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Profissões do Futuro: as áreas mais promissoras do design

Serviço, gestão e integração multimídia se destacam, bem como o papel social dos profissionais

VIVIANE ZANDONADI-ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

05 Agosto 2015 | 18h09

Na rua, na chuva e na fazenda. Nas salas de jantar e de estar. Nos escritórios e nas arquibancadas. Olhe ao redor, é a fotografia de um momento: se estivéssemos aos pés do Vesúvio e ele entrasse em erupção, como ocorreu em Pompeia, provavelmente seríamos petrificados assim, curvados sobre a tela do telefone celular e absolutamente convencidos de que precisamos muito dele. A onipresença desses dispositivos eletrônicos, praticamente uma extensão dos nossos corpos, foi em grande parte erguida em uma combinação de funcionalidade e design que transformou a nossa vida.

Algo parecido começa a surgir nas interfaces simples e funcionais dos recursos contemporâneos de mobilidade urbana. Em breve, provavelmente ninguém mais vai erguer a sobrancelha para os aplicativos que permitem, sem encostar (fisicamente) na carteira ou digitar a senha do cartão, contratar e pagar aluguel de bicicleta, táxis e motoristas, estacionamento, gasolina e pedágio. Uma profusão de pagamentos que circula invisível na nuvem de dinheiro.

A rigor, intervenções de design podem surgir em praticamente tudo o que fazemos, o tempo todo. Móveis, eletroeletrônicos, embalagens, roupas, utensílios domésticos, aeronaves, carros, objetos de papelaria. A louça do banheiro. As marcas com as quais nos relacionamos. Os cursos a distância. A telemedicina. Muito além do desenvolvimento de produtos, há um papel de integração e atribuição de sentido. No dia a dia, o designer é um perguntador. E é desejável que, na busca por soluções, ele compartilhe suas dúvidas com colegas e profissionais de outras disciplinas: qual é a melhor, mais bonita e sustentável combinação de matéria-prima, desenho, cor, identidade de marca e, com o perdão do jargão, usabilidade, em um certo contexto? Por que continuar a fabricar determinado produto e, se parar, o que vou produzir no lugar?

 “O designer é um engenheiro de concepção. Ele cria novas demandas, novas maneiras de se fazer, mexe com a parte social e com o uso de tudo que a gente tem ao redor”, resume Marcelo Silva Oliveira, coordenador do curso de design no Mackenzie. Com mestrado e doutorado ligados à engenharia e à aviação, em vinte anos de profissão Oliveira conta que já trabalhou em uma empresa que fazia tanques de guerra, fez mobiliário para loja, chuveiro e roupa de astronauta. Hoje, além da universidade, atua na indústria aeronáutica, onde participa do projeto de um veículo não-tripulado, um drone.

“Não interessa se o designer vai trabalhar numa lapiseira ou num carro ou num avião. Temos uma maneira sistêmica de projetar, lançar ideias para frente e abordar um assunto. Isso nos faz entregar um maior número de soluções e algumas delas são criativas. Em termos de futuro, penso que o produto está se desmaterializando. A informação tem um valor grande e o objeto deixa de existir, entre aspas, para uma sociedade toda calcada em serviços. No lugar de ter a posse de um carro, em 2030 talvez as pessoas usem sistemas compartilhados de transporte, por meio de assinatura mensal, por exemplo, como fazem com filmes”.

Tendências – A formação universitária tem de ser sólida. Além disso, faz bem investir em cursos livres, de extensão e/ou especializações nas áreas de interesse; atualizar-se em tecnologia sem desprezar o valor do artesanal; ler literatura, antropologia, filosofia, administração; saber que o desenho pelo desenho não se sustenta; entender que as questões de sustentabilidade, diversidade e envelhecimento populacional nunca mais poderão ser ignoradas. O que mais pode pavimentar o caminho dos futuros designers?

“O design se transforma todos os dias e a forma como trabalhamos também muda. Acho que o que desponta é o trabalho ligado à gestão de projetos e ao desenvolvimento de serviços e de soluções digitais e multimídia, distanciando-se da banalização da forma, que faz com que a gente veja, por exemplo, tantos carros parecidos nas ruas”, avalia Milton Francisco Junior, coordenador do curso de design da Faap. “Tudo isso tem de ser amparado em uma percepção cada vez mais sofisticada do comportamento humano. Na evolução dessa relação de projetos de serviço, a questão do impacto social é profunda e cheia de camadas. Tem de perguntar sempre: para quem, o que e por que eu vou fazer isso”.

