Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2017 | 05h00

SÃO PAULO - De exames de imagens a testes genéticos precisos. Os avanços científicos na Medicina não são poucos. Mas o desafio central continua o mesmo: cuidar do paciente, o que significa, além de diagnóstico e tratamento, proporcionar bem-estar e autonomia. Ligada a uma tradição tecnicista, a Medicina se volta agora para a humanização, e especializações na área tentam dar conta da necessidade de treinar o olhar e os ouvidos dos médicos para compreender a pessoa que está por trás da doença. 

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Cursos de pós ligados à humanização preenchem as lacunas que ainda existem na graduação, dizem especialistas. A médica Priscilla Fiorelli, de 29 anos, conta que não teve, durante o curso de Medicina, disciplinas voltadas para a humanização. “A única que chegava mais perto era a de Psicologia. Mas desde que entrei na Medicina sempre quis seguir o paciente a longo prazo.” 

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Priscilla buscou o curso de Bases da Medicina Integrativa, no Albert Einstein, pioneiro no Brasil. “A proposta é ter uma abordagem voltada para a pessoa. O foco é no bem-estar global - físico, emocional, social e espiritual -, por meio do cuidado próprio e da autonomia, na possibilidade de o paciente participar”, diz a coordenadora do curso Denise Tiemi Noguchi. 

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Na formação, os alunos aprendem, além dos tratamentos convencionais, a indicar outros tipos de terapias como ioga e meditação. Para isso, têm, na grade da pós, oficinas. “Eles têm 16 horas de aula de ioga, por exemplo. Se o profissional não experimentar, como vai poder indicar?”, explica Denise. 

Para Priscilla, conhecer as possibilidades ajuda na atuação profissional. “Na prática agora, uso a meditação junto da acupuntura. Vi que uma potencializa a outra”, conta a médica, especializada em Clínica Geral. Os atendimentos em seu consultório, diz ela, duram de uma a duas horas. “Não tem consulta de 15 minutos.”

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Diálogo

Outro foco da Medicina que se propõe a ser mais humanizada é melhorar a comunicação dos profissionais da Saúde com os pacientes e a família. Para isso, assim como alunos do curso de Medicina Integrativa, estudantes de outras pós do Einstein passam por um centro de simulação, em que treinam como abordar o paciente. “Dividimos os alunos em grupos pequenos e um deles interage em tempo real com um ator. Depois, a gente discute e revê como foi a comunicação, o que deu certo e quais foram as dificuldades”, diz Thomaz Bittencourt, médico do Centro de Simulação Realística do Albert Einstein.

Para a psicóloga Ana Merzel, comunicar más notícias aos pacientes e seus familiares é prática comum a muitos profissionais de Saúde, mas nem todos têm formação para isso e acabam fazendo de forma pouco cuidadosa. “O profissional fala de uma maneira que o paciente não consegue entender e, com isso, encerra a conversa bem rapidinho”, explica Ana, que coordena o curso de atualização em Comunicação de Más Notícias, do Hospital Albert Einstein. 

A formação inclui a discussão de casos reais entre os alunos e até atividades sobre linguagem. “A forma como a gente fala é importante porque pode criar uma comunicação dúbia”, explica Ana. O curso, mais curto do que uma pós-graduação, pode ser feito presencialmente ou a distância e atrai estudantes de diferentes especialidades. 

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Gestão

Além de conhecer os conceitos do atendimento mais humanizado, um desafio é colocá-los em prática e torná-los uma política nos serviços de saúde. A questão é assunto do curso de pós-graduação em Gestão da Humanização em Serviços de Saúde, oferecido pela Escola de Educação Permanente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). 

Na especialização, os alunos discutem como tornar a gestão dos serviços de saúde mais participativa - envolvendo, além dos profissionais, a visão dos próprios pacientes sobre o atendimento. Também desenvolvem ferramentas de gestão, como indicadores para avaliar as ações de humanização na área onde atuam. 

