Adriana Sozzi
Adriana Sozzi

Quando é preciso trocar de escola

Pais devem estar próximos do filho para reconhecer se está se desenvolvendo ou se é hora de buscar um novo lugar

Luciana Alvarez, Especial para o Estado

17 Setembro 2017 | 17h55

SÃO PAULO - Com 10 anos, Enzo frequentava uma escola de bairro onde tinha bons amigos e só tirava boas notas. Mas ele nunca estudava, o que levantou uma preocupação nos pais. “Ele estava numa zona de conforto, não tinha desafios. Se continuasse desse jeito, não estaria preparado para a vida”, avalia Adriana Sozzi, mãe de Enzo. No segundo ciclo do fundamental, a família decidiu transferi-lo para o Colégio Bandeirantes, na zona sul de São Paulo. “Foi uma adaptação para toda a família. Não tinha mais leva e traz de agenda, tudo é digital, por exemplo. Como é mais longe, ele passou a ir de perua”, diz.

Além de ser mais exigido academicamente, a mudança representou mais autonomia para Enzo. “Eles dão muito feedback, mas não ficam controlando se o aluno entrou ou não para a aula”, cita a mãe. O menino ganhou também mais autonomia em decisões sobre sua rotina. “Ele mesmo escolheu se matricular no handebol. Como tinha de almoçar por lá, e os amigos iam num restaurante fora da escola, passou a comer fora”, diz Adriana. Ele teve de aprender a controlar o que gasta e saber o horário de voltar para a escola sem interferência de um adulto.

As mudanças foram muitas, mas a experiência foi considerada positiva pelo aluno e seus pais. No ano seguinte, Bruna, um ano mais nova que o irmão, estava animada para ela também mudar para o Bandeirantes. “Funcionou muito bem. Para ela, foi até mais tranquilo, porque ela é superestudiosa”, afirma a mãe.

Cautela. Se em geral os pais pensam em trocar de escola quando o filho enfrenta algum tipo de dificuldade, a facilidade extrema deve provocar igualmente um alerta. “Se quando era criança não aprendeu a estudar e a pesquisar, que faculdade esse jovem vai fazer mais tarde? Que tipo de profissional se tornará? Estudar e pesquisar são comportamentos importantes para a vida toda”, afirma Maria Irene Maluf, do conselho da Associação Brasileira de Psicopedagogia.

Segundo Maria Irene, na tentativa de manter o “cliente”, muitas escolas dão facilidades demais, provocando uma falsa sensação de que as crianças estão aprendendo bem. “Tive o caso de uma menina com dislexia, que não estava alfabetizada, mas só tirava notas excelentes. A professora dava a prova antes, para ela decorar”, relata. Por isso, recomenda a psicopedagoga, os pais precisam estar muito próximos da escola e dos próprios filhos, para reconhecer se eles estão se desenvolvendo.

Ainda que a criança tenha extrema facilidade no aprendizado, a escola precisa mantê-la estimulada, propondo desafios extras. “A escola deveria ser capaz de acolher as diferenças, seja um talento a mais, seja uma dificuldade de aprendizado. Se a escola não fizer isso, nem adianta insistir, porque o aluno só vai acumular frustrações e fracassos”, diz Edimara de Lima, diretora pedagógica da Prima Escola Montessori.

Antes de sair buscando novas opções de escola, ao surgirem certas dificuldades é preciso avaliar três pontos: a frequência, a intensidade e a extensão de tempo. “Hoje os pais estão muito preocupados com a felicidade dos filhos. Mas não existe felicidade intensa e contínua. As crianças vão experimentar momentos de tristeza, contrariedade frustração”, afirma Edimara. 

Quando o problema é de fato frequente, intenso e persistente, deve-se então pesquisar os motivos. “A primeira coisa para checar é como está a ‘máquina’, ou seja, o corpo. A criança somatiza muito rápido os problemas físicos. Há quanto tempo não passa no pediatra, não vai a um oftalmologista?”, indaga a pedagoga.

Ela também lembra que muitas vezes há razões externas, no contexto familiar, que afetam o desenvolvimento na escola. Coisas como uma mudança de casa, a morte de um avô ou desemprego de algum dos pais tendem a se refletir no desempenho cognitivo. 

Quando tudo mais for descartado, pais e escola devem conversar para tentar encontrar uma solução. E todos devem se empenhar para promover mudanças. Na maioria dos casos, o papel dos adultos é dar apoio aos filhos, e não fugir dos problemas, defendem os especialistas. “Às vezes a mudança de escola é ótima. Mas tem famílias que não deixam as crianças lidarem com frustrações. Não se deve vitimizar o filho”, afirma Claudia Siqueira, diretora do Colégio Sidarta.

Suporte. Se for mudar mesmo, deve-se procurar uma nova escola com ainda mais critério, para promover uma mudança no sentido esperado. “Eu recebi um adolescente que até ia bem na outra escola, mas que não queria viver com tanta pressão. Ele me disse: só quero ser eu mesmo. A escola tem de potencializar o desenvolvimento cognitivo, mas desde que isso não te ampute internamente”, relata Cláudia.