A compreensão da materialização é outro aspecto significativo. Desafio de paradoxo. Na opinião de Junior, pelo bem da inovação as oficinas precisam ser preservadas, para que em 2030 o designer não se sinta desamparado diante do prego e do martelo. “Sem essas referências práticas, limitados a interfaces digitais, podemos perder a essência da inovação. Saber como nasce um carrinho de rolimã, uma casa na árvore e um livro, do ponto de vista prático, é fundamental”.

Além da abertura para experiências reais, outro trunfo é o perfil multidisciplinar. Ana Lucia Lupinacci é diretora do curso de design da ESPM, onde também dá aulas de linguagem visual e história. “Mais importante do que a segmentação, que já vivemos em outros momentos, é considerar que o trânsito entre áreas correlatas e o conhecimento que tangencia fazem com que o profissional do futuro esteja mais bem inserido e com condições de diálogo mais embasadas. Para trabalhar em uma empresa de design de embalagens, por exemplo, ele terá de saber design de embalagem, sim, mas também de marca, branding, comportamento do consumidor e algumas áreas que vão orbitando e expandindo conhecimentos”.

Segundo Ana, não dá para imaginar um designer do futuro, inovador, que não tenha interesses culturais, por diferentes grupos e contextos socioculturais e que não seja antenado com tecnologia e instrumentos – tecnologia e instrumentos digitais que façam sentido, como forma de entendimento e possibilidades práticas de implementação. Ela conta que não é raro ser procurada por alunos que pedem mais aulas de ateliê e desejam investigar técnicas de aquarela e nanquim. Há uma busca bastante legítima por repertório e referências. “Eles são nativos da conectividade e o computador emula técnicas, aí quando você tem a experiência real é uma outra coisa. Ou seja, o design não é analógico OU digital. Ele é analógico E digital; é consumidor E cidadão; é conceitual E operacional. É a soma que dá condições melhores de participação em times, exercício de liderança e reconhecimento da inovação”.

Os métodos de design vão continuar a alimentar vários setores para desenvolver ideias e conceitos, afirma Sueli Garcia, coordenadora de design de interiores da Belas Artes e dona de um escritório de tendência em design especializado em cenografia comercial. “Mas o designer tem de fundamentalmente gostar de pessoas, se interessar por elas e escapar ao estereótipo do glamour, da imagem do artista que vai sair na revista. Ele é um prestador de serviço, soluciona problemas para seres humanos. Esse aspecto de conexão com a realidade tem de acontecer. ”

No Brasil, Sueli aponta uma necessidade enorme de mergulhar nas cinco regiões “gigantescas e muito misturadas”, para saber quais são as características dos recursos e matérias-primas. A ideia seria explora-las em um design de perfil mais autêntico nas áreas em que geralmente predomina a inspiração no exterior, do tipo cama, mesa e banho. “O setor mobiliário também tem grande potencial e a gente tem conhecimento de madeira, o desafio é a desconexão entre matéria, mão de obra e design. Também acho que a customização é uma tendência e que o design de escala industrial deverá passar por um enxugamento. Outra situação que deve aumentar é a criação de produtos e serviços que exijam participação do consumidor, como a montagem de móveis em casa, por exemplo”. 

Nova realidade – Exceto pelos aspectos de afinidade ou, gosto que vão distinguir a trajetória dos profissionais, não interessa para o designer se o cliente quer um produto financeiro, um sistema de gerenciamento para empresa, uma nova maneira de compartilhar automóveis. “Se tiver uma boa formação e treino em projeto, ele terá condições de fazer tudo isso”, diz Marcelo Oliveira, do Mackenzie. Só que há uma nova realidade, entusiasmante e desafiadora.

“O design como é pensado hoje é o design de produto programado na obsolescência. Um design que faz a gente ter uma relação com objetos de posse, como carro e celular, por exemplo, e que se a gente continuar nessa escalada o lixo vai aumentar, o consumismo desenfreado vai ter de mudar, porque o processo nos leva à exaustão de recursos, ao fundo do poço”. Há, portanto, um papel de responsabilidade a ser assumido pelo designer, mas é preciso criar condições para que ele atue dessa maneira na prática.

Existe demanda por essa pegada de soluções mais conscientes por parte das empresas? “Na minha opinião, ainda não. Imprime-se relatório anual em papel reciclado para bater meta, mas todo mundo hoje quer vender. Há empresas mais alinhadas com a sustentabilidade, é claro, só que é difícil ir contra o sistema que predomina. O designer do futuro será um administrador de soluções e precisará ocupar esse espaço num esforço de se afastar das demandas mentirosas, das novidades desnecessárias, como celulares e embalagens de refrigerante”.