Para a ginecologista Lisandra Stein, que fez a pós, a formação dá base para a atuação profissional. “O que mais me chamou a atenção foi a possibilidade de embasar a integração da humanização no atendimento do dia a dia”, diz ela, que coordena os grupos de Cirurgia Fetal e de Atendimento Integral à Gestante de Fetos com Malformação do Hospital das Clínicas. 

Aprender sobre indicadores de humanização, segundo ela, também é essencial. “Transmitir essa informação do atendimento para uma quantificação que faça sentido para o gestor do hospital é um desafio e é muito importante. É implementar uma ação e avaliar de que forma isso se relaciona com a satisfação dos pacientes.”

O curso, com aulas a distância e encontros presenciais, já recebeu alunos de várias partes do País e tem previsão de voltar a ser ofertado no ano que vem. 

Curso debate efeito de terapia de câncer

A preocupação com o bem-estar do paciente é uma das tônicas da pós em Dermatologia Oncológica do Hospital Sírio-Libanês. "Os pacientes oncológicos têm reações cutâneas que têm impactos na qualidade de vida e na aderência ao tratamento", diz a coordenadora Cristina Abdalla.

Para o dermatologista Murilo Carapeba, de 37 anos, a atenção ao paciente é dos pontos que o atraiu para cursar a especialização. "O paciente que recebe um diagnóstico de câncer precisa de um cuidado especial", diz ele, que está no início da pós-graduação no Sírio.

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Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2017 | 05h00

SÃO PAULO - A dor dos pacientes é uma questão a ser resolvida pelos profissionais de Saúde. Beatriz Leal, de 33 anos, sempre soube disso. Mas, apesar do conhecimento, se sentia impotente diante do sofrimento de quem atendia. “O que a gente percebe, ao longo dos anos de vivência da Medicina é que, apesar de o controle da dor e alívio do sofrimento ser responsabilidade nossa, na verdade a gente não sabe tratar”, diz a anestesiologista. 

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O impasse levou a médica a buscar uma formação para compreender as dores e aprender sobre intervenções para melhorar o bem-estar dos pacientes. “O que a gente viu é que cerca de 35% da população e 70% dos pacientes com câncer terminal têm dor. No curso, você começa a ver que tem de tratar o paciente. É conforto e alívio do sofrimento”, diz a médica que fez a pós-graduação em Cuidados ao Paciente do com Dor, do Hospital Sírio-Libanês. 

Cursos sobre dor e cuidados paliativos - assistência a familiares e a doentes com enfermidades graves - se inserem em uma lógica de formar profissionais atentos não só à precisão dos tratamentos, mas em proporcionar bem-estar e qualidade de vida aos pacientes . Nas turmas, é importante que estejam presentes, além de médicos, profissionais como enfermeiros e fisioterapeutas, já que isso demanda conhecimentos integrados. “Aprendemos a trabalhar de modo colaborativo”, diz Beatriz. 

Para discutir o tema, os alunos têm contato com experiências reais. “Temos discussões de casos clínicos verdadeiros. São pacientes que autorizaram que seus casos sejam discutidos com alunos”, explica o coordenador da pós no Sírio-Libanês, João Valverde.

A análise de casos também é uma das metodologias de dois cursos de pós: um em Medicina Paliativa e outro em Cuidados Paliativos, oferecidos pelo Instituto Paliar no Centro Universitário São Camilo. O primeiro é destinado a médicos. Já o segundo, voltado a profissionais de Enfermagem, Serviço Social, Fisioterapia, entre outros. As turmas se mesclam em alguns momentos. “Justamente para um aprender a ‘desestranhar’ o outro”, diz Maria Goretti Maciel, diretora do Paliar. “Uma das coisas mais importantes na área é o trabalho em equipe”.

