Ed Ferreira/AE
Ed Ferreira/AE

Primavera dos 'sem-partido'?

Chapas que se dizem apartidárias ganham força nas universidades e vencem eleições na UnB e UFMG

Cedê Silva, Especial para o Estadão.edu

29 Novembro 2011 | 00h03

Um espectro assombra o movimento estudantil - o espectro da direita. Todas as potências do velho movimento entraram numa aliança para exorcizar este fantasma: PCO e PSOL, PSTU e PT, LER-QI e Negação da Negação.

Que chapa que se diz apartidária não foi acusada de direitista por seus adversários no poder? Que chapa de oposição, por sua vez, não lançou a seus adversários de esquerda a pecha infamante de comunista?

Duas conclusões decorrem destes fatos: 1ª) o direitismo, ou ao menos o apartidarismo, já é reconhecido como força pelos estudantes das principais universidades brasileiras; 2ª) é tempo de os líderes dessas novas chapas exporem, à face do mundo inteiro, seu modo de ver, seus fins e suas tendências.

O Estadão.edu conversou com líderes de três chapas que se dizem apartidárias: Vitor Colares, tesoureiro do DCE da PUC Minas; Davi Brito, presidente da Aliança pela Liberdade, da UnB; e Vinicius do Carmo, candidato a presidente do DCE da USP pela chapa Reação. Em comum, todas as chapas deles se dizem 'apartidárias' e todas são tidas como 'de direita' por chapas adversárias. A estudante Natália Pimenta, filha do político Rui Costa Pimenta, do PCO, escreveu um artigo em que defende que a direita não pertence ao movimento estudantil. "Na UnB, onde uma direita inimiga do movimento estudantil ganhou as eleições, cabe à esquerda romper com esse simulacro de DCE e construir uma outra organização. Não há convivência possível", afirma.

Para Vitor, de 21 anos, estudante de Direito na PUC Minas e de Ciências do Estado na UFMG, o que ocorre hoje nas universidades é uma grande mudança de paradigma. "O movimento estudantil foi por muito tempo estereotipado: aqueles bardudos politizados de esquerda que estudam Ciências Humanas", afirma. "Nós viemos oferecer alternativas. Os alunos veem coisas que não tem em outras chapas, sabem que não lutamos pela revolução em Cuba ou no Egito". Segundo Vitor, as novas chapas apartidárias têm um objetivo comum, que é tirar das universidades os partidos de extrema esquerda e a partidarização do movimento como um todo. Vitor é filiado ao PSDB e trabalha para a assessoria de comunicação do governo estadual.

"Tenho uma posição dentro do movimento estudantil e outra fora dele", afirma. "No movimento estudantil, sou do partido dos alunos, e elogio a Dilma e critico o Aécio se for necessário". Vitor criticou, alíás, o adiamento das eleições para o DCE da USP, decidido por uma assembleia de alunos sem competência para tanto. "As eleições devem ser a prioridade do movimento estudantil, senão fica complicado para a democracia interna da universidade. Quando você adia as eleições, fica claro que o processo é manipulado e as pessoas perdem o ânimo de votar".

A chapa de Vitor, a 'Voz dos Estudantes 2', propôs uma expansão do mandato do DCE. Quem quer que ganhasse a eleição seguinte governaria por dois anos. A chapa foi reeleita, e a 'Voz dos Estudantes 3' ficará até maio de 2013. "Mandatos mais longos permitem condições melhores de contratos com casas de show e lanchonetes, coisas que interessam aos estudantes", explica.

Olha a Onda

Vitor também militou pela Onda, chapa que acaba de vencer as eleições para o DCE da UFMG. Segundo a página oficial no Facebook, "a Onda não é de direita, nem de esquerda. Não é conservadora, nem liberal". O texto nega "qualquer auxílio de representantes de juventudes partidárias na consolidação de nosso grupo ou na formulação de nossas propostas de campanha". E diz ainda: "Refutamos todas as apropriações indevidas de nossa vitória, com atribuição de rótulos ou classificações de nosso grupo."