Para evitar o troca-troca, a recomendação é sempre ir além dos critérios acadêmicos e ter uma conversa franca com a nova escola. “As pessoas vêm procurar o Sidarta porque os alunos vão bem no Enem, porque se aprende mandarim aqui. Mas aí eu pergunto: tudo bem seu filho limpar a sala de aula? Lavar privada no banheiro? A limpeza é algo muito importante na cultura oriental”, afirma a diretora.

Se as famílias estão de acordo com a filosofia, a parceria tem o potencial de durar muitos anos. “Achamos que a língua é uma forma incrível de exposição a novas realidades e códigos culturais. Tem um papel fundamental na educação da diversidade, flexibilidade, desapego, complexidade de pensamento e relativização dos padrões culturais e familiares”, afirma Artur Tacla, pai de dois alunos no Sidarta, que permanecem há muitos anos na mesma instituição.

DICAS

 

3 sinais de alerta

Notas baixas em várias matérias, em períodos longos. Dificuldades pontuais não são motivo para alarme. 

Problemas de comportamento e relacionamento no colégio. Pode haver indisciplina, apatia ou resistência excessiva para ir à escola.

Notas boas com muita facilidade, falta de vontade de estudar qualquer tema, incluindo disciplinas nas quais antes a criança demonstrava ter interesse. 

3 ações antes de mudar

Cheque se há dificuldades para enxergar, ouvir ou outro problema de saúde, como uma anemia. Também pode haver algum transtorno, como dislexia. 

Converse com seu filho para tentar entender a origem do problema. Ouça de verdade o que ele tem a dizer.

Leve a questão para professores e coordenadores, veja quais as propostas de ação e acompanhe de perto os resultados da mudança.

 

ENTREVISTA

Adriana Camejo,professora de Pedagogia da Universidade Presbiteriana Mackenzie

'Não se deve ter medo da mudança'

Se os pais escolheram a instituição inadequada, se o filho não se adaptou como o esperado, a troca de escola pode trazer muitos benefícios, defende a pedagoga Adriana Camejo. Contudo, não se deve desistir frente à primeira dificuldade, alerta a profissional. 

Para trocar de escola, o ideal é esperar o fim de um ciclo ou mudar logo?

Se há algo errado, é preciso trocar logo. Em geral, os adultos têm medo da mudança, sentem ansiedade. Mas as crianças são muito adaptáveis, fazem amigos logo, se reconhecem rapidamente num lugar novo. Conseguem lidar com isso. Quando necessária, a troca tem o potencial de ser positiva, faz a criança ter mais amigos, ir a outros lugares, ganhar experiências. 

Do ponto de vista pedagógico, que questões devem levar a uma mudança?

Antes de tudo, as famílias têm de saber que escola perfeita não existe. Vai sempre haver algum problema com o qual elas precisam aprender a conviver. Mas, se os pais querem que o filho aprenda a escrever logo e no projeto a alfabetização só começa mais tarde, isso é irreconciliável. Ou se os pais de uma criança do ensino fundamental acham importante ela ter tempo para brincar, mas a escola passa muita lição, não vai ser o colégio que vai mudar. No ensino médio, se a preparação para o vestibular é o mais importante, não dá certo pôr numa escola que trabalha por projetos. Mas essas questões podem ser antecipadas, se os pais conhecerem a escola antes. 

Mas nem tudo dá para antecipar?

Sim, alguns problemas a gente só descobre com o decorrer do tempo. No infantil, se a criança chora demais, se há uma recusa a ir para a escola durante muito tempo, é sinal de alerta. O choro nos primeiros dias é normal, assim como é normal a criança se adaptar logo. Mais tarde, se a alfabetização está sendo muito penosa, se fazer a lição se mostra estressante demais, os pais precisam reavaliar.

Ouvir os filhos é importante?

Com as crianças pequenas, é preciso tomar cuidado porque ainda estão aprendendo a discernir a verdade do mundo do faz de conta. À medida em que crescem, têm de ser ouvidas, para os pais entenderem como estão vivendo aquele processo. Mas os pais também devem mostrar aos filhos a responsabilidade deles no processo de aprendizado. Se um adolescente tira zero porque não estudou, é ele que precisa mudar de comportamento. 

Dificuldades de relacionamento e bullying são motivos para troca?

Algumas coisas a escola não pode tolerar, e os pais também não. Mas a chacota entre colegas é normal até certo ponto. Uma criança que usa óculos, que é gorda, que foge da “normalidade”, tem de ser observada com atenção, para os adultos perceberem se é hora de intervir. Mas ela tem potência para lidar com certas coisas e isso é importante no processo de autoaceitação. A gente tem de ajudar mesmo uma criança mais sensível a enfrentar dificuldades, porque na vida todo mundo vai levar um fora, vai ser mandado embora do emprego.

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