conhecimento, em vez de se especializar. A pesquisa em química tem se tornado cada vez mais multidisciplinar. Então os alunos devem aprender o máximo possível. E não devem dizer que determinado assunto é chato, por mais difícil que seja resistir a essa tentação. Quando eu era aluno, dizia que muitas coisas eram chatas e não as estudava. Hoje eu vejo que preciso delas.

 

Eu acho que a química verde tem uma filosofia muito boa, se você me permite usar essa palavra, para quem está começando a faculdade ou até mesmo o doutorado. Esta não é uma área que se encerra em si mesma. Busca outras partes da química. E as maiores descobertas em química verde virão, acredito, de pegar coisas de outras áreas da química e colocá-las juntas pela primeira vez.

 

Qual o papel da química no enfrentamento de questões globais, como energia, alimentação, saúde, etc.?

 

Quando falo com estudantes, eu enfatizo que química é um assunto muito importante. Surpreendentemente, há um grande número de contadores na Inglaterra que são formados em Química. Por quê? Porque a química ensina a pessoa a pensar, fazer cálculos.

Outro ponto importante é a discussão sobre o que seria de nossas vidas sem a química. Para começar, o mundo nem existiria. A química desempenha um papel fundamental em nossas vidas. Tem um exemplo muito bom que uso em minhas palestras. Pense em uma fábrica que ocupa 10 hectares e produz a matéria-prima básica do poliéster. Quantas ovelhas você precisaria para suprir a produção dessa única fábrica? Se você calcular, seriam necessários 100 milhões de animais. E precisaria ter grama suficiente para alimentá-los, ou seja, quase uma área equivalente aos Países Baixos. Isso para substituir somente uma fábrica.

 

É fácil para hippies viverem em comunidades onde eles pegam da natureza tudo que precisam. Mas se você olhar para São Paulo, isso não é possível sem a  química. E a gente deveria se orgulhar disso, não se envergonhar.

 

Qual sua opinião sobre o ensino de química nas escolas? É bom o suficiente para atrair os jovens para a faculdade de Química?

 

Não ensino em escolas, então é difícil fazer julgamentos. Mas um dos problemas é que crianças e adolescentes são muito bons em memória. Se você perguntar a um jovem os nomes de todos os jogadores de seu time favorito, ele vai te dizer assim (estala os dados). Química, infelizmente, requer muita memória e o aprendizado de muitas coisas.

 

Nos últimos 40, 50 anos, as pessoas têm falado: “É chato aprender coisas concretas, então vamos ensinar teorias a nossas crianças.” E isso traz dois problemas: as crianças não entendem teorias e, quando estão mais velhas, na universidade, têm de começar a estudar as coisas concretas. Mas aí o cérebro já se tornou diferente e elas não são mais tão boas em estudar coisas objetivas. Se você perguntar a um jovem de 25 anos os nomes dos jogadores de futebol de seu time favorito, eles param para pensar antes de responder.

 

Outro problema é que a química se expandiu. Na minha vida, o tanto de química que a gente conhece cresceu de duas a quatro vezes. Então é mais difícil ensinar tudo às pessoas.

 

Voltando ao exemplo de São Paulo: é impossível para as pessoas saberem os nomes de todas as ruas. Mas quem conhece bem a cidade tem um mapa na cabeça e, assim, podem encontrar o caminho aproximado de seu destino a partir de algumas referências. Com bons químicos é o mesmo. Eles têm um bom feeling do painel da química e podem até não saber todos os detalhes, mas sabem como chegar a um determinado ponto. É preciso ensinar os jovens a pensar como químicos.

 

Um dos meus alunos mais bem sucedidos fez doutorado e entrou numa empresa de explosivos. Em dois meses, ele patenteou uma ideia sobre um processo que poderia ser usado em minas de carvão. Seu doutorado não tinha nada a ver com minas de carvão, mas o importante é que a vida mudou tanto, a tecnologia evoluiu, e as pessoas precisam pensar de maneira flexível para resolver problemas. A química ensina isso.