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A visão horizontal do adoecimento é o que falta à formação dos profissionais. Não olham para trás e não veem o futuro. As pessoas agem muito baseadas em protocolos. É como se perdessem a capacidade de enxergar em 3D.
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Maria Goretti Maciel, diretora do Instituto Paliar

Com o objetivo de capacitar profissionais para atuar nos cuidados paliativos, as duas pós do instituto tratam de temas como os aspectos culturais e religiosos e a comunicação com os pacientes. “O cuidado paliativo é centrado na pessoa, muito mais do que na doença”, diz Maria Goretti. 

Renovação

Para o médico Tomaz Aquino, de 35 anos, especializado em Geriatria, os cuidados paliativos não são exatamente novidade, mas estudar o assunto foi um modo de sistematizar e aprofundar os conhecimentos. “Foi bom ouvir e captar experiências de quem já está na área há mais tempo”, diz o geriatra, que cursa o primeiro ano da pós-graduação em Medicina Paliativa no São Camilo. 

O contato com profissionais de outras especialidades na turma, diz ele, é positivo. “Tivemos aula com uma fisioterapeuta sobre como mobilizar (trocar de lugar) um idoso. Sempre fiz isso na minha vida, mas ninguém me parou para dizer (como)”, comenta. 

Além da integração com outros profissionais, as discussões sobre bioética, comunicação e dor chamaram a atenção do médico. “A dor física pode espelhar um componente psicossocial, espiritual, que não vai demandar só remédio ou tratamento médico, mas uma abordagem psicológica.”

Para ele, que lida diariamente com idosos em fase avançada de demência, a formação tem aplicações no trabalho. “Já percebi a importância de envolver a equipe e a família nas discussões a respeito de decisões de fim de vida. Estudo e, na mesma semana, vejo que devo melhorar algo na minha prática.”

Finitude

As questões ligadas à morte também viraram assunto do curso de Cuidados Paliativos e Tanatologia das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), que deve receber a primeira turma no ano que vem. Entre outros aspectos, a formação direciona o olhar para a atenção ao próprio cuidador. 

Submetidos a situações estressantes, em que a vida do paciente está, muitas vezes, em suas mãos, profissionais de saúde precisam de ferramentas para o autocontrole e aceitação das próprias falhas. “O foco é ajudar o profissional a lidar com o luto e a morte”, explica a idealizadora da especialização, Carolina Klomfahs. 

Para lembrar

Atenção após diagnóstico

O conceito de cuidados paliativos foi definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1990, como a assistência para melhorar a qualidade de vida de pacientes com câncer em fase terminal. Em 2002, isso foi ampliado a doenças que ameaçam a vida.

Para a OMS, as ações paliativas devem ter início logo após o diagnóstico e se desenvolverem de modo integrado às terapias capazes de mudar o curso da doença. Consenso aprovado no último congresso da Associação Americana de Oncologia Clínica, nos Estados Unidos, prevê que as práticas voltadas ao conforto e à qualidade de vida do paciente devem começar, no máximo, oito semanas após o diagnóstico.

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Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2017 | 05h00

SÃO PAULO - Humanizar a formação dos médicos demanda expandir o olhar para o novo lugar do paciente. É o que defende a professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) Izabel Rios. “Ele não está aí para obedecer o que um médico diz que ele tem de fazer. Esse protagonismo do paciente tensiona a escola médica.”

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Para ela, os desafios vão desde a formação de professores até a prática nos hospitais, com integração entre alunos de diferentes áreas e até entre funcionários que não estão ligados diretamente à Saúde. “A humanização tem de começar da porta, no momento em que se chega ao hospital”, diz a professora, que coordena o Núcleo Técnico e Científico de Humanização do Hospital das Clínicas da USP e o Grupo de Trabalho da Humanização da FMUSP.

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Veja trechos da entrevista de Izabel ao 'Estado':

Quais os principais desafios para a humanização da formação dos médicos?

A gente já sabe que precisa trabalhar com os conceitos, as atitudes e valores da humanização. A questão é como. A escola médica vem de uma tradição muito tecnicista. Está ancorada nessa tradição de uma ciência que tirou do seu foco os aspectos humanísticos que a sociedade quer que o médico esteja atento. Mudou o lugar do paciente. Ele não é um sujeito que recebe uma ação, ele atua junto com o médico. E não está aí para obedecer o que um médico ou profissional da Saúde diz que ele tem de fazer. Esse protagonismo do paciente tensiona a escola médica. E a escola vem tentando responder a isso inserindo conteúdos humanísticos na formação.

Quais os caminhos para uma formação mais humana?

Primeiro, é preciso professores capacitados, conscientes e dispostos a trabalhar isso. O desafio é envolver todas as pessoas no conceito novo de cuidado humanizado. É algo que a faculdade (de Medicina da Universidade de São Paulo) está tentando fazer com o currículo novo. Teria de capilarizar a ideia do cuidado humanizado em todas as disciplinas. O outro desafio é que, para desenvolver uma atenção humanizada, precisa de serviços humanizados. A gestão tem de ser atenta às necessidades de acolhimento, de gestão participativa. A humanização tem de começar da porta, no momento em que se chega no hospital. Uma atitude de acolhimento no porteiro, no recepcionista e em todos os momentos em que a pessoa estiver sendo atendida. 

De que modo a integração entre profissionais poderia ser estimulada na graduação? 

É muito mais uma questão de atitude nas escolas. Hoje não dá mais para pensar no cuidado à saúde sem a interdisciplinaridade. Temos de ter a conjunção de saberes porque as situações de saúde e doenças são muito complexas. No ensino superior, ninguém fala com ninguém. Formam todo mundo e depois põem para trabalhar junto dentro hospital. O Hospital das Clínicas, por exemplo, é o campo de treinamento entre médicos, enfermeiros, fonoaudiólogos, fisioterapeutas. É onde a interdisciplinaridade faz sentido. Pode todo mundo ter suas aulas na faculdade, aprendendo bem o seu campo. Mas, depois, quando vai para o hospital, começa a discutir o caso todo mundo junto. O aluno tem de ir para o campo de prática desde o primeiro ano e desde então é possível fazer discussões de caso clínico juntando alunos de diversas áreas. A dificuldade tem a ver com não se buscar uma estratégia educacional de integração.

Estudantes e professores reconhecem a importância da formação humanizada?

O assunto divide opiniões. Temos desde professores que entendem que essas competências para o cuidado humanizado são aspectos que devem ser desenvolvidos e estão dispostos, como professores que vão dizer que isso é de berço e que não precisa desenvolver. Toda a literatura hoje é contrária a esse segundo posicionamento. Vários estudos mostram que comunicação e empatia se desenvolve e acolhimento é uma atitude que se constrói e que precisa, sim, desse desenvolvimento.

Formações de pós preenchem certas lacunas da graduação que ainda não foram alcançadas? 

Em cursos de especialização (lato sensu), as experiências são positivas. Mas o senso stricto (mestrado e doutorado) ainda patina. Nos programas de pós-graduação na USP é difícil de achar algum que dê atenção a essa tema. Isso acaba entrando mais por uma disposição do orientador.

Por formação mais humanizada, USP muda currículo 

A graduação em Medicina da Universidade de São Paulo (USP) vem passando por mudanças para aumentar o fator de humanização na grade. As alterações começaram em 2015 e foram feitas após avaliações que apontaram falhas na formação dos profissionais.

Com a nova proposta, a Faculdade de Medicina prevê que, ao final do curso, os estudantes consigam se comunicar efetivamente com a comunidade, os pacientes e as equipes de Saúde e trabalhar de forma colaborativa em equipes multiprofissionais. 

Para alcançar estes objetivos, a presença em sala de aula foi reduzida em, aproximadamente, 30%, permitindo aos estudantes mais tempo livre para se dedicar a atividades extracurriculares e de extensão e iniciação científica. Disciplinas com abordagem humanística - sobre cuidados e relação entre médicos e pacientes - passaram a entrar na grade dos alunos de graduação desde o primeiro ano de faculdade. 

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