E daqui a cinco, dez ou quinze anos? Quais serão as áreas de atuação mais interessantes? Listamos algumas delas a seguir.

Design de gestão: é um trabalho forte de consultoria e prospecção, em que se deve

compreender profundamente a empresa em que trabalha ou presta serviço e saber identificar quando a intervenção do design é necessária. “A gestão é do projeto e não do objeto, produto ou marca isolados. Ela propõe uma saída ao questionar se a fábrica de materiais para desenho deve continuar a produzir compassos, réguas e esquadros, em um mundo em que as técnicas de representação estão sendo alteradas”, explica Milton Francisco Junior, da Faap. “No design de gestão existe bastante espaço para inovação radical, mas, para que isso ocorra, o design no mundo corporativo precisa ser adotado como política. Esse processo ainda não é bem compreendido em algumas empresas”.

Design de serviço: ao percorrer desde projetos de atendimento, relacionamento, aplicativos e objetos, sempre dentro de um conceito amplo de oferta de serviço, esse segmento é dos mais fortes e robustos nos próximos anos. E quais são os setores que tendem a gerar demandas consistentes? “Pensando em Brasil, podemos citar transformação e mobilidade urbana, cadeia produtiva, o conceito de cidades-serviço, o modo como a gente se relaciona e se movimenta,” diz Junior. Outro segmento que já existe e tem bastante potencial é o design de serviços de saúde. “Quando eu falo que vou desenvolver um aparelho de ressonância ou tomografia, eu preciso de um engenheiro e de um médico, mas também preciso de um designer, porque alguém tem de estudar o projeto de vários pontos de vista e compreender as necessidades de todas essas pessoas e disciplinas envolvidas, desde o técnico de radiologia até paciente. Como esses indivíduos vão se relacionar com a máquina da melhor maneira possível? ”

Design digital, de interface, de recursos multimídia: além de ser promissor por si só é também instrumental para os demais e um motor de mudanças na configuração dos ambientes. É a área da aplicação da internet das coisas, da integração dos elementos – computadores, televisão, geladeira, portáteis. Quando bem-sucedidos, seus projetos oferecem conforto, conveniência e uma espécie de transparência cognitiva – transições suaves e intuitivas entre aparelhos diferentes. O design das interfaces de aplicativos transformadores ajuda a facilitar a vida e a mudar a forma como trabalhamos, pagamos contas, fazemos compras e interagimos com o conteúdo e as outras pessoas.

Design de produtos para a “terceira idade”: o envelhecimento da população é um dado real e gera cuidado assistido, questões de acessibilidade, espaços de convivência, roupas e acessórios adequados e que ajudem a promover a autonomia. “Vai ocorrer uma extensão da vida ativa, e vamos precisar de gente para desenhar também soluções e serviços de seguro saúde, planos de emergência, de aposentadoria... “, relaciona Marcelo Silva Oliveira, do Mackenzie.

Design relacionado ao aproveitamento de recursos naturais: “Com todas essas demandas sociais e de alimentação o que é que a gente pode fazer de inovação em sistema de transação de commodities na área de grãos, por exemplo? O que é que eu posso ter na questão logística para melhoria de abastecimento sem precisar colocar aditivos químicos e agrotóxicos nos alimentos e recorrer a transgênicos? Tem que ter alguém pensando nisso, porque são demandas reais”, diz Oliveira.

Design de relações sociais: antecipando uma temporada de relações empobrecidas pelo excesso de tecnologia e o estado de conexão permanente, ele poderá criar soluções de aproximação no trabalho e na vida privada, usando ou não recursos informáticos. “Esse designer vai na empresa observar como os funcionários estão se relacionando, por exemplo, como se fosse um coaching. Ele pode ter até uma formação de psicologia, mas o repertório de design permite também desenvolver ferramentas interativas, jogos, concursos internos”.

Design de educação a distância: “É uma área que o design pode contribuir mais e é bastante provável que surjam cursos de especialização”, observa Ana Lucia Lupinacci, da ESPM. “Tem de pensar em prestação de serviço que vai passar por materiais que não existem, direção de arte, por toda uma questão de linguagem visual do ordenamento dos conteúdos, metodologias, do tratamento dos objetos de conhecimento que ainda é uma praia que ainda não é muito explorada”.

Design de negócios sociais/informação: organizações não-governamentais e iniciativas de crowdfunding podem se beneficiar de um bom design de conteúdo e de uma forma que tragam resultados melhores de engajamento – entregar um produto e uma informação que atraiam o envolvimento das pessoas. “Não é a coisa pela coisa. As pessoas querem experiência e relevância, o preço na ordem do valor e não como caro ou barato. Uma ótica muito mais sofisticada” 

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