Arquivo/Michael Page
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'Profissional do futuro tem de saber o que quer'

Diretor executivo da Michael Page, consultoria especializada em recrutamento, detalha habilidades exigidas pelas novas carreiras

Entrevista com

Ricardo Basaglia

Júlia Marques, O Estado de S. Paulo

23 Julho 2017 | 03h00

Designer de realidade virtual, gestor de dados, profissionais ligados à terceira idade. As carreiras do futuro são muitas, mas demandam habilidades em comum como flexibilidade, dinamismo e domínio da tecnologia. Se preparar para assumir novos postos de trabalho exige, além de bons cursos, visão do mercado e proatividade. "Talvez nunca tenha sido tao importante para o profissional saber o que quer, para que possa se posicionar", defende Ricardo Basaglia, diretor-executivo da Michael Page, consultoria especializada no recrutamento de alta e média gerência.

Em entrevista do Estado, o especialista avalia as apostas do mercado e destaca o que as empresas valorizam em seus profissionais.

Quais habilidades necessárias para carreiras promissoras? 

A tecnologia traz uma transformação para a maioria das profissões. O grande desafio hoje não é mais a discussão sobre se o robô a e tecnologia vão tomar o lugar do ser humano. É pensar em quais as habilidades os robôs não conseguirão ser melhores do que o ser humano. Aí estão as profissões que tendem a crescer. 

Quais carreiras devem estar em alta nos próximos anos?

Algumas que me vêm à cabeça são o designer de realidade virtual e o designer especializado em impressão 3D. Eu vejo também muitas profissões ligadas à terceira idade. O ser humano que vai completar 130 anos de idade já nasceu. Antes se falava em carreira como algo que a pessoa tinha que escolher e levar para sempre. Hoje se fala muito em ter ao menos três carreiras ao longo da vida. Isso vai dar um potencial para ele se desenvolver em outras áreas.

É esperado um profissional mais versátil, que domine várias áreas, ou mais específico?

Eu vejo a primeira opção. Um profissional mais versátil, que tenha a capacidade de aprender rápido porque as mudanças estão cada vez mais rápidas e os ciclos mais curtos. E, principalmente, que saiba lidar com uma população que já nasce no mundo digital. 

Qual o peso das especializações nas carreiras do futuro?

Sem dúvida existe uma valorização das especializações porque elas são uma prova de que o profissional passou por um desenvolvimento, que efetivamente buscou isso. Mas não é suficiente. No passado, você fazia um MBA ou uma pós-graduação e teoricamente isso te dava um caminho. Hoje vejo a educação e o desenvolvimento muito mais modulares. Como em um quebra-cabeça, você vai encaixando mais peças para aumentar o tamanho da foto da sua carreira. Ora pode estar fazendo um curso de tecnologia dentro de uma estrutura formal, ora uma mentoria com alguém mais experiente. Vejo a mentoria ganhando cada vez mais valor. Mais coisas estão em jogo: a capacidade que o profissional tem de aplicar e a atitude. Não podemos esquecer que 91% dos profissionais são contratados por questões técnicas e demitidos por questões comportamentais. 

Em relação a isso, quais seriam as exigências, além da formação?

A palavra do momento é flexibilidade. Hoje se buscam pessoas de todos os gêneros, raças e que possam extrair valor dessa pluralidade. Também há mais opções para se desenvolver e até novas formas de ser contratado, como atuar por projetos. Talvez nunca tenha sido tão importante para o profissional saber o que quer, para que possa se posicionar. As carreiras eram muito quadradinhas e o profissional deixava a dele na mão das empresas. Toda essa flexibilização faz com que a responsabilidade venha muito mais forte para a mão do profissional.

Sobre as especializações, é melhor investir em formações bem específicas ou numa visão mais ampla sobre determinada área?

Para o profissional mais jovem, normalmente uma especialização mais técnica traz uma aceleração para a carreira porque ele precisa ter um valor para entregar para a empresa. À medida que ele cresce e tem responsabilidade de gestão e estratégica, a diversidade é mais importante. 

Cursos no exterior são valorizados no mercado brasileiro? E quais os critérios ao optar por uma formação externa?

No passado existia um estigma de que todos os cursos lá foram eram melhores do que os do Brasil. O ideal é ir fazer cursos em lugares reconhecidos por aquelas formações. Certamente, muito cursos lá fora têm valor, mas não dá para generalizar. É importante avaliar qual o público vai estar na classe, qual a forma de interação. As interações são extremamente importantes. Buscar universidades em que os professores sejam ótimos mediadores e as turmas extremamente qualificadas. Vejo a Ásia crescendo muito nesses aspecto. Lá você tem uma economia muito forte, volume de população e uma cultura que valoriza a educação. 

Qual a importância de outros idiomas?

Para muitos profissionais, eu recomendo que primeiro fale inglês para depois pensar em uma pós. Para o profissional ambicioso que quer ter uma carreira executiva, não falar inglês não deveria ser uma opção. Em relação aos outros idiomas, depende muito da área ou da empresa e isso pode se tornar um diferencial. 

Falando em idiomas, o quanto o domínio da linguagem da programação pode ser decisivo?

A linguagem de programação traz, primeiro, uma visão de como a tecnologia funciona e daí muitas decisões podem ser tomadas. Em segundo, está a capacidade de desenvolvimento do raciocínio lógico. No futuro, a linguagem de programação pode ser mais importante ou tão importante quanto um segundo idioma. 

Como conhecimentos de gestão podem contribuir para o bom posicionamento do profissional?

É fundamental e onde a maior parte dos profissionais bate no teto e deixa de crescer. Porque gestão, mais do que técnica de gerir, é conhecer profundamente como extrair o máximo de cada ser humano que trabalha com você, é fazer gestão do engajamento das pessoas. As pessoas deixam para depois e isso só entra muito forte na agenda dos profissionais quando eles começam a ter problemas. Tem muitos lugares onde se pode experimentar a gestão antes de uma promoção no mundo corporativo. Por exemplo, em projetos sociais, em que  você  tem a oportunidade de liderar coisas fantásticas com muitas responsabilidades e se desenvolver para chegar um pouco mais pronto nas empresas. Quando se está na faculdade, liderar diretórios acadêmicos e organizações de eventos.

De que forma o espírito empreendedor é valorizado no mercado?

Empreendedorismo é efetivamente não estar preocupado só com sua área, com sua atividade, olhar a empresa como um todo, se preocupar em fazer gastando menos, vender mais e atender melhor um cliente. Hoje talvez isso seja um dos pontos mais valorizados. O empreendedorismo tem um valor muito grande porque é o agrupamento de vários comportamentos, como atitude e ambição. 

Qual o risco de mirar muito especificamente para uma área e ela não se revelar promissora?

Quando se fala em aposta, a maior parte do que se diz de tendência nem sempre se realiza. Para o profissional que busca se desenvolver, parte disso é monitorar o quanto efetivamente aquela profissão ou área está se consolidando. Flexibilidade é importante porque vem acompanhada da capacidade de aprendizagem rápida e de colocar em prática no mundo real. 

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