Primeiros alunos da 'Geração Sisu'  começam a se formar

Primeiros alunos da 'Geração Sisu' começam a se formar

Estudantes selecionados em 2010 pelo sistema que utiliza notas do Enem vão pegar o diploma neste ano

Guilherme Soares Dias, especial para o Estado, Estadão.edu

30 Setembro 2014 | 03h00

 

Neste ano, a primeira leva de universitários da “geração Sisu” está se formando. Criado em 2009, com a reformulação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) permitiu que instituições públicas de ensino superior aderissem a ele para selecionar seus novos alunos, com base nas notas do Enem ali registradas. 

Com isso, a transferência de universitários entre Estados ficou bastante facilitada, sem que houvesse necessidade de prestar novo vestibular. 

Priscila Cardoso, de 22 anos, que ingressou pelo sistema em Publicidade e Propaganda na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) no segundo semestre de 2010, acaba de se formar. A estudante migrou de Anápolis (GO) para Cuiabá e diz que, no começo, foi difícil encarar a nova vida. “Foi uma mudança brusca e sofrida. Não conhecia a cidade, as pessoas. Há uma diferença climática, pois Cuiabá é muito quente”, diz. 

Ela afirma, no entanto, que o aprendizado de viver em um lugar diferente foi tão grande quanto o que adquiriu na universidade. “Tive crescimento pessoal e precisei utilizar conhecimentos da faculdade para ganhar dinheiro e me virar sozinha.” Além dos R$ 400 pagos para estudantes de outros Estados, a UFMT oferta R$ 400 de bolsa-moradia e R$ 100 de alimentação. “Eu me apaixonei pela cidade”, diz ela, que trabalha como assistente de marketing em um shopping.

Número alto. O primeiro ano no qual as universidades usaram o Sisu foi 2010, quando um quarto dos estudantes inscritos migrou para outros Estados. Segundo o Ministério da Educação, o alto número se deve ao fato de que universidades federais de vários Estados ainda não haviam adotado o sistema. Naquele ano, 23 universidades federais utilizaram o Sisu. Já em 2013, quando o número de federais chegou a 43 no sistema, a mobilidade de estudantes foi de 13% – os dados são os mais recentes divulgados. Ainda lideram a migração de estudantes Estados que não possuem universidades que ingressaram no sistema, caso do Distrito Federal, de Rondônia e de Santa Catarina.

Os 3.300 quilômetros que separam Boa Vista de São Bernardo do Campo (SP) não impediram que o estudante Marcus Vinícius Macedo, de 20 anos, migrasse para a cidade do ABC paulista para cursar o bacharelado em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Ele chegou a fazer Engenharia Elétrica na Universidade Federal de Roraima (UFRR), mas seu sonho era a universidade paulista, que permite estudar Engenharia Aeroespacial. Macedo se inscreveu no Sisu em 2012 e, em 2013, chegou a São Bernardo. Como aproveitou parte das disciplinas já cursadas na capital de Roraima, deve se formar em 2015.

“Este novo tipo de seleção facilitou o processo. Eu não teria condições de pagar passagem só para fazer vestibular”, diz. Macedo estuda com ajuda do auxílio permanência de R$ 400, ofertado para alunos de outras cidades pela UFABC; de R$ 400 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por ter pesquisa aprovada, e também com a ajuda dos pais.

Adaptação. O estudante lembra que os primeiros meses foram difíceis e teve problemas com o clima mais frio da cidade paulista. “Depois de um tempo me adaptei. E minha mulher também veio para cá, estudar, o que facilitou”, afirma. Mesmo com as dificuldades, ele lembra que a UFBAC possibilita a interdisciplinaridade e pesquisa e que sempre almejou estudar nesta universidade. “Com o fim da graduação, pretendo iniciar o doutorado e fazer pesquisas aqui em São Paulo”, diz. 

Mobilidade grande. Em São Paulo, onde também há universidades que adotam o Sisu, a mobilidade é alta – 35% em 2013. A explicação é que a alta concorrência nas universidades públicas paulistas “empurra” os estudantes para outros Estados. Amana Colares, de 18 anos, por exemplo, morava em São Paulo quando prestou o Enem em 2013 para contar com o Sisu, já que tinha conexão em três Estados. 

Além de São Paulo, tem família em Brasília e amigos em Belo Horizonte. “Eu me inscrevi para a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e não passei. Daí, aproveitei a nota do Enem e apliquei para a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e passei para Letras no meio do ano”, conta. Amana vive os primeiros meses longe de casa e diz que a adaptação está sendo tranquila. “Estou aprendendo a ter autonomia e saber como vou gastar meu dinheiro”, diz.

Já entre os Estados que mais recebem estudantes está o Paraná, no qual 27% dos alunos do Sisu matriculados em 2013 saíram de outras unidades da Federação. Renan Estrada, de 22 anos, foi estudar Engenharia Química em Curitiba, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), por causa da boa colocação do curso nos rankings. “Não pensava em mudar. Tentei entrar na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), mas a nota de corte era alta e minha segunda opção era a UFPR”, diz ele, que é de Dracena (SP). Como fez o processo pelo Sisu, Renan conheceu Curitiba já no dia da matrícula. “Saí do conforto de casa para cuidar sozinho de mim, mas foi bom.”

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