 

Como os professores podem fazer isso, ensinar os alunos a pensarem como químicos?

 

Não sou especialista, mas acho que o professor precisa ser entusiasmado e não ter medo de dizer que não sabe de algo. O professor está sempre na defensiva, com medo. Mas ele precisa dizer aos alunos quando eles estão errados, por exemplo. Só que falar isso de maneira positiva. Em vez de chamá-los de idiotas, dizer “Boa tentativa, mas a melhor maneira de fazer isso é desse jeito”.

 

Quais são os grandes desafios para a química no século 21?

 

A revista Nature me pediu para responder a esta pergunta em 200 palavras. Eu acho que há dois grandes desafios. O primeiro é como desenhar moléculas com propriedades e funções específicas. A maioria das pessoas não têm ideia de que produtos eles compram, desde que produza o efeito desejado. Você compra xampu e não se importa com o que tem no xampu, desde que ele lave seu cabelo. O que a química tem de fazer é aprender a desenhar moléculas que deem um efeito particular e fazer isso de maneira limpa, efetiva e eficiente.

 

O segundo problema é que, com a vida se tornando mais complicada, usamos cada vez mais elementos. Um telefone celular tem cerca de 40 mil elementos diferentes. O que fazemos é minerar esses elementos em diversas partes do mundo. E quando terminamos o produto, distribuímos esses elementos pelo mundo. O problema é que fontes fáceis de elementos estão desaparecendo. E um dos grandes desafios para químicos é providenciar maneiras de substituir esses elementos raros, para que não faltem os elementos de que precisamos. Muitos catalisadores, por exemplo, usam metais nobres. Precisamos de novos catalisadores que usem ferro ou talvez nenhum metal.

 

Qual sua opinião sobre intercâmbio de professores e alunos entre universidades, como a vinda do senhor aqui para a USP?

 

Muito positivo, por vários motivos. Os químicos brasileiros estão tentando resolver problemas diferentes dos químicos britânicos. Os cientistas daqui têm habilidades diferentes. E é sempre bom conhecer novas pessoas, porque elas fazem perguntas sobre coisas que nunca pensei a respeito. Meus alunos sofreram lavagem cerebral: sempre perguntam algo que eu sei.

 

Mas tem um problema: fiquei decepcionado com o nível de inglês surpreendentemente baixo dos alunos. Na maioria dos países em que eu estive, os alunos falam bem inglês, mas os professores não. Aqui é muito pobre e isso é grave! Não porque eu não falo português, mas porque a língua internacional da ciência é, hoje, o inglês. E se o aluno não consegue se expressar, há uma grande chance de a qualidade da ciência brasileira não ser vista pelo mundo.

 

Alguns estudantes não conseguiram responder a perguntas muito simples, do tipo “Você é aluno da graduação ou da pós?” ou “O que você está estudando?”. Inglês é uma língua difícil. Mas as pessoas precisam ter a confiança de que conseguem se expressar. É difícil falar inglês sem erros, mas tem gente que sente tanto medo que nem consegue abrir a boca.

 

Por que seus vídeos atraem tanta atenção?

 

Essa é uma questão que você precisa responder (risos). Mas acho que há alguns motivos: o primeiro é que não há roteiro. E não se espera de quem assiste um ganho educacional. É bom também porque é feito por um jornalista profissional, sendo que a maioria dos vídeos sobre química no Youtube são feitos por amadores. As questões técnicas da apresentação são importantes, mesmo se o conteúdo for um lixo. Se as pessoas veem algo amador, isso não tem impacto muito grande. Brady (Haran, jornalista que faz os vídeos) não é cientista. A maioria dos roteiros é feito por pessoas que são cientistas. E pelo fato de ele não ser cientista, ele não sabe os resultados dos experimentos. Então ele foca na explicação.

 

Mas tem humor.

 

Sim! Muita gente acha meu cabelo muito engraçado, e eu acho isso positivo. Eu pareço um cientista maluco, mas quando as pessoas param para prestar atenção no que eu digo, eles veem que falo coisas sensatas.

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