Professores e funcionários da PUC-SP também entram em greve; alunos desocupam reitoria

Segundo os manifestantes, paralisação está mantida até que cardeal cancele nomeação de última colocada em lista tríplice para a reitoria

Carlos Lordelo e Cristiane Nascimento, do Estadão.edu,

14 Novembro 2012 | 23h17

Professores da PUC-SP resolveram entrar em greve contra a nomeação de Anna Cintra para a reitoria. Docente de Letras, Anna foi a menos votada pela comunidade acadêmica em eleição realizada em agosto. Ainda assim, foi escolhida pelo cardeal-arcebispo d. Odilo Scherer para comandar a universidade nos próximos quatro anos.

 

As regras para a escolha do reitor da PUC-SP preveem eleição em que alunos, funcionários e professores votam. Uma lista tríplice segue para o cardeal, que é o grão-chanceler da universidade e tem a prerrogativa de escolher um dos nomes. Tradicionalmente, o primeiro colocado é o selecionado.

 

Com a greve dos professores, deliberada em assembleia na noite desta quarta-feira, 14, todas as categorias da PUC-SP estão de braços cruzados. Os funcionários também decidiram paralisar as atividades nesta quarta. Já os estudantes decretaram greve ontem à noite, horas após a divulgação da escolha de d. Odilo para a reitoria.

 

Segundo os líderes do movimento grevista, a paralisação continuará até que d. Odilo cancele a nomeação de Anna Cintra e homologue o resultado da eleição, que apontou o atual reitor, Dirceu de Mello, como o campeão de votos na consulta feita a professores, alunos e funcionários.

 

Professores e alunos de Medicina da PUC em Sorocaba, por enquanto, não aderiram à paralisação. O vice-reitor de Anna Cintra, José Eduardo Martinez, dá aulas na unidade.

 

 

Assembleias

 

Os alunos realizaram uma nova assembleia na noite desta quarta, no câmpus de Perdizes, zona oeste da capital. Eles discutiram os rumos do movimento. Logo em seguida, desocuparam a reitoria da universidade, invadida ontem à noite no calor da revolta. A decisão de sair do prédio foi tomada nesta manhã em uma reunião com pelo menos 400 estudantes.

 

Apesar de nunca gozar de aprovação unânime durante a gestão, Dirceu de Mello foi recebido como herói pelos alunos. Ao microfone, agradeceu. “O que interessa é estar no coração dos alunos, professores e funcionários.” À noite, foi simbolicamente empossado. “Entregamos a reitoria a quem foi eleito pela comunidade”, disse um estudante. Dirceu aceitou a homenagem e foi aplaudido.

 

Para Victoria Weischtordt, presidente da Associação de Professores da PUC (Apropuc), a nomeação de Anna Cintra justifica a greve dos professores. Ela diz defender a "soberania" da universidade. “A PUC tem uma tradição democrática e, sempre em momentos como esse, a comunidade reage rapidamente”, afirma. Sobre os aplausos que o atual reitor recebeu quando chegou à assembleia, Victoria avalia o ato como significativo. “Não foi Dirceu o aplaudido, mas a sua figura como o primeiro colocado de uma eleição democrática.” Vale lembrar que, entre os professores da PUC-SP, Anna Cintra foi a mais votada.

 

Pela manhã, os estudantes marcharam até a sede da Fundação São Paulo, mantenedora da PUC, e fizeram um minuto de silêncio na frente do prédio. Depois gritaram palavras de ordem contra Anna Cintra, o cardeal e a própria fundação. Três viaturas da Polícia Militar estavam na porta do edifício.

 

A reitora nomeada não quis comentar a razão pela qual aceitou o cargo, mesmo tendo assinado compromisso de rejeitá-lo caso não fosse a mais votada.

 

Para o aluno de doutorado da PUC-SP Rodolfo Vianna, quem está insatisfeito deve se concentrar em "constranger" Anna Cintra para que ela não aceite a nomeação. Os estudantes preparam uma carta para a professora, dizendo: "Nós, estudantes da PUC, inclusive seus eleitores, exigimos que cumpra promessa feita e assinada no debate e recuse a indicação do grão-chanceler. Assim a senhora não entra para a história da PUC como a interventora da Igreja Católica e também contribui para a manutenção da trajetória democrática da universidade."

 

A fundação divulgou nota em que defende a prerrogativa do cardeal. “A PUC-SP respeita o debate de ideias. No entanto, tem a responsabilidade de zelar pela integridade de seus professores, alunos e funcionários, e também de seu patrimônio”, diz o texto.

 

 

Futuro

 

Na quarta-feira, 21, deverão ser organizadas assembleias nos cursos. A ideia é fortalecer o movimento grevista nas bases. Alguns alunos apoiam o protesto contra a decisão do cardeal, mas não veem a paralisação como a melhor saída. À noite, está prevista a realização de uma "audiência pública" no Teatro Tuca, para a qual foram convidados representantes da comunidade acadêmica, além dos três candidatos a reitor e de d. Odilo. Dirceu de Mello, atual reitor, já confirmou presença.

 

* Atualizada à 1h30 do dia 15/11

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