Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Próximo desafio: usar melhor a tecnologia, com cursos a distância e semipresenciais

Universidade está atrasada neste quesito, se comparada com instituições de ponta; projeto na Física deve ser colocado em prática em 2015

Marina Azaredo, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2014 | 02h59

Se a comunidade acadêmica discorda em muitos pontos, da necessidade da presença da Polícia Militar no câmpus à utilização de cotas raciais e sociais para o ingresso em seus cursos, existe um tema que, se não há unanimidade, há algo bem próximo disso: a universidade precisa aprender a lidar melhor com a questão da tecnologia na educação.

"A Universidade de São Paulo ainda está atrasada se comparada com instituições de ponta como o Massachusetts Institute of Technology (MIT)", afirma Gil da Costa Marques, superintendente de Tecnologia da Informação da USP.

Entusiasta do uso da tecnologia na educação, Marques, que se graduou em Física em 1969 e seguiu carreira dentro da universidade, está à frente de uma série de projetos que pretendem inserir a tecnologia de vez no cotidiano da USP. O mais ousado deles pode ser colocado em prática em 2015. "Estou tentando implementar no ano que vem uma novidade no Instituto de Física: dar aos alunos a possibilidade de assistir às aulas de forma presencial ou virtual, como preferirem", conta.

Para isso, Marques tem uma equipe de 16 pessoas produzindo vídeos com conteúdos das disciplinas básicas de Física, em que ele mesmo atua como professor. "Estamos trabalhando nesse conceito do que poderia ser um curso do nível que a USP oferece."

O professor ressalta que uma das vantagens de oferecer disciplinas da graduação a distância é dar ao estudante a possibilidade de personalizar o curso. "O aluno que tem dificuldade vê um vídeo duas vezes. O que entende rápido, assiste uma vez só. Assim como quem já sabe o conteúdo não precisa assistir à aula. Então, é possível dividir o conteúdo em pedaços. Acredito que o futuro da educação há de ser alguma coisa parecida com o que estamos produzindo aqui", afirma.

O passo seguinte, segundo Marques, será oferecer essas aulas para a comunidade em geral, de modo que qualquer pessoa possa assisti-las e ter acesso ao conteúdo que é ensinado na principal universidade do País.

Online. Nos últimos anos, a tecnologia ganhou relevância na educação quando os Moocs (cursos abertos massivos online, na sigla em inglês) começaram a se popularizar no mundo e no Brasil. Nessa modalidade não há pré-requisitos para participação dos estudantes.

Houve quem temesse que o surgimento desses cursos, de qualidade e gratuitos, seria o início de um "tsunami" que atingiria as instituições de ensino. MIT e Harvard se juntaram para criar uma plataforma, o edX, e a própria USP já tem cursos abertos.

e-Aulas. Uma das iniciativas sob o comando de Marques vai justamente na direção dos Moocs. O portal e-Aulas tem acesso livre e já conta com 1,7 mil aulas, com temas que vão da qualidade da democracia a primeiros socorros e atendimento pré-hospitalar. O projeto é inspirado em serviços já em uso por universidades de grande reconhecimento internacional, como Yale, Columbia e Princeton. O MIT OpenCourseWare tem hoje conteúdos de 2.150 cursos e mais de 125 milhões de visitantes. Desses, 43% são pessoas que não estão na universidade, mas têm interesse nos conteúdos ali oferecidos.

O e-Aulas tem hoje 7 mil visitas diárias, segundo a Superintendência de Tecnologia da Informação da USP.

Semipresencial. A primeira graduação semipresencial da USP, oferecida em parceria com a Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), também está sob o comando do professor Marques. A Licenciatura em Ciências foi criada diante da demanda de aperfeiçoamento nos ensinos fundamental e médio do Estado.

A professora do ensino fundamental Leonor Penteado de Souza Peres, de 50 anos, é aluna da primeira turma da graduação, de 2011, e deve se formar neste ano. "Para mim, a USP era apenas um sonho, pois os cursos são em tempo integral ou à noite, horários que não me permitiam pensar seriamente em tentar entrar em alguma faculdade. Mas o ensino semipresencial, com a oportunidade de estudar aos sábados e fazer os exercícios em casa, durante a semana, resolveu isso", conta ela, que dá aulas em uma escola estadual de Piracicaba, onde mora.

A licenciatura tem sete polos no interior do Estado, onde os alunos assistem às aulas aos sábados e têm acesso a laboratórios e bibliotecas.

Apesar das iniciativas do tipo, o presidente da Associação Brasileira de Ensino a Distância, Fredric Litto, afirma que a universidade ainda está muito atrás do que seria desejável para uma instituição do porte da Universidade de São Paulo.

"A USP resistiu até alguns anos atrás, é uma instituição extremamente conservadora e elitista. O resto do País está muito mais adiantado nessa questão, porque o governo federal investiu muito mais recursos nessa área", critica. / COLABOROU PAULO SALDANA

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