Nesse aspecto, a chapa de Davi Brito, de 21 anos, estudante de Direito da UnB, é radical. Na Aliança pela Liberdade, vencedora das eleições deste ano para o diretório dos estudantes, todos têm uma certidão emitida pelo TSE que mostra não terem filiação partidária. Na opinião de Davi, o movimento estudantil não reflete o que os estudantes querem. "É um movimento que não saiu da ditadura militar. Ficam numa briga de esquerda contra direita, e a briga deveria ser pela qualidade da educação." Sobre questões bastante políticas na UnB, como cotas raciais e o Reuni, Davi foi pragmático: "São coisas que já aconteceram, não da melhor forma possível. O que podemos fazer agora é tentar melhorar o que já foi feito. As cotas estão garantidas até 2014 e o Reuni já foi implementado."

Uma das promessas de campanha e prioridades da Aliança é modificar o estatuto do DCE e implementar o parlamentarismo. "É mais difícil para um partido cooptar dezenas de centros acadêmicos do que uma única chapa", calcula Davi. Outra vantagem do novo sistema seria que as pautas, trazidas pelos centros acadêmicos, estariam mais próximas da realidade dos estudantes do que aquelas promovidas por uma única turma. "Se conseguirmos isso, vamos deixar o poder", garante.

Quase

Aliados estavam confiantes que Vinícius do Carmo, de 18 anos, estudante do 1º ano de Ciências Sociais, tomaria posse em 11 de dezembro como presidente do DCE da USP. Mas não foi desta vez. As eleições, marcadas para os dias 22 a 24 de novembro, foram adiadas para 2012 por uma assembleia de alunos na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Pelo estatuto, a assembleia não tinha competência para tanto, mas uma reunião de centros acadêmicos neste sábado, dia 26, referendou a decisão por 22 votos a 16, com 3 abstenções. A maior parte dos votos contrários vinha dos cursos do interior, como Ribeirão Preto, que reclamavam não da violação das regras, mas do fato de a assembleia "do Butantã" não poder decidir por toda a universidade.

Para Pilar Gomez, de 24 anos, estudante de História, as eleições na USP foram adiadas este ano sempre que a situação teve medo de perder. "As eleições dos centros acadêmicos de Ciências Sociais, Filosofia e Geografia se realizaram normalmente, mesmo no contexto da greve estudantil", enumerou ela, que integra a chapa Reação. "Inclusive, diretores do DCE integram chapas também nos CAs. Mas o argumento não é válido para o prédio ao lado: na Letras, na História e para o DCE como um todo, as eleições foram adiadas." A Reação é a única das cinco chapas favorável à presença da PM no câmpus.

Vinicius, que é da juventude do PSDB, diz que sua chapa quer restaurar o movimento estudantil. "Não gostamos de entrar nisso de direita ou esquerda. Na chapa, temos gente de direita e pessoas de centro-esquerda, como eu. O que nos une é termos todos um pensamento pós-muro de Berlim; as outras chapas são pré-queda do Muro", afirma.

Um de seus objetivos é uma USP mais aberta. "Quero que minha irmã menor vá lá ter aulas de inglês, que as pessoas tenham acesso às bibliotecas. E um lugar aberto a todos precisa ter segurança, precisa de polícia", diz. "A USP tem que deixar de ser elitista, ter mais gente de escola pública, ter cursos de verão para a comunidade." Para Vinicius, a  direita é muito demonizada, mesmo no cenário acadêmico. "Sou avesso ao discurso reacionário", diz, "mas veja a reforma que a Margaret Thatcher (1979-1990) fez no ensino britânico: uma universidade mais aberta, o professor realmente como funcionário do Estado, cursos de verão e de inverno. Os conservadores fizeram muita coisa boa."

* Corrigido às 14h59 de terça-feira, 29. No 9º parágrafo, o correto, claro, é TSE e não TCE.

* Corrigido às 15h01 do mesmo dia: na UnB, a chapa se chama 'Aliança pela Liberdade', não 'Conservadora'